domingo, 29 de janeiro de 2012

banho de sol (delícia, delícia)

nem sempre foi branca feito um papel não-reciclado. até os dezesseis anos tomava sol adoidada para ficar negona. desde então, nunca mais. um mero raio solar matutino já lhe causava ojeriza, repulsa. ela agia como um mosquito fugindo do inseticida. seu traje de praia era vestidão e chapéu de abas largas. parecia uma gringa.

eis que tudo mudou. em plena era da campanha contra os raios UVB, ela resolveu pegar um bronze. se jogou numa cama improvisada e botou o bundão de cara para o sol. passado algum tempo, estava como desejara: tostada. suas endorfinas enlouqueceram de alegria e chamaram novas colegas para compor o elenco!

com a tez vermelha-tomate, sentiu seu corpo todo pulsar: ele estava vivo e faria recém dezessete anos.    

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

com muito blush,: desgranidas de plantão

texto meu no com muito blush,:


com muito blush,: desgranidas de plantão: já botei inseticida. já tapei o buraco com massa-corrida. (e já me conformei com a marca no marco da porta). mas nada detém a sua cobiça. ...

a palavra dos outros: O nome dele é Pedro

texto meu no a palavra dos outros:


a palavra dos outros: O nome dele é Pedro: Descobri a música e a poesia de Pedro Veríssimo. Sim. Filho de Luis Fernando, neto de Érico. A vontade que eu tenho é de colocar aqui todas ...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Então... [!]

Laura levou o marido. Ana Paula levou o namorado. Juliana levou os dois filhos. Cristina levou o enteado. Magda levou o poodle de estimação.  


Acompanhadas de seus respectivos, todas compareceram à reunião. Menos Luiza,


[que enviou um cartão postal dizendo:]


"Aqui está tudo bem. Não se preocupem comigo. O que vocês decidirem, eu acato. 
Só volto para o Brasil quando acabar o sucesso do Michel Teló.

Bjs, 
Luiza.
Canadá, janeiro de 2012." 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Maria x João

Maria estava tensa e João estava cansado. Há duas noites ela fritava na cama sem conseguir engatar no sono. Há duas noites ele acordava de hora em hora. Ela agarrava os seus despertares com unhas afiadas, e iniciava um discurso sobre a necessidade de renegociarem o casamento - aproveitando para atacar as falhas da parte adversa e retalhar a auto-estima que esta tentava resguardar naquelas 48 horas de sindicância. Ele só queria dormir e prorrogar o contrato, mas disse "vou melhorar". Ela saciou o animus vincere, mas disse "um vaso quebrado será no máximo um vaso remendado". Foi aí que João percebeu que a única maneira de preservar sua integridade consistia em calar-se. Nada mais restava a ser perpetrado, só o silêncio. Maria sentiu uma fisgada no útero, e passou a contar carneirinhos escalpelados. João virou para o lado. Na manhã seguinte ela menstruou.

A higiene do pátio

A higiene do pátio é impossível sem uma higiene mental. Apego-me aos arbustos mais vagabundos, à flores mais sem-vergonhas, aos inços mais daninhos. Para eliminá-los, preciso focar na impermanência - e na impertinência dessa minha mania de viver atrás da moita.

O cheiro de mato

O cheiro de mato cortado provoca-me sensações indescritíveis, como se resgatasse de meu reservatório afetivo todos os colos que recebi na vida. Sinto a minha infância como se houvera sido ontem. Sinto meu lado bicho despertar: ando de pés descalços para sentir a gosma da grama melecar. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

cortadeiras

faz três noites que deixo acontecer. antes de ferrar no sono vou à sala fumar um último cigarro. sento na cadeirinha de praia e fico observando as formigas cortadeiras modelarem o "jardim suspenso" que acortina a janela. vejo só a silhueta. é bem escuro ali. 

o corte e carregamento das folhas produz silhuetas negras impressionantes. 

por instantes, extrapolo a contemplação formal e penso na logística da coisa. como em toda cooperativa, há trabalhadores caxias e outros folgados. corpos idênticos carregam pedaços de tamanhos bastante díspares, abismilhantes. muitas das formigas se ajudam. agrupam-se e afastam-se formando uma espécie de balé de pulgas na corda bamba, que são as hastes da trepadeira - pontos duplos móveis sobre a linha retorcida.

hoje, terceira noite, tenho uma leitura quase científica das imagens. entendo os contornos por mais complexos que sejam a coreografia e o ângulo de visão. do abstrato ao figurativo -  tudo muito interessante e bonito. mas esse espetáculo não terá uma quarta noite (quem assistiu, assistiu; quem não, perdeu). sabotarei as cortadeiras. deixarei ao seu alcance dezenas de naquinhos tóxicos que naturalmente levarão para a toca. formigas-bomba. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bacon

Acordou tetuda feito uma vaca. E que assombrosas tetas! Mugiu na frente do espelho ao ver a imagem da própria cara: magra e pálida - sem combinar com o corpo, com o resto, o todo. Em homenagem à desarmonia, tomou um café forte e escreveu uma frase na lata de lixo da cozinha: "Não há beleza excepcional que não tenha alguma estranheza nas proporções". Francis Bacon.  

Glauco

toda a doçura e toda a amargura do hemisfério residem em Glauco. toda a candura e toda a safadeza também. ele passa os dias perambulando pelo mato, procurando distração. recebe teu afago com gratidão e quando vais embora ele te olha com cara de aflição. é capaz de rolar aos teus pés só para te fazer rir. é capaz de te ignorar para te fazer ir. Glauco é uma figura emblemática. tem só três patas e sobe no muro como quem anda de bicicleta.  

dance-me (II)

dance-me do jeito que eu mereço. para acompanhar teus passos preciso entendê-los. para cochichar no teu ouvido preciso tê-lo mais perto. gosto de me encontrar no teu ritmo.


[para lelo] 
dance-me (I)
dance-me do jeito que tu bem sabes. gosto de acompanhar teus passos enquanto cochicho no teu ouvido. gosto de me perder no teu ritmo.  

domingo, 15 de janeiro de 2012

para Lílian, a rebelde

eu sou artista porque o mundo quis assim
porque outra coisa simplesmente não vingou
e queria fazer tudo que há em mim
 
eu sou artista porque o mundo quis assim
porque nunca existiu maior pendor
e foi assim desde o dia em que nasci


mar asmar

lá ele ficou marasmando o quando pôde. puxou um cachimbo de ervas finas do bolso, e acendeu sem dificuldades. nem tossiu. o sol batizava seu corpo e a brisa do mar batia em seu rosto. a fumaça da coisa se dissipava manchando de branco o céu azul anil. superbonito. olhar dessujo. ele simplesmente sorria e marejava - como um bom viajante. marujo.  

sábado, 14 de janeiro de 2012

cheio

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vazio

.{nada}

[shhh!]

SILÊNCIO

lê í

era de manhãzinha. estávamos andando pela estrada de chão. ele levava a sacola e eu o chimarrão. não sei se por que o galo cantou ou se por que começou a relampear. mas ele decretou: pelo mato é hora. arriba a saia, vamos embora*. e eu o obedeci pela primeira vez.


 

[* Caetano Veloso, Transa]

Amor,

Amor,

Sinto informá-lo, mas te odeio. A raiva cresceu na minha barriga como uma lombriga - uma solitária gorda e comprida. Não adianta me telefonar, não adianta me escrever belos emails. Não responderei. Estou ocupada demais com a raiva, o verme, a verve. Só me desocupo depois da febre, da purga, da cura. E lamento informá-lo que o nome disso não é rancor nem loucura. 
É cólera.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

dance-me (I)

dance-me do jeito que tu bem sabes. gosto de acompanhar teus passos enquanto cochicho no teu ouvido. gosto de me perder no teu ritmo.  

a letra Maiúscula [e Mim]

depois da internet, das mensagens sms e demais invencionices, a letra maiúscula ganhou uma folga. foi desaparecendo e tornou-se quase dispensável. o que parece importar é tão-somente o conteúdo. quanto mais discreta a forma, melhor - porque mais direta a mensagem. 

mas confesso que tenho esse hábito pela forma

visualmente me agrada mais um texto todo em letras minúsculas, embora saiba que na hora da leitura isso possa atrapalhar. dependendo do meu humor escrevendi e do tipo de texto, utilizo ou não a letra maiúscula (assim como me dou à estroinice de inventar palavras ou catá-las no dicionário e usá-las a meu modo - "de orelhada"). 

não sou escritora, não tenho compromisso com a lingüística. nunca estudei literatura ou línguas (não que não haja vontade). sou mais uma artista que usa a palavra como instrumento, uma escrevedora, uma brincalhona. minha bagagem é o que capturo da vida e espalho aqui neste canteiro de inços: apenasmente eu, as pessoas que encontrei pelo caminho, as artes que gozei, um dicionário e uma caneca de café.   

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

uma versão [adap. J. Drexler]

[dou-me à ousadia e ao luxo de fazer essas "adaptações" de letras de músicas
porque gosto de exercitar a prosa e o verso, o avesso e o direito, o talvez e o certeiro, 
o sofisticado e o bagaceiro, o som e o mudo, a palavra do outro e a minha, essas coisinhas].



O véu semitransparente do desassossego instalou-se entre o mundo e meus olhos. Eu estava empenhada em não ver o que vi: achaste que iria quebrar-me e subiste as apostas. Me fizeste sentir o sabor da minha própria cozinha e voltei a crer que se tem aquilo que se merece.

Todas as versões têm lugar à minha mesa e todas as canções por uma só certeza: que não leves de mim nada que não te marque. No final o tempo dirá se nos valeu a dor passada. Pelo que vi, me perder te rejuvenesce. Melhor ou pior, cada qual seguirá o seu caminho - e talvez tu seguirás sem saber o quanto eu te quis.

O que iria doer para sempre já se desvanece.

A vida é mais complexa do que parece.





[adaptação de La Vida es Mas Compleja de Que Parece. Jorge Drexler]

cocô de camarão

dizem as mulheres mais metódicas da minha família que é preciso tirar o fio preto do camarão. dizem que aquilo é cocô. elas vão para cozinha e ficam horas à fio na função da retirada do tal fio preto. enquanto isso batem papo. discutem a vida alheia como se a vida alheia fosse uma novela, despejando seus imensos códigos de juízo moral sobre a travessa de camarões descagados. eu acho, mesmamente, que elas merecem perdão - porque não sabem o que fazem. que mal haveria de haver no cocô de seres que se alimentam de fitoplancton?

calor e bobagens

quando a temperatura passa dos trinta graus, fico assim. nenhuma asneira me escapa, nada que preste se apresenta. só escrevo bobagens. 

elas me socorrem - me abanam. 


penso em como eu seria se vivesse no norte do país - ou em Al Azizyah (Líbia), no deserto de Lut (Irã), em Kolda (Senegal). penso que eu seria bronzeada.

sigo

sigo os dias com meu reboque à reboque: ventilador de pé. como extensão de Mim, ele é incansável. nunca tive tamanho parceiro, nunca pude contar com alguém assim, nunca soube o que era dedicação, talvez desconhecesse o amor. o ventilador é meu pastor.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

seleção: [in progress]

sf. Ato ou efeito de escolher:

vti. Optar:

vint. Decidir-se:

vti. Determinar:

v.t. Delimitar:

v.t. Demarcar:

v.t. Definir:

v.t. Discriminar:

 v.t. Distinguir:

 v.t. Diferençar:


vint. Desembaraçar:

vtd. Resolver:

vti. Escolher.

pais ateus

filha de pais ateus, ela se criou sem saber de onde veio nem por quê. construiu uma casa no mato e fez um altar para a natureza - sem cimento e sem tijolos, só com matagal e trepadeiras. para ela, o sentido da vida é viver. tudo o que for vivo merece ser.

árvore-inço

tudo era apenas uma brincadeira (modelo vivo para foto) e foi crescendo, crescendo, até se tornar árvore. em volta, foram morrendo rosas e gramíneas. a zeladora do mato não teve forças para aplacar a força vital da árvore-daninha. teve de chamar o jardineiro para fazer o corte. coitadinha. começou então a batalha que culminou no massacre - da serra elétrica. a conta de luz subiu consideravelmente, tamanha a façanha do instrumento de morte. mas ver rosas brotando e gramíneas se alastarando é, para a zeladora, sinal de sorte.

calor

que bom que sou uma pessoa mentalmente saudável: com um id controlado e um superego desenvolvido. não estrangulei os cachorros. não quebrei a cafeteira. não mandei o zelador à merda. não pedi demissão. não mostrei o pai de todos pra vizinha. não furei o bolo. não rasguei as contas do mês. não tomei um porre. não rapei a cabeça. não saí pelada na rua. não chutei os baldes. 

para meu princípio de realidade, o calor é a prova de fogo.

Forno Alegre

Acordei às cinco e meia da manhã. Naturalmente. Vim escrever. 

Acho que meu corpo é mais sábio que minha mente. Sabe o que quer e quando. E quanto e como. Depois das dez horas o calor é tão insuportável que ele (corpo) desperta mais cedo para trabalhar. Quando a cidade estiver fervilhando, ele (corpo) estará estirado e imóvel na frente do ventilador. 

Viver em Forno Alegre em janeiro-fevereiro-e-março é como passar uma  temporada dentro da panela de pressão - ou numa sauna à vapor (sendo fina), sobre o mármore do inferno (sendo trágica), imersa na cuia de chimarrão (sendo gaúcha), em cima da chapa quente (sendo brasileira). 

São seis horas e cinquenta e sete minutos mas meu corpo avisa minha mente que não adianta ir à padaria. O padeiro não sabe que nessa época do ano não se trabalha só a partir das oito. Acho que ele precisa de ginástica. E que um pouco de leitura não viria mal.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

foda

a palavra que mais lhe ocorreu naquela terça-feira tórrida foi "foda". suas forças alcançavam meras quatro letras. nenhum sujeito, nenhum verbo. nenhuma oração. o dia inteiro, foda. 

in_erno

hoje eu abdicaria da visão, do tato, do olfato e do paladar - para viver numa bolha refrigerada. tantos sentidos para tão ínfima disposição? não, muito obrigada. eu cantaria dentro da bolha e isso me bastaria. a música seria "Inverno". só ficaria a audição - cristalina em pleno inferno.




[Adriana Calcanhotto, Inverno]

a esmo

faz calor faz calor demais faz calor demais mesmo

ninguém querendo

escrevo

faz calor faz calor demais faz calor demais mesmo

ninguém lendo 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sr. Jardineiro,

"Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde,
desde às três eu começarei a ser feliz".

Saint-Exupéry, O Pequeno Príncipe

oração ao jardineiro II

jardineiro amigo,
dono do poder transformador da poda,
apareça por favor.

e cuide do verde que me cerca,
antes que ele invada outras esferas
e me leve a encontrar João.




eu mereço,
pois tenho sido uma boa pessoa,
um bom ser humano,
uma boa alma
mesmo.

amei.

gana

gana de revirar o solo, arrancar os inços, desertificar o pátio, despovoar a nação daninha que se forma sufocando as (tão esperadas) gramíneas. é preciso ser determinada e forte. não pode haver preguiça nas mãos da morte. 

Quilópode

Acordou estranhando o barulho da casa às seis e meia da manhã. A mulher que mora lá não costuma acordar tão cedo. Ainda mais quando dorme tarde. Há cerca de quatro horas ela estava com o som à toda altura. A música era em outra língua, percebeu. 

Foi então que botou a cabeça para fora da toca e espiou entre os arbustos. A casa já estava aberta. Havia um cheiro de café e desinfetante que saía pelas janelas e invadia o pátio - o que tornava a paisagem sinistra, como prestes a uma catástrofe, sentiu.

Eis que a mulher apareceu na porta com uma vassoura na mão e cara de gladiador. Ela usava um vestido amarelo que lhe cairia muito bem, não fosse o puído, o encardido, o amassado. Em tempos remotos, aquele vestido deve ter sido usado em ocasiões festivas. Agora era só um vestido de faxina, soube.

Estava ciente de que, depois da casa limpa, o pátio seria atacado e escarafunchado pela gladiadora vestida para matar. E que, nesta batalha, ela viria armada com tesoura, pá, ancinho e sacos plásticos pretos aterrorizantes. Com tal vaticínio, lhe veio a raiva e o medo - o desespero de quem tem cento e trinta pernas curtas demais para correr. Quem não tem um corpo favorável deve saber pensar, pensou. 

Foi aí que teve a grande idéia: rolou a pedra mais próxima até a borda da toca, provocando o cachorro até que ele mijasse em cima da tampa improvisada, fixando-a no solo arenoso. E, encolhido no escuro, rezou para Santo Expedito. Com fé.   



sábado, 7 de janeiro de 2012

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

para violentar o teu gosto

adriana calcanhotto risoto de galinha geladeira vazia cabelos bem curtos cachorros na cama camisetão puído calcinha bege sem banho 
novela das oito vinho rosé cigarro de cravo 
portas e janelas todas abertas

o despertar do diafragma

acordei poliglota, cantando. todas as línguas na minha. 



(férias: delícia de vidinha!)

desejo

provar para mim mesma que um blog de escritos ficcionais pode ser acessado e "até lido" pelos internautas. 

(porque a gente não quer só comida).  

logo, a tralha do contador abaixo me dá o testemunho de diversão e arte. 

(porque arteiros são naturalmente otimistas).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

just [sol à pino]

come and open up your folding chair next to me*,
bom para suar.

the sea is just a wetter version of the skies*,
bom para voar.



[*Regina Spektor, Folding chair].

gato preto

gato preto atravessou a rua. do outro lado não tinha nada, nem um saco para rasgar. elegante como um gato preto, gato preto fitou o motorista com olhos de lamparina. o motorista temeu por superstição, e seguiu seu trajeto com o cu na mão. 

gato preto atravessou a rua só por diversão.  

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

sapatilha de oncinha

sapatilha de oncinha acopla-se no solo barrento. terracota. e faz ploft quando desgruda. por ser sapatilha não respinga na bunda. maravilha.

amor e flor

Amor, sinta saudade de mim. Não me deixe num canto inóspito nem no meio da bagunça nem num balaio de lembranças. Mas não me ponha na porta da geladeira nem na tela do computador nem no chaveiro de casa. Me acomode em teu peito e, só às vezes, me acorde
e me regue como a uma flor. 

manias

De todas as manias que a velhice traz, a pior de todas é o enclausuramento. No sentido metafórico e não-metafórico. Fechar as portas e janelas para barrar a entrada do vento é como tampar o nariz para um mergulho em si mesmo, à revelia do mundo que segue girando com suas belezas. É um outro tempo. Definitivamente.

palavras de Holga VI

"Estamos no mundo é para sentir. Mais do que para qualquer outra coisa, pelo que tudo indica. Os fatos mostram isso o tempo todo. Os bons e os ruins. E os neutros também. Se observarmos o entorno com atenção, podemos concluir que a única função primordial do homem é também primitiva e bela. Animal. O que ainda nos resta."
(Holga Lo-fi)

foguetes esparsos

é tarde do dia 31 de demebro de 2011. o ano vai e o passado se esvai no meu presente - sujando tudo e (paradoxalmente) limpando. fica uma outra coisa que não aquele passado. fez-se uma nova imagem. manchas e apagados e rastros e blefes e indícios e nada certo, que dirá o por vir. não preciso do futuro para existir. o agora é tudo e isso me agrada. estou feliz.  

lugar

vez ou outra passa um carro: barulho. cantos de pássaros variados e sinos de vento: música. os sapos-martelo só cantam à noite, e quando não cantam ouve-se melhor o som do brejo. nenhum lugar do mundo me é tão caro quanto este. aqui as árvores envelhecem comigo. flores brotam comigo. um tapete de musgo se formou no caminho de casa. e me recebeu debaixo de um céu branco. luz doida. bucólica.















tapete, 2012


teto, 2012

vista do mato

terra laranja vestida de verde. mais verde porque o sol não arde. céu branco, imponente - anuncia a paz dos de repentes (quem sabe?). passarinhos diversos. cantos diferentes. orquestra de pios. sinos de vento em descompasso - descompromisso. e eu com isso? nada. justamente isso. só escrevo o que me passa. por puro prazer. e basta.