sexta-feira, 27 de julho de 2012

parar de fumar (I)

parar de fumar é um ato bravíssimo. porque escarafuncha a vida e revolve o mundo. toda a desilusão emerge. e só depois de um longo, denso e volumoso tempo ela cansa e afunda.    


hortografia

Palavrinhas plantadas com método e maestria.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ποιο είναι το νόημα;

Ler em inglês me deixa exausta. Por mais interessante que seja o texto. O dicionário me assalta. Me dá significados mas me tira as forças. 
E parece que leva, afugenta ou rouba o meu português. ποιο είναι το νόημα;

quando ando

quando ando triste e louco só consigo ler. filosofia. todo o resto torna-se desgastante e inútil. um nonsense sem a menor graça. engraçado é que quando ando alegre e são eu leio biografias. e ficção.  


a leitura técnica deixo para os momentos neutros de emoção.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

coleta seletiva


A quem possa interessar, quando fui síndica, surtei ao ver feijão misturado com garrafa pet no lixo do condomínio. Agora estou prestes a me mudar para uma cidade que não tem coleta seletiva. Imagina ver essa cena de horror pela cidade inteira! Não sei o que será de mim. Fico sonhando em mudar isso, revolucionando o sistema de coleta de lixo da cidade. Me imagino com a tiara da Mulher Maravilha (e com aquelas pernas, claro). Sentirei mais falta do caminhãozinho verde do que dos cinemas e dos parques. #fato. Faço votos que lá eu encontre outros como eu, dispostos a formar uma Liga da Justiça. Já botei na mala os braceletes e o laço mágico. Só faltam as botas. 




[me divirto pensando na recepção das bobagens que eu escrevo... coisas que não interessam a ninguém senão a mim mesma. que atividade esquizofrênica a minha! pensando mais, amplio essa concepção e, num sentido macro, tudo se esvazia. resta só uma ervilha. nela está escrito: "carlinha, vc é louca!". e eu digo: "obrigada".]

domingo, 22 de julho de 2012

sr. P

Ele só saía de casa com um (único) objetivo: colher elementos para seus personagens. Juntava-se às pessoas não por saudade ou desejo de encontrá-las. Era um pescador de idéias, um liquidificador de personalidades.

Acho que isso de catar características alheias é tipico do escritor. Mas ele ia além. Esse era o hábito que determinava todo o resto. Creio que para enfrentar saraus e salões necessitasse desmarejar.     

Por isso, os hábitos. Nada escapava ao seu olhar duvidosamente compassivo. Céleste só arrumava o quarto quando ele se ausentava. Trocava os lençóis diariamente. Servia-lhe o café numa bandeija de prata, junto com um croissant. Mas ficava atenta à campainha. Caso tocasse, deveria levar um segundo. Todos os dias.

Foi um homem doente. Só amou verdadeiramente sua cama e seu desjejum. E eu não acredito em nada disso. 

a semana

a semana começa por seu próprio peso. com a barriga cheia, ela vem de um domingo leve e esolarado. instala-se sobre o calendário amassado. pede um copo d'água. faz aquela cara dissimulada.

pobre segunda-feira, primogênita injustiçada.

Ando

Ando lendo umas coisas antigas. E isso se reflete na minha escrita. Coisa esquisita! 

Nem tão pirada porque ainda escrevo merda, caralho, bucetas. Kuduro. Oi oi oi oi.

Ainda quero tchu. 

seus olhos me perguntam

por que deter-se na frente dessa coisa quadrada? por que abdicar da rua para dedilhar essa coisa que sequer faz música? por que escolher a sombra de palavras mudas?  



[olhos de Lord Belot]

Da minha preguiça

Sou a pessoa mais preguiçosa que tive o prazer de conhecer. Está certo que não conheço muita gente, porque justamente sou a pessoa mais preguiçosa que tive o prazer de conhecer. 

E a preguiça me apraz. Não sei explicar a paz que ela me traz. Talvez o frescor de ser carregado pela vida. Talvez o mimo de ser embalado no seu colinho. 

Esse estado de marasmo me inclina (e isso dá sono). Veja bem, (se estais disposto), não fico inerte. É como se eu fosse feito de gelatina. Conforme o ângulo de repouso ou a direção do vento, meu ser se mexe para cooperar com o trabalho do equilíbrio. 

Nenhuma resistência, nada de desafios. 

Eu sou assim, um seixo gelatinoso levado pela corrente. 

E repito, pela última vez, visto que já estou cansando: no leito desse rio, único lugar em que andei, nunca tive o prazer de conhecer pessoa mais preguiçosa que eu.   

20km/20pp.

Pega o livro. Abre o livro. Vai na parte que interessa. E: constata que faltam páginas. Justamente as 20 páginas necessárias para o trabalho. Liga pra loja. Descobre que tem que resolver com a editora. Liga pra editora. Descobre que terá de se deslocar 20km para efetuar a troca. Não tem motoboy? Serviço do gênero? Não, querida. O máximo que podemos fazer por vc é trocar o livro aqui, se não estiver contente, aciona o procom. Ah tá, que consolador. E lá vai ela, de mapa na mão e atenta ao retrovisor, onde aparece todo tempo uma cara de ovelha. Ou talvez de gado. Não sabe. Só sabe que percorrerá 1km por página.

eu gosto (I)

eu gosto de ficar na janela olhando o pátio farto de mato. só pra ver lá no fundão um pontinho branco, que, num ponto específico, prolonga-se numa linha curva e móvel. parece um periscópio frenético. mas é o rabo do Belot.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

ele reclama

ele reclama que deixo a garrafa d'água vazia na geladeira. ele reclama que não encho as forminhas de gelo. ele reclama que entupo a pia. ele reclama que só troco a pilha do controle quando o portão não abre mais. ele reclama que deixo papéis espalhados dentro do carro. ele reclama que não cuido do Carro. ele reclama que ponho os cachorros em cima da cama. ele reclama que fumo quase um maço. ele reclama que corto os cabelos bem curtos. ele reclama que não molho a grama. ele reclama de tudo que eu faço. ele me ama. 

adeus

darei adeus a porto alegre com alegria e um aperto no coração. essa cidade me mima. esse porto me rima. só que agora anseio ser clandestina. ria, ria! teu deboche da pilha pobre só me ilumina. estou faminta.

sou a filhinha que bate a porta de casa carregando apenas mochila, deixando na penteadeira os seus bibelôs. e, na prateleira, os ursinhos de pelúcia. contente. confiante de que não precisará mais deles.

"para ser grande, sê inteiro", diz o cara. então tá. a filhinha voltará no natal para buscar os bibelôs e os ursinhos. apenas contente. (e de barriga cheia).

nova configguração do blogger

mais um vez vou reclamar da nova configuração do blogger. ficou uma joça. cheia de vãos por onde escapam os ânimos. para encontrar uma postagem, tu tens que dar duas voltas atrás do rabo. e para editá-la, mais uma. pessoas como eu não têm todo esse tempo de armazenamento de memória. ou o texto se registra enquanto flui, ou se perde nos trâmites. quando a idéia está pronta, ela está já prestes a perecer. e, do jeito que está o sistema de configurações de postagens, os textos se esvaem e se ex, vão. nunca mais encontro. não posso mais nem ver meu rabo. enfarei.   

teimosas

troquei minha internet de 5 mega por uma de 1. percebo que a idade nos leva a paciência, e não o contrário. gosto de deixar as janelas abertas, mas agora está difícil. o vento preguiçoso não têm força para manter o ângulo das venezianas. parece que elas têm molas. teimosas. 

Clara

"Eu sou responsável pelo que digo, não pelo que você entende". Foi então que Clara não entendeu mais nada. Deixou de entender como quem larga um copo de cerveja na estante e diz que largou a bebida.

Do hábito

Tenho o perigoso hábito de dizer o contrário do que estou pensando, num tom que para mim fica claro ser o contrário do que estou pensando. Para mim.  Alguns chamam isso de ironia; outros, de neurose; outros me tiram para uma pessoa nada formidável. À propósito, minha auto-descrição no Twitter é "pessoa formidável". Porque li no dicionário que "formidável" designa o pavoroso e o extraordinário, o terrível e o excelente ao mesmo tempo. E porque tenho o tal perigoso hábito.


Tenho poucos hábitos. Não engreno em rotinas. Sou como um trem sem trilhos, desgoverno. Por muito tempo isso me desagradou. Eu queria me apropriar de hábitos como quem compra um livro, um maço de cigarros. Até que li a biografia de Montaigne e concluí que ele foi um homem "sem" hábitos, o que vejo até na sua escrita, cheia de digressões. Ao digressionar somos levados ao descarrilhamento, tentados ao desgoverno, e corremos o maravilhoso risco da contradição. Hoje eu acordei sem o ânimo encarangado de frio. E me sentei aqui. E escrevo pela manhã. E bebo café. Hoje eu abri a porta para os cachorrros. 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

merda

eu gostaria de escrever aqui o som de um suspiro. a palavra que o identificasse. diretamente. indubitavelmente. mas não sai.

quando pinto

Não escrevo quando pinto.

A palavra emperra. E não adianta diluir com água.

domingo, 1 de julho de 2012

desde ontem

a cachorrada está em alas. latidos de todos os sons e intenções. temo que meu cão fique rouco para sempre. e que tenha um ataque cardíaco. ele é idoso, mas não se sente. ainda joga bola, ainda corre feito lebre, ainda brinca de se esconder.

apareceu com um osso podre, feliz da vida.

(não pude nem xingar).

antes que eu enchesse o pulmão de ar, ele deu no pé, latindo. era um som agudo de orgulho. no afã de mostrar ao mundo a maravilhosidade do seu ato.





(creio eu,
penso que,
proponho).