sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Barbarella (I)

Acordei indignada. Menstruada. Monstruosa. Horrorosa. Cheia de cabelos brancos. Acordei odiando mais do que o de costume a impunidade do Brasil.  Foi isso que Barbarella me disse antes de voltar para a cama e pegar no sono. Às duas da tarde. Enquanto eu escrevia.

Jaque e a banana

Com 265 votos não, 166 sim e 20 abstenções, a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) foi absolvida pelos colegas de Câmara, após ser acusada de quebra de decoro por recebimento de propina. Foi essa a notícia. O vídeo em que ela  aparece recebendo dinheiro sujo foi gravado em 2006 e veio a público em março de 2010.  A votação secreta atrasou cerca de uma hora, pois os líderes de partidos estavam ocupados articulando seus acordos. O medo dos coleguinhas deputados de enfrentarem antigos processos foi maior do que a necessidade de dar uma resposta aos seus representados. Então a tese da defesa venceu. A deputada foi absolvida porque o vídeo foi gravado em 2006, quando a deputada ainda não era deputada. Era apenas "uma cidadã comum", como ela mesma argumentou. E assim, Jaque saiu da Casa, linda e loira, antes da votação terminar.

Depois disso, o velho de barba que engrossava a massa dos representados aguardando por uma resposta no saguão da Câmara vomitou, lembrando do dia em que desistiu de furtar uma banana por medo de ir em cana.

Enterro

Medicamentos genéricos foram encontrados enterrados num lixão. O laboratório (ir)responsável foi autuado. Foi essa a notícia. Alguns medicamentos ainda estavam no prazo de validade. A maioria era de antibióticos e antiinflamatórios. Sabe-se que o laboratório foi o autor do enterramento, da sacanagem, do delito, do crime. Por isso ele foi autuado. Por isso ele terá alguns anos para se defender. Por isso ele levará um tempo bolando uma tese em que a palavra "impunidade" sequer possa ser lembrada. O dono do laboratório - um homem grisalho, forte e alto, com cara de George Clooney - resolveu beber um drink e dar um mergulho na piscina. Para relaxar. 

E no exato momento em que o Clooney genérico prendeu a respiração para o mergulho, seu Silva perdeu a respiração para sempre. Porque lhe faltou leito, porque lhe faltou o antibiótico, porque lhe faltou ar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

a tal mulher e o tal bloquinho

a tal mulher não fala com ninguém, mas escreve. fica sentada no banco da praça capturando palavras. fala sozinha sem olhar para o lado. e depois escreve num bloquinho encardido. quando chega em casa, guarda o tal bloquinho na primeira gaveta do criado-mudo. lá dentro já tem um mundo.  

se você tivesse

se você tivesse a inquietude que eu tenho. se você tivesse a juventude que eu tenho. se você tivesse a inventividade que eu tenho. se você tivesse a mutabilidade que eu tenho. se você tivesse a desconfiança que eu tenho. se você tivesse a ânsia que eu tenho. eu teria pena de você.

sábado, 3 de setembro de 2011

eu e nem

eu e nem passamos a tarde andando pelas ruas do bairro, pisando as calçadas limosas que contornam as casas. em frente a elas, imaginamos vidas que não eram as nossas. abrimos janelas e sentamos em varandas. comemos bolo em cozinhas velhas. fizemos xixi em banheiros rotos. deitamos em quartos ensolarados para olhar nos tetos os mofos. e um monte mais. eu e nem adoramos isso, sonhar que somos outros.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

um segundo (I)

a gente pode por um segundo ser um pedacinho de tudo o que agendamos ser. só um pedacinho. (e quinze minutos é muito). basta consultar teu íntimo e acolher o que mais se parece contigo. tua fatia do segundo será esta. aprendi isso com minha avó que é velha e atéia.

o sapo

o sapo cansou de coaxar. e o xis do verbo se sentiu louco, bom e deslocado. só aceitou o desafio, a ânsia do fio, o desreto, o torto, o calafrio, porque estava ali para colaborar.  nenhuma palavra previu da origem bisonha que aquele xis acabara de perpetrar. então para sempre os brasileiros entenderam isso: o xis no verbo é o coaxar do sapo. [plim!].´

nada melhor

nada melhor do que escrever bebendo. vinho. no frio. com a lareira acesa. sozinha em casa. fotografias espalhadas pelo chão. caderno e canetas na banqueta. computador no colo. uns poucos livros ao lado, acomodados no sofá (mas nenhum dorme, estão acordados). escrevo este texto, esta palavra, esta letra. a. ahhhh. a. agora, neste momento, ESCREVO. UTILIZANDO A TECLA "fixa" SIGO NESSE RITMO DO INÍCIO AO COMEÇO, IGNORO O MEIO E DESLIGO. FIM. refugando o tempo.

cria ao pé

sou uma mulher com a cria ao pé. e mesmo assim todos me querem. os homens torcem o pescoço ao me ver. pedem meu telefone quando trocamos meia dúzia de palavras. e minha cria está sempre ali, altiva e ativa, mostrando para todo mundo que aquela bandeira ao meu lado é dela - foi ela quem fincou. enfim, sou uma mulher com a cria ao pé. recém pari, como uma vaca, como uma ovelha, mas sigo meu caminho ciscando feito uma galinha. feliz da vida porque o mingau do meu filho é de milho. feito por mim, a melhor mingauseira da vila.

enfim, setembro

neste primeiro de setembro, sol e um post florido. orquídeas, rosas, margaridas, tulipas, marias-sem-vergonha, bromélias, dálias, camélias, crisântemos, lírios, gérberas, hortênsias, lavandas, narcisos, girassóis, cravos e begônias.