terça-feira, 30 de agosto de 2011

Constatação

É impressionante como uma bobagem ventilada dá mais ibope que uma arte arremessada. [Lá lálá lá lá].

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

persiana

eu sou uma persiana. fico ao lado dessa mulher que escreve. faço parte da janela que ela teima em manter aberta. toda hora a mulher me empurra para trás e me bate na esquadria velha. ela insiste em me manter dobrada. me obriga a ser comportada. essa mulher é uma chata e eu, só uma folha de janela desalmada.

Jeremias

Jeremias apagou a luz para ficar no escuro. Trancou as palavras no palato duro. Enrolou-se num cobetor para se sentir seguro. E pensou no mar para ir embora. Atracou numa ilha deserta. Caminhou por areias lisas. Correu na praia aberta. Abriu a boca para engolir a brisa. Achou tudo uma maravilha. E voltou falando muito. Contou a proeza para todo mundo. Disse que deixou o cobertor na ilha. Mas é metira.

meu anjo

seu mau gosto é o que lhe diferencia do resto. suas piadinhas infames não têm pé nem cabeça.  sua política incorreta é risível. seu humor negro é repugnante. nínguem entende. ninguém concorda. ninguém quer saber. por isso, meu anjo, tu és ímpar. peça avulsa no balaio dos banidos   

Nublados

Hoje o dia não amanheceu. Permaneceremos todos nublados vivendo uma tarde gris. Não sei se o céu chora por isso, ou se ele esqueceu de azular ou não quis.

melecas cotidianas

- Por que você sempre guarda a garrafa d'água vazia na geladeira?

- Pelo mesmo motivo pelo qual você nunca enche as forminhas de gelo.


***
                   
- Você poderia ser mais compreensivo.

- E você poderia ser menos complicada.

                 ***                   

- Vai ter baile?

- Vai ter sim. E quem peida no salão não será convidado.

sofrimentos [a-a]

sofrimentos necessários: acordar antes das oito para trabalhar, lavar a panela de arroz queimado, se separar do namorado, passar fio dental quando estás bodeado, limpar o cocô do cachorro na calçada, não fumar em ambientes fechados, perceber que estás ganhando rugas, pagar as contas do mês, descobrir que você não é quem planejou ser.


sofrimentos desnecessários: pensar que tudo isso seria evitável.  

domingo, 28 de agosto de 2011

tudo o que ela gostaria de postar no facebook mas

conteúdo retirado
[motivo: nadaver com o resto]

Bananas de pijamas agradecem.

Irene riu à beça. 

futebolices

futebOliCes iRRitandis nO dOmingOl


somewhere

no final do filme o personagem abandona o carro e sai andando na estrada, sorrindo. e eu, em algum lugar de mim, entendo aquele sorriso rodoviário.

"não empurra que é pior"

dizia Leônidas cada vez que ela fingia ter pressa para parecer que estava melhor.

a noite de domingo

a noite de domingo já é horrível por natureza. faltam poucas horas para a manhã de segunda-feira. mas pode ser ainda pior. a noite de domingo pode se tornar medonha se ligares a televisão, se estiveres de ressaca ou sem inspiração. e, meu amigo, se tudo isso for concomitante a noite de domingo pode se tornar horripilante. 

então não reclama.

publicando lixos

o que estava no lixo foi publicado hoje, neste domingo. porque deu para reciclar os restos. o resultado ficou péssimo, mas pior seria desperdiçar as sobras. somos ecologicamente conscientes e auto-sustentáveis aqui neste blog. se não temos nada de novo para consumir ou oferecer, recorremos à lixeira: remodelamos o velho, inventamos um título e publicamos. simples assim.

o cinza

só pintou telas monocromáticas. deu vontade de desintegrar o preto. deu vontade de invadir o branco. e o cinza reinou absoluto, fingindo que era uno.

sejamos realistas

nada disso é real. não adianta buscar o absoluto. a realidade não existe. tudo é ilusão. já disse o filósofo, já disse o poeta, já disse o cientista. se atravessares a rua agora ou se ficares aqui parado, as coisas permanecerão as mesmas e nos seus devidos lugares. que são vários e simultâneos, múltiplos. como os sonhos que são a vida.   

sonho

sonhei que eu sonhava um sonho estranho. foi tão estranho que no sonho do sonho eu sabia que sonhava. eu só não sabia que o sonho em que eu sonhava o sonho estranho também era sonho.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ele é um monstro

falta o trabalho quando está indisposto. bebe todas até cair. esquece o dia do meu aniversário e depois ri. usa meu xampu importado sem parcimônia. desliga o celular nas horas periclitantes. só me come de quatro e sem cerimônia. ouve músicas irritantes. gasta dinheiro à toa como se fosse rico. mente sem remorso. discorda de tudo que eu digo. chama meu cachorro de troço. muda de canal no meu programa preferido. usa todos os copos até não restar um limpo. deixa as cuecas no chão e faz drama se eu reclamo. me cutuca no facebook e nunca diz que me ama. 


A fúria de Cândida Paz

Candinha Paz se enfureceu. Mandou o operador de telemarketing tomar no cú. Rasgou todas as fotos de Eduvaldo. Desenhou um pau na porta do banheiro-casinha do shopping. Passou máquina zero no seu poodle de estimação. Comprou um GPS. Processou o banco e o cartão de crédito. Pediu demissão porque ganhava mal. Brigou com o síndico. Ameaçou o porteiro. Consertou o vazamento com as unhas recém pintadas de vermelho. Riscou as amigas malas do caderninho. Trocou o Explorer pelo Firefox. E nunca mais respondeu meus emails.    

A loucura de Constança Paz

Tancinha Paz enlouqueceu. Comprou um par de botas por oitocentos reais. Pediu demissão porque tinha pouco serviço. Bebeu doze chopes num bar vazio e saiu de fininho sem pagar a conta. Casou-se com André, o amante, e separou-se de Julio, o marido. Comeu camarão mesmo sendo mezzo-alérgica. Fez doze ligações para o Criança Esperança. Mandou derrubar o flanboyant para acabar com a sujeira do jardim. Adotou sete gatos de uma vez só. Roubou uma barra de chocolate no mini-mercado. Voltou a fumar pela quarta vez. Passou a ouvir Luan Santana. E nunca mais me telefonou.

Pânico

Ela sofre de pânico, mas não tem medo de nada que existe. Deixa as janelas abertas em dias de temporal, anda sozinha pelas ruas nas madrugadas mais úmidas, dirige bêbada na chuva e dorme na beira da sacada quando venta. Ela sofre de pânico, mas só tem medo dos perigos que inventa. 

REBLOGAMOS

Aproveitamos o ritmo para dizer de novo o velho. Aproveitamos o embalo para redizer o antes. A música estava tão boa.... com um som daqueles só não rebloga quem não dança. 

: minha vida na caixa de fósforos

inços e aquilos: minha vida na caixa de fósforos: eu sou uma formiga. vivo aqui desde que me perdi da trilha. foi por culpa de um garotinho travesso. ele tinha olhos grandes e mãos enormes. ...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

a última da alface da terra

eu sou uma lesma. a única que restou vivendo numa alface da terra. porque hoje em dia as alfaces são cultivadas na água. na terra restam poucas e em nenhuma delas habita uma lesma. as lesmas estão preferindo viver em canteiros de plantas ornamentais. porque há menos agrotóxicos e porque elas não correm o risco de serem despejadas numa pia de cozinha. eu corro o risco porque gosto de viver aqui, dentro desta alface de folhas nutritivas. e ademais, sou muito apegada às tradições. meus antepassados sempre viveram em alfaces plantadas no chão. é por tudo isso que eu sou a última lesma da alface da terra.

contrato de vidro

estavam com cara de mártires quando cheguei. cada um escorado numa parede, de frente um para o outro, mas sem se olhar. minha presença quebrou um pouco o gelo, pois cheguei falando feito uma papagaia. reclamei da chuva e falamos do tempo. passando às formalidades legais, foi aquele constrangimento nada legal, comum aos defazimentos de contrato em razão da quebra. sentamos os três numa mesa redonda. ela parecia que iria chorar a qualquer momento. ele parecia que iria implodir naquele instante. enquanto eu estava na iminência de bater palmas para aqueles dois seres tremendamente humanos e corajosos. desfeito o contrato que era de vidro e se quebrou, jogamos os cacos no lixo e fomos embora. aí sim, senti um nó na garganta ao vê-los andando para lados opostos, cada um com o seu guarda-chuva (e com os cortes ainda ardendo).  

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Horizonte

Todos os dias, o dia todo, ela fica sentada na sacada olhando o horizonte. Ela come sem olhar para o prato. Ela penteia os cabelos sem se olhar no espelho. Ela fuma sem olhar para o cigarro. Eu a vejo daqui da minha janela. Mas ela não me vê, porque ela fica sentada na sacada olhando o horizonte, todos os dias, o dia todo. 

isqueiro

perdeu o isqueiro na sala, pela enésima vez. mas antes trocou tudo de lugar. sofá, poltronas, peseiras, mesinhas e cristaleira foram deslocados. surgiu um bom espaço livre no meio de tudo. ficou um confortável vazio em volta do cheio. 


agora não sabe se perdeu o isqueiro na sala ou se a sala engoliu o isqueiro.

inços e aquilos: preguiça

inços e aquilos: preguiça: ando com preguiça de revisar esses textos. encontro desacertos, encontro desencontros. mas estou sem saco para sustentar a impermanência dis...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

não escreverei mais nada

não escreverei mais nada. estou perdendo tempo. estou desperdiçando o estoque. (tu sabes que nascemos com um número x de palavras para usar, não sabes?). enfim. sobre mim: estou me perdendo, estou me esgotando, estou destoando. não me reconheço em nada disso. por isso desisto desde o começo. fim.

é o amor que faz o homem

disse Gal. disse Alice. disse Sandra. disse Fernanda. disse Juliana. disse Carla.
(todas sem pestanejar).

você

ontem você me disse que tinha receio de seguir assim, nesse ritmo frenético e tosco. nada de compromisso mas nada de desperdício. tudo imprevisível porém aproveitável. entre nós é assim. foi o que você disse. ontem. 
então hoje nunca mais amarei você. você é muito sério e tenso. não quero mais te ver.

sem banho

só porque eu estava sem banho ela desisitiu de mim. não me quis. me deixou estirado na cama com cara de infeliz. e eu desisti de tudo, de estar ali, de esperar por ela, de ser tão disponível, apaixonado, sensível e educado. desisti inclusive de tomar banho amanhã, que é sábado.   

me fudi

esperei alguém que nunca veio. eu me fudi por inteiro. sozinho. eu mesmo me fudi e ponto. sou verdadeiro.

Caixa de lingeries

Antes de morrer queimada, Soraia deixou dito que a sua caixa de lingeries ficaria para Rosaura, sua vizinha sóbria, séria e recatada. Rosaura abriu a caixa com uma curiosidade, um frio na barriga, uma emoção, uma alegria, um encantamento, um furor, uma adrenalina, um deleite e um prazer, que nunca mais parou de abrir a caixa. 




[vide Soraia Queimada, de Caetano Veloso
por Zéu Brito ou por Zeca Baleiro] 

a palavra rainha

me pegou pelas orelhas, me botou nessa cadeira e não me deixou fazer mais nada. só escrever. essa palavra é assim dominadora e abusada. não adiantou ligar o rádio, não adiantou abrir o livro, não adiantou falar ao telefone, não adiantou nada. foi pior. as palavras se uniram, formaram uma nuvem rija e bloquearam a minha saída. tudo sob o comando da palavra rainha. e cá estou, presa pelas orelhas. mas com as mãos livres para fazer justiça. a tecla delete é a minha preferida.  

bombando

"meu blog está bombando", disse o incauto escritor. e eu disse "cuidado, tu estás sem retrovisor". e sem olhar nem para trás nem para o lado ele acelerou o motor. eu fiquei bem pequenininha, debaixo do cobertor acenando e com o coração bombeando tanto que parecia um tambor.

quisera eu

quisera eu ser tão certinha, tão feliz e equilibrada. 
quisera eu ser um pedacinho de tudo que te agrada.    

gelatina cor-de-rosa

gelatina cor-de-rosa é a preferida da vovó. se tiver frutas então, ela come toda a travessa numa sentada só. depois disso ela deita e reza, sem pressa nem dó. eis que dorme e, quando acorda, se confessa e faz promessa sem pensar que tudo é pó.



[Do pó vieste e ao pó retornarás. Genêsis 3:19]

Pequena

Você não pode entender de tudo. Tudo é muito para você. Preste atenção ao seu redor. Veja quanta coisa você não vê. O mundo é muito grande, pequena. Não tenha pena de não saber. É isso que lhe faz pessoa. É isso que lhe faz crescer. Essa imensidão tamanha... é até indigno apreender. 

xis

a medida do bife tem que caber na palma da sua mão. não interessa o tamanho do seu estômago. não interessa a extensão da sua fome. o bife deve ser sempre menor que o pão.

oração de intervalo

Purificai minha mente
Levai todo o lixo embora
Fazei de mim um campo neutro
Mesmo que não seja agora

"fé no cotidiano",

me aconselhou a amiga. então botei o feijão de molho e abri as cortinas. 



(depois troquei as pilhas do despertador).

Agosto

Dizem que agosto é o mês do desgosto. Por isso chove desse jeito. Tudo chora. Quem nasce em agosto é leonino ou virginiano. Ambos são ótimos amigos, porém trágicos e sem defeitos.

com puta dores

eu fico aqui escrevendo entre um trabalho e outro. eu fico aqui navegando entre um texto e outro. eu fico aqui teclando entre um café e outro. eu fico aqui inventando o que já nasce pronto. 

eu

não sei trocar pneu mas sei usar panela de pressão. não sei falar alemão mas sei cantar em japonês. não sei baixar filmes na internet mas sei ver televisão. não sei fritar croquete mas sei fazer pão. não sei pintar as unhas mas sei vestir roupão. não sei me expôr em público mas sei escrever, então. não sei amar pouquinho mas sei dizer não. não sei nadar na correnteza mas sei boiar na contramão. eu não sou uma beleza mas sigo o meu caminho com pelo menos um pé no chão. 

não havia leitos vagos

Grávida de gêmeos é recusada em hospital e perde os filhos. Foi essa a notícia. Não havia leitos vagos então a grávida pariu na rua. Os gêmeos morreram e a médica será indiciada. A médica alega que ficou alterada porque a paciente não teve paciência.

caneta-revólver

Estudante leva uma caneta-revólver para a escola. Foi essa a notícia. O adolescente foi detido antes de escrever alguns tiros e é impressionante a tecnologia bélica de hoje em dia.  

sete crianças

Um bando de sete crianças saqueia hotel. Foi essa a notícia. Depois de saquearem o hotel foram levados ao conselho tutelar, que no entanto só está preparado para receber carentes, e não infratores. As crianças cheiravam tinner e nninguém tirou a lata que estava com eles. Então eles fugiram e invadiram uma loja, até serem levados não sei pra onde. Diz o promotor que a solução para este caso seria a estruturação da família e a adoção de políticas públicas mais eficientes. Ah, tá. Bem simplesinho para uma sociedade doente e sem leito. 

ai se sesse

ai se sesse. se sesse como eu quero, se sesse como eu penso, se sesse como eu espero, se sesse um dia inútil. e se hoje houvesse sol, eu estivesse animada, eu tirasse as pantufas, eu calçasse havaianas, eu saísse pra rua, eu tomasse uma gelada, eu encontrasse um amigo, eu voltasse pra casa, ele fosse comigo, eu cozinhasse uma massa e a gente comesse junto. ai se sesse.    


[vide Ai se sêsse, de Zé da Luz
por Cordel do Fogo Encantado]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Líbia (II)

Kadafi sumiu e os EUA meteu o bedelho perfilhando o governo rebelde. Foi essa a notícia. A última de hoje. 



[Tomara que Kadafi se afogue no mediterrâneo, que de tanto sangue já emendou com o mar vermelho. E que os EUA se olhem no espelho. Porra.] 

Líbia

A era Kadafi acabou. Foi essa a notícia. Os rebeldes derrubaram as tropas de Kadafi. Desde fevereiro deste ano os líbios lutam contra esse líder tirano que reina desde 1969.  Agora o povo líbio voltará a levar uma vida normal. Mas "o período que virá não será um mar de rosas", avisou Jibril, o líder rebelde, afogado no mar de sangue que banha as ruas.

Asilo

Aberto o primeiro asilo para idosos no Camboja. Foi essa a notícia. Agora um prédio de tijolos abriga cinco cambojanos entre 66 e 84 anos de idade que antes viviam na indigência. São só cinco cambojanos no asilo. O resto não envelheceu ou continua mendigando.

Irene

O furacão Irene se afasta de Porto Rico. Foi essa a notícia. Irene estava a noventa quilômetros de Porto Rico e atingiu velocidades máximas de 120 quilômetros por hora. Poderia ter chegado à Flórida, mas sua velocidade caiu para vinte e dois quilômetros por hora e Irene parou na República Dominicana.

o grito da Terra

dizem que a Terra vai gritar. que ficaremos surdos e que tudo vai rachar. nesse dia estaremos distraídos, produzindo lixo, engarrafando água, cavando minas, desconstruindo ilhas, aterrando mares, comendo vacas, extraindo combustíveis fósseis, cultivando alfaces mais duráveis, descartando pilhas, derrubando árvores, consumindo trabalho escravo, asfaltando ruas ou fumando um cigarro no décimo terceiro andar. então, na hora do grito, levaremos um puta susto e nada mais.   

domingo, 21 de agosto de 2011

Ando

Ando interessada pelo efêmero, pelo mínimo e pelo simples, mas permaneço cheia de dúvidas sobre como é ser um passarinho.

:Domingo

domingo é dia de escrever besteiras, ignorar afazeres, pensar asneiras e cultivar prazeres. domingo é o dia da desculpa. de tudo serás perdoado. me passa o chocolate e o cigarro. 

pau d'água II

ele me olhou com a vista apertada. parecia dizer que estava muito claro ali. ele estava inchado, porque anda bebendo muito. inchaço por causa do trago, típico dele. obviamente não falou uma palavra, tive que adivinhar tudinho. fiz tudo o que ele queria, então. arraguei ele inteiro e o tapei com um lençol. ele me olhou com a vista molhada. parecia um pau d'água.

pau d'água I

ele me olhou com a vista embaçada. parecia dizer que estava muito escuro ali. ele estava murcho, porque anda chovendo muito. murcheza por causa da osmose, logo ele. obviamente não falou uma palavra, tive que adivinhar tudinho. fiz tudo o que ele queria, então. arranquei-lhe as folhas podres e coloquei-o no sol. ele me olhou com a vista afiada. nem parecia um pau d'água.

"não vou gastar o meu latim

com essa pessoa surda e jovem que não sabe nada de mim". depois dessa declaração drástica, apaguei o cigarro, peguei a viola, botei na sacola e fui viajar. 

(deixando com ela o cartão da psicóloga).

tu tu tu

eu telefono e tu tu tu. nada de tu atenderes. eu tento esquecer e tu tu tu.

entreato

- Não é nada disso do que você está pensando.

- Mas eu não pensei nada.

- Justamente. Você pensou sim!

ora bolas

o poder da bola na boca de um cachorro histérico é algo inconcebível. não dá para escrever sobre isto. desisto.


coca-cola choca

essa coca-cola está choca. em breve haverá meia dúzia de coca-colinhas (latinhas, talvez) povoando essa geladeira. 

se você pretende

se você pretende saber quem eu sou eu posso lhe dizer. entre neste blog e nos textos mais banais você vai me conhecer. você vai pensar que eu não gosto nem mesmo de mim. e que na minha idade só a futilidade anda junto a mim. só ando sozinha e na minha paginazinha o espaço é cada vez menor. preciso de ajuda. mas por favor não me acuda. eu quero viver só. se acaso num dia chuvoso eu lembro do meu mundo, eu escrevo tudo e reviso num segundo. eu não posso parar. eu prefiro as palavras do dicionário online onde eu tento esquecer. um amor que tive e que vi pelo texto na distância se perder. mas se o amor que eu perdi eu novamente encontrar, os textos acabam e neste blog não vou mais entrar.


sábado, 20 de agosto de 2011

a cara desse buda

a cara desse buda está estranha. dá bem pra ver que ele está ali, disfarçado de estátua barata, elucubrando alguma coisa. sorrisinho dúbio, o dele. só pode ser comigo a coisa, eu sou a única no recinto. e hoje ele está me olhando mais do que nunca. a cara desse buda está estranha e estou curtindo - eu com a cara dele e ele com a minha. que bonito isso.

megalodrama

atende o telefonema emburrada. diz que está triste porque a abandonei. (fui eu quem telefonou). diz que os planos que fez para mim não se concretizaram. (os planos dela). diz que apesar de sermos vizinhas nos vemos muito pouco. (domingos, incluido alguns sábados, é pouco?). diz que atualmente mal nos falamos. (dia sim, dia não é mal?). diz que não me preocupo com ela, que está ficando velha. (ela tem só sessenta anos). desliga o telefone dizendo que nesse domingo não fará almoço. (okey, entendi). 



[e o povo ainda diz que só as mães são felizes, concordando com cazuza, que teve uma mãe mais megalodramática que a minha].    

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

minha vida na caixa de fósforos

eu sou uma formiga. vivo aqui desde que me perdi da trilha. foi por culpa de um garotinho travesso. ele tinha olhos grandes e mãos enormes. bagunçou nosso caminho e saiu rindo. várias companheiras minhas morreram. eu sobrevivi porque sou veloz e esperta. corri para o mato e encontrei essa caixa aberta. e desde então vivo aqui sozinha. de dia eu durmo e a tardinha saio para buscar comida. mas antes de voltar pra caixa, eu curto o show das cigarras. não posso reclamar, minha vida melhorou muito. antes eu não sabia o que era farra. estou quase aprendendo a cantar. e quando isso acontecer de fato, deixo de trabalhar e me mudo desse mato. já instalei rodas na minha caixa de fósforos, e na fachada escrevi meu nome. sempre sonhei em viver num motorhome.      

príncipe encantado

ao lado da minha casa mora um príncipe encantado. seu castelo é rodeado de pasto e não tem muro. passagem livre para os súditos. de manhãzinha ele fuma um charuto na varanda. depois descasca frutas e come. de resto, não sei. ele some.

vitamina

café sem cafeína é a minha vitamina. dois baldinhos pela manhã, enquanto trabalho. um baldinho à tarde, enquanto trabalho. quatro baldinhos à noite, enquanto faço arte. foi minha avó quem me ensinou. ela tem noventa e três anos e nunca fumou.

supermercados

supermercados são o templo do desgosto. aqueles corredores estreitos, abarrotados de embalagens coloridas de todos os formatos, decoradas com estampas bregas, rotuladas com palavras péssimas, servem apenas para ocultar os minúsculos quadrinhos onde só quem tem bons olhos pode ler a quantidade de calorias, gorduras trans, glutamato de monossódico e corantes artificiais. uma estupidez! mas o pior são as pessoas. famílias inteiras - pai, mãe, filhos, avós, enteados, sobrinhos, netos, vizinhos - passeiam contentes nesse parque artificial de luz fluorescente. é ultrajante presenciar tanta alegria e união num lugar como esse. os olhinhos das  crianças implorando por acúcares e carboidratos é deprimente. e aqueles que comem enquanto compram parecem rolar nessa pocilga de piso deslizante.

a disputa dos carrinhos de compras são um capítulo à parte, especialmente no setor das hortaliças. a gentileza de uns é a safadeza de outros. os barbeiros pedem desculpa te olhando com sorriso de escárnio. e tu retribuis, cínico. mas continua disputando a melhor cebola com o colega ao lado. a briga pela alface mais verde, mais vistosa e mais tóxica é algo que não se pode entender. na hora de pagar a conta, suas forças daninhas já se dissiparam no templo, estão depositadas sob o altar dos congelados. e só resta cansaço. suporta-se a fila como quem espera um trem para ir pra casa, observando os colegas de jornada, os concorrentes de batalha, pensando se não esqueceu de nada no caminho. e, depois de ouvir aquele bip-bip irritante do leitor de código de barras, paga-se a conta - como quem perde a carteira no trem, sentindo pena da moça do caixa.

[é por essas e outras que só vou ao supermercado quando acaba o papel higiênico]. 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

palavras feias

Algumas palavras são realmente feias. A feiúra da forma muitas vezes se confunde com a feiúra do significado, por exemplo: escanifrado, asco, nojo, decrépito, porcaria, lúgubre, repressão, moléstia, diarréia, doença, carcaça, podridão, agrura, remela, escabroso, guerra, catarro. Mas também acontece de a feiúra ser tão-somente da forma, por exemplo: computador, espermatozóide, barriga, tornozelo, tapete, paquiderme, cunhado, termômetro, hálito, vassoura, corrida, porta, trapiche, patrimônio, estirpe, cônjuge, escova, degrau, nuca, rabicho. 

E tem muito mais. E depende. E enfim.  



Essa investigação já me tirou o sono diversas vezes. Fico deitada no escuro, ouvindo a conversa dos passarinhos boêmios e pensando quais seriam as palavras feias pela sua forma e significado e quais seriam as feias apenas pela sua forma. Vez ou outra eu fico em dúvida, levo minutos preciosos decidindo quais palavras  entram numa ou noutra categoria. E às vezes, mesmo depois de decidir, mudo de idéia. Como senti que hoje essa nevrótica investigação me  acometeria, resolvi me adiantar: depositei aqui toda a feiúra que pude, bem longe da minha cama. Azar de quem perder tempo lendo esse texto cheio de palavras feias. Boa noite!    

escanifrado

é aquele homem que fica sentando no meio fio, todos os dias, mesmo quando chove. já lhe ofereci biscoitos, mas ele não quis. já lhe ofereci um sanduiche, mas ele não quis. já lhe ofereci chocolate, mas ele não quis. sempre faz cara de mau. desconfio que ele não gosta de mim. toda a vez que chego perto, o homem enfia a cabeça debaixo daquele cobertor encardido. e nada de querer e nada de comer. mas eu não desisto. amanhã lhe oferecerei cachaça. aí verei se tamanha rejeição é por causa da dieta ou se é algo pessoal.

anda

desliga esse computador, menina. assim você vai acabar louca. nunca vi tanta insistência, tanta concentração e tanta paciência. parece um monge orando. o teclado são as contas e o barulho dele, as palavras dos mantras. vai caminhar no parque. vai me esperar na esquina. vai ver como é bonita a vida. anda.

vemos o que queremos

numa tarde de domingo Maria olhou para o céu e viu o rosto de Walmor desenhado numa nuvem. sacou a câmera do celular e fotografou o retrato de algodão. visualizando o resultado, foi tomada por uma imensa emoção: Walmor usava a barba que ela morre de tesão.

queridos canalhas

obrigada por não retornarem nossos telefonemas. obrigada por fingirem planos magníficos. obrigada por virarem pro lado nos deixando a ver navios. obrigada por serem tão egoístas.  obrigada por não nos estenderem a mão quando precisamos. obrigada por desaparecerem no final do domingo. obrigada por nos tirarem o equilíbrio. obrigada pelas dissimuladas manobras. obrigada por suas incontáveis faltas.  obrigada por não corresponderem às nossas expectativas. obrigada por não nos beijarem na despedida. mas principalmente obrigada por irem embora. 

a propósito

vocês podem fazer o favor de parar de latir? vocês estão me deixando doida. não percebem que já é tarde? nem todo mundo é notívago como vocês. um osso para cada um e estamos conversados. podem baixar esses rabos! não adianta dissimular, disfarçar e esconder o que não dá mais para ocultar: são vocês que regem o coro dessa alcatéia de falsos lobos.


colar de pétalas

cada uma dessas pétalas é um bem querer a mim. uma coleção de afetos, elenco de bons gestos, rol de palavras amorosas, catálogo de beijos e afins. uso esse colar com bastante cuidado, pois sua linha é fina e frágil como a pele, como a página de um livro velho.   

tempo

não adianta puxar as orelhas do tempo. ele é teimoso e valente feito um touro. o que podes é subir no lombo estreito deste monstro.

faz de conta que isto aqui é um estandarte

bom dia a todos. a argila está em ponto de couro. tem um bolo de fubá no forno. recebi meus honorários e também um bom cachê. paguei todas as contas. meu namorado vem me ver. acordei inspirada. meu trabalho está bacana. meu chefe é camarada. o café ficou ótimo. a casa está limpinha. o jardim já vai florir. as tintas deram cria. o lápis 6B é dos bons. o banheiro está nos trinques. os cachorros estão contentes. o botão de rosa vai se abrir. a internet está um aço. no rádio toca música boa. tenho mais de dez cigarros. estou gostosa. faz sol desde agora. 

faz de conta que isto aqui é um muro

eu não aguento mais. a argila não seca. a geladeira está vazia. estou sem dinheiro. as contas não param de chegar. meu namorado me abandonou. não consigo me concentrar. meu trabalho está uma merda. meu chefe é um pão duro. o café ficou amargo. a casa está suja. o jardineiro não veio. as tintas endureceram. o lápis 6B está no fim. tem um vazamento no banheiro. o cachorro deu pra mijar no tapete. a rosa murchou. a internet está caindo. nada presta na televisão. o cigarro está acabando. estou gorda. chove pelo sexto dia consecutivo. 

mangueira

as folhas da mangueira estão chorando desde ontem. estão caídas pela força da chuva. desistiram de resistir. parecem lágrimas de ponta cabeça. 

não precisam seduzir os passarinhos porque eles não virão. não precisam proteger as orquídeas porque não tem sol. não precisam estar alegres e nem bonitas, porque hoje não.

essa mangueira parece um salgueiro-chorão.

responsabilidade civil

me convidaram para falar sobre Responsabilidade Civil. eu que só sei escrever, e mais ou menos. eu que sou irresponsável por natureza. eu que detesto platéia. eu que não decoro artigos. eu que ignoro princípios. eu que nasci para aprender. 

e minha atividade assumiu o risco. 




 [Artigo 927 do Código Civil: "Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo. Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem".]

é só isso que eu lembro

abriu a garrafa de vinho e advertiu: só temos esta. ouvindo um tango antigo ou algo assim, bebemos a primeira taça. trocamos de disco várias vezes. parecia que o prato sairia voando, sem desviar de nossas cabeças. continuamos a audição e vez ou outra até dançamos. discretinhos. seguimos nesse ritmo até a hora do rock, quando terminou o vinho e abrimos a vodka. ainda bem que tinha gelo.

chove demais

chove demais nesta terra. faz seis dias que chove. as ruas viraram corredeiras. o jardim virou um chiqueiro. a cidade está cheia de botes. nascem porquinhos nos canteiros. 

o bom gosto dos outros

eu não gosto do bom gosto dos outros. acho afetado demais, certificado demais, comum demais. prefiro o meu, que é cego, surdo e não tem juízo. 

sim, talvez

quando chove os neurônios ficam mais ágeis para a escrita. eles se comunicam mais e melhor. seria por causa da umidade? seria por que o escuro propicia encontros? seria o quê, afinal?

uma engrenagem mais lubrificada e menos timidez na abordagem. sim, talvez.

enceradeira vermelha

a enceradeira vermelha que hoje não funciona já foi ativa e útil quando jovem. hoje ela repousa quieta num canto escuro da sala. é bonita. por isso foi condenada a ficar ali, imóvel, se exibindo. está sempre limpa. tiro o pó cada vez que faço faxina.

o pé do divórcio II

o cliente telefonou às oito horas da manhã me perguntando em que pé andava o divórcio. eu respondi dormindo que em breve ele receberia a prótese, e sairia andando como antes.

o pé do divórcio I

o cliente telefonou às oito horas da manhã me perguntando em que pé andava o divórcio. eu respondi dormindo que em breve o pé seria amputado, só faltava liberar a sala de cirurgia. 

a pasta amarela (Blue)

a pasta amarela flutua no azul infinito. nesse cromaqui despovoado, tudo poderia existir. mas não. como já disse, o azul é infinito. nada consta além da pasta, que flutua sozinha no azul-cromaqui.

escrevedor

sou um escrevedor. não publico meus textos, não tenho método, nem ambições literárias ou paixão pelas letras. eu não conheço gramática. eu quase não leio. eu só escrevo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

casa-útero

a gente gosta mesmo é de ficar em casa, quando chove e quando sempre. útero com paredes de tijolos maciços. o edredom é a placenta.

 

metodologia

escrevo direto aqui em noventa por cento das vezes. sem rascunho, sem word que me guarde, sem papel nem memória. nas dúvidas, recorro ao google. se não bastar, recorro ao aurelião impresso, sem delongas. tudo aqui, direto. 

livre

chegou tão lento e foi embora tão rápido que não entendi o que ele estava dizendo. permaneci louca e firme, como sempre.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

ela não namora

ela não namora músicos porque são notívagos.  ela não namora advogados porque são chatos. ela não namora jornalistas porque são ansiosos. ela não namora engenheiros porque são caretas. ela não namora médicos porque são cobiçados. ela não namora atores porque são lentos. ela não namora garçons porque são safos. ela não namora escritores porque são calados. ela não namora motoristas porque são impulsivos. ela não namora psicólogos porque são curiosos. ela não namora mecânicos porque são brutos. ela não namora dentistas porque são neuróticos. ela não namora atletas porque são xucros. ela não namora poetas porque são apaixonados. ela não namora filósofos porque são perigosos. ela não namora empresários porque são workaholics. ela não namora publicitários porque são vaidosos. ela não namora pintores porque são malucos. ela não namora professores porque são pobres. ela não namora cineastas porque são breves. ela não namora políticos porque são corruptos. ela não namora cheffs porque está gorda. ela não namora.


lúcia

deciciu que depois daquela xícara sairia de casa para tomar um sol. bebeu o café bem devagarinho, atrasando a saída. intercalou com um cigarro de filtro amarelo, para atrasar mais ainda. feito o carreto, levou mais alguns minutos procurando o chapéu. vestiu aquela coisa estranha de abas largas e vasculhou o armário em busca do tênis ideal. lentamente amarrou os cadarços, dando dois laços em cada pé. apanhou a chave da casa e abriu a porta, mas não saiu. teve primeiro que encontrar o guarda-chuva. e tudo isso sempre pensando "já vou indo". até que foi.  

clima

toda a vez que chove a piscina do vizinho transborda. toda a vez que venta as cortinas voam derrubando os vasos. toda vez que faz sol os cachorros dormem estirados na grama. toda a vez que nubla eu leio com a luz acesa. toda vez que neva não é aqui. 

princesinha e principezinho

Numa noite de lua cheia, num bosque orvalhado, entre pinheiros espinhentos e sob o olhar das corujas de olhos brabos, a princesinha perguntou para o principezinho:

- Como pode um amor desses sem trajeto? projeto? um teto? Existe amor tamanho sem contrato? intento? um trato?


E o principezinho entendeu tudo errado. Agarrou a princesinha pelos cabelos, jogou-a no chão sobre a relva escura, meteu a mão embaixo de sua terceira saia e o resto no resto que encontrou ali. Ao final, susurrou em seu ouvido que um longo trajeto havia percorrido, que seu projeto finalmente se concretizara, que sem um teto podiam ver as estrelas, que o contrato estava feito, que o intento fora libertado e que aquele seria apenas o primeiro trato.

Feito isso, a princesinha suspirou e disse:

- Ainda bem.


E viveram satisfeitos para sempre.

pausa para a sorte

                           oeste
    Sul 



             ||



                                                  
                                      nORTE
                       leste                                 
                        


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

esta noite

não estou podendo com esta noite. aqui está tudo escuro e estranho. frio. mais frio que na rua. o som do rádio não sintoniza direito. fechei as janelas por causa do vento. na geladeira só tem um vidro de azeitonas solitárias. solitárias em seu grupinho. o sofá não está fofo como o de costume. está tenso. e gelado, porque é de couro. hoje ele não quer me abraçar. troquei o rádio pela televisão, e isto me tirou ainda mais o poder. desliguei essa caixa tagarela e pessimista. optei pelo silêncio. acendi um cigarro para me fazer companhia. pobre cigarro... abri a agenda para me informar sobre os dias. percebi que esta noite é só uma pausinha. ufa

                                                                                                            ass. Catharina Regina


ainda

passaram o dia caminhando. um dia inteiro se dividindo e se completando. fizeram uma única pausa. para o almoço. uma longa pausa, diga-se. depois seguiram o rumo daquela peregrinação ao outro. quando o céu foi banhado por um laranja espetacular, perceberam que em alguns minutos viria a hora da separação. só que antes deste termo cruel e manso, concluiram o óbvio: são bons amigos. ainda.  

domingo, 14 de agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

like a photo

publicar textos antigos neste blog é estranho. normalmente uso essa janela para o imediato. o instante é capturado como numa foto. e o que fica é o fragmento de um antes bem recente.

mesmo quando depois faço alguns retoques, mesmo quando esse procedimento é infinito. pois o fragmento do antes é a matriz. o resto é capricho, exigências dos olhos e ouvidos.  

in progress

work. it is.

as coisas [arnaldo antunes]

 


["caderno de cousas" - anos 90]
  

coisas que não têm paz mesmo: torneiras, carros, computadores, estufas, descargas de vaso sanitário público, televisores, ventiladores, sapatos, telefones, chaves, moedas, calçadas, isqueiros.  






... continua.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a colcha e a concha

estamos deitados eu e ele sobre a colcha de retalhos, dentro de nossa concha. viraremos pérolas quando estivermos prontos.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

corra lola corra (run forrest run)

está correndo desde segunda-feira. só descansa para dormir. e ainda assim sonha que está correndo. acorda com sede e não se satisfaz com água. precisaria de um suco, mas não tem. corre e corre feito doida, porque há prazos, porque há muito a ser feito, porque existe relógio. o tempo passa mais rápido quando se está correndo. talvez fosse melhor ficar parada. mas não dá para correr esse risco. assim ela não corre não. por isso segue correndo do seu jeito. ultrapassa pontes e viadutos, veículos possantes que poderiam emagá-la em segundos, pessoas e construções. vê tudo borrado, por causa da velocidade. não enxerga detalhes. mas tem bons reflexos, sempre consegue desviar dos postes.   

como é ruim esperar

não apenas para os ansiosos, creio. é ruim esperar. é péssimo esperar. é irritante esperar. vontade de virar a ampulheta na marra, bruscamente, sem hesitações. foda-se o tempo atorado. que se dane a areinha, matéria dos segundos. segundinhos não farão diferença. 

sábio Buda que pregou o desapego declarando que "não esperar é não sofrer". 

minha bunda já está quadrada de tanto esperar sentada. 

se Buda visse minha bunda diria ainda que "quem espera sentando sofre mais", creio.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

epílogo

chegando lá, pagou a corrida com uma nota de cinquenta reais. o motorista resmungou e deu o troco em moedas. ela desceu do taxi e bateu a porta muito fraco, teve que repetir o gesto. ficou com raiva. comprou o ingresso e uma caixa de mentex. sentou na poltrona e assistiu ao filme. bem tranqüila. 


(desde o prólogo).

terceiro ato

e seguiu muda até o seu destino.

segundo ato

saiu de casa sem levar carteira. só a RG e algum dinheiro. achou muito tarde para ir de ônibus e tomou um taxi. sentou-se bem no ponto do banco traseiro do carro onde se pode ver a cara do motorista no retrovisor. Para o centro, disse.

primeiro ato

dentre todos os perfumes escolheu o de açaí. porque o líquido é roxo. dentre todos os vestidos escolheu o preto. porque é curto. dentre todos os sapatos escolheu um tênis. porque é igual ao da Beatrix (personagem de Kill Bill). dentre todos os batons escolheu o cor de carne. porque é adocicado. dentre todos os brincos escolheu o de pérolas. porque a este não é alérgica. 

amor antigo

o amor antigo não bate na porta antes de entrar, ele simplesmente entra. quando tu vês, ele já está dentro. não houve surpresa nem mistério, mas isso não desmerece seu ato. o desembaraço da chegada é altivo e sedutor, é primo-irmão do tempo. o amor antigo, desinibido feito um palhaço, alegre feito um palhaço e triste feito um palhaço, é soberano no recinto (a porta praticamente se abre para ele entrar).   

o anel

o anel que tu me deste era vidro e se quebrou. acordei sentindo a falta. nos dedos nem o anel, nem a contagem dos dias. quando nos veremos de novo? não adianta contabilizar. nenhum dedo precisa se mexer. minha mão esquerda está encolhida, embaixo do travesseiro. e a mão direita segura uma coisa chamada relógio. são dez pras oito. estou atrasada. vou trabalhar sem café nem anel.  

Cada um escreve como quer

Cada um escreve como quer, eu disse antes que ele começasse a apontar as qualidades e os defeitos da minha escrita. Daí ele me disse que adorava escrever, mas que ultimamente escrevia muito pouco porque na maioria das vezes seus textos ficavam ruins. Eu quis entender o que, para ele, seria um texto ruim. Ele disse algo como um texto sem assunto relevante, sem propósito; um texto com português hesitante, exagerado nas descrições e adjetivos; um texto muito pessoal - que não serve para nada nem para ninguém. 

Cada um escreve como quer, eu repetiJá que ele pareceu ter ignorado, apelei citando Barthes: o escritor tem um própósito que basta para justificá-lo: a gestação da forma. Com isso, seus olhos brilharam, seu corpo todo voltou-se para mim e ele disse: "de tanto chocar-se contra o leito do rio da experiência, a expressão arrendondará as suas formas, polirá suas arestas e se transformará em arte, Charles Kiefer", apagando o cigarro com mãos de escritor. 


descrição da sala

na minha frente, sobre a mesa, está a tela do computador e um teclado preto. gasto. sujo. logo atrás, um processo. azul. gasto. sujo. na parede em frente a mim, tem um armarinho de livros que mais parece uma cristaleira. nele estão os livros mais queridos e alguns brinquedos antigos. meus. o leãozinho com pescoço de mola, a moranguinho e a minha primeira boneca - de cabelos brancos e roupa laranja, feia. sobre este armário há uma luminária de palha, um globo terrestre e o Scrat, com a amêndoa (é claro). na parede à minha direita tem uma enceradeira vermelha que não funciona. é decorativa. sobre ela tem uma foto minha com cerca de quatro anos de idade. cara de assustada, olhos enormes, parece o Scrat. nesta parede está a porta, que dá para uma sala que se divide com a cozinha por uma janelinha tipo passa-pratos e onde, daqui, enxergo uma cesta com bananas. mais ao fundo, está a porta da casa e uma janela por onde entra uma luz suave. voltando ao recinto: atrás de mim tem uma estante abarrotada de livros. livros bons, livros ruins, livros que li, livros que não li, livros novos, livros velhos, livros meus, livros de outros, livros. e uma papelada que vou te contar. misturado a tudo isso também têm fotografias, um guarda-chuva, diversas canetas, cadernetas, cacarecos e até pinturas. e enfim, à minha esquerda, está a janela. aberta. que dá para o jardim de mato.    

janelas abertas

é bom manter as janelas abertas. temos que ter cuidado com isso: não descuidar de abri-las. às  vezes as mantemos fechadas porque chove ou venta demais. às vezes as fechamos porque anoitece. mas não. a chuva, o vento e a noite também trazem novidades, também nos contam verdades e também acolhem paisagens. 





[Para Holga, um sopro molhado na escuridão pode ser um beijo de verão - por isso ela não usa guarda-chuva. Nem no inverno]. 

finalmente

finalmente não chove mais e posso ouvir os passarinhos. gosto de sentar todo dia para escrever um pouquinho. não interessa o assunto, não interessa o caminho. posso começar pelo título, posso terminar pelo título, posso não colocar título. posso começar pelo começo, com a primeira palavra que grita. posso começar pelo meio, com uma palavra tímida. não interessa. gosto de sentar todo dia para escrever um pouquinho. finalmente não chove mais e posso ouvir os passarinhos. 

Vazia

Um amor assim como o teu me deixa vazia cada vez que se vai. E só me restam a lembrança, o cansaço e um sono daqueles que não se tem vontade de acordar. Acordada estou vazia como a garrafa d'água que mora na minha geladeira (como a minha geladeira).

terça-feira, 9 de agosto de 2011

romance de liquidação

daqueles que vale a pena levar: precinho bom, esforcinho mínimo - tão baratinho. no meio das outras contas, essa aqui nem aparece. por isso eu levo. por isso eu compro.  por isso eu assumo. por isso eu quero. e amanhã meu dia será como hoje. igualzinho a sempre, eu e minha pança rodeando as gôndolas.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

tiro no pé

o deputado processou o músico porque achou ofensivo ouvir a verdade. e a verdade se espalhou pelo ar, ao som do tiro que ele deu no próprio pé.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

se

se a paciência fosse sóbria, fosse livre de paixão
fosse tranquila e nítida, como um vôo de balão

se a paciência fosse santa, fosse filha de Abraão
fosse tida ou fosse lida como coisa de verão


então isto tudo-e-tanto seria mais que um travessão
seguiria, seguiria, como se nunca fosse vão


mas paciência, altiva dama, tu és a primeira a dizer não 

Mau humor

MAU HUMOR é uma coisa dura, fincante. Se escreve com letras maiúsculas. O MAU HUMOR se impõe, cega a vítma. Nesse universo ríspido, tomar no cú já virou moda. Porque tantas pessoas tomaram no cú a mando (ou a "penso") da vítimalgoz, que chega a hora em que isso nem mais é castigo. É prêmio, sinal de importância, o que todos desejam e fim. O mau humor resta então miudinho, em letrinhas minúsculas, feito um cú no Bom Fim - sentado no meio fio, achando imbecil um mini texto com duas (ou três) palavras "fim".

só tem espumante

- Serve.

Depois de oito minutos ela chegou com a garrafa na mão direita e, na esquerda, duas taças de champagne - daquelas rasas, de boca larga, antigas. Abriu a garrafa com maestria, e serviu como se fosse Veuve Clicquot. Brut.

 -   Hummm, delícia. Como é mesmo o nome do cara? Esse que tu julgas tão sofisticado?