sábado, 26 de fevereiro de 2011

novamente sábado

hoje não faz sol, mas venta.

os armários pedem ordem,
a louça pede um banho
o chão cansou de espirrar.

a casa quer arejar,
por isso abro as janelas-narinas.

a casa quer enxergar,
por isso prendo as pálpebras-cortinas.

hoje pouca coisa se inventa: é dia de faxina.

e só.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

loja de departamentos

dezessete canetas, quatro blocos de desenho, um tubo de cola, uma tesoura pequena, dois pares de meias, quatro calcinhas, um estojo de maquiagem, dois vidros de esmalte, uma escova de dentes, dois tipos de creme para o cabelo, uma caixinha de grampos, três litros de Qboa, meia dúzia de ovos, uma frigideira, quatro barras de sabão de glicerina, uma vassoura, duas latas de ervilha, oito pacotes de miojo e um de bolachas, seis barras de chocolate, quatro cds virgens, duas lâmpadas fluorescentes, um rolo de fita adesiva, dois tubos de inseticida, um galão de água mineral e nehuma coca-cola. 

cachorro apocalíptico

meu cachorro pensa que o planeta Terra está com os dias contados. ele acha que os homens nunca entenderão a necessidade de preservá-lo. porque somos ignorantes e egoístas. 

segundo ele, o aquecimento global tornará nossa vida insuportável, deplorável, inviável. teremos que viver em buracos. teremos que aprender a viver no escuro. isso mudará nossa constituição e, em seguida, a nossa espécie. nos transformaremos em humanos-tatus. seremos caça.

os cães serão caçadores, porque suportam melhor as adversidades do tempo.

segunda-feira

'eu não sei o que o meu corpo abriga' nesta manhã de segunda-feira fria e pesada. sinto um cansaço estranho e uma leve dor de barriga. já tomei banho e sonrisal. troquei os lençóis, separei os livros e o café está quase pronto. abri as janelas todas. mudei a lâmpada do abajur.

'hoje eu desafio o mundo sem sair da minha casa'.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

amor ogro

Hoje irei encontrá-lo
no apartamento de parquês descolados,
o mesmo das paredes mofadas,
lá onde também moram os cupins. 

Meu amor estará sem banho e com a barba grande.

Comeremos frango assado de televisão de cachorro,
depois um café bem quente num copo de requeijão
e então ficaremos jogados no sofá puído,
apreciando a brisa morna do ventilador de teto
e o trajeto insano das baratas de verão. 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

vamos comer caetano

assado. recheado com legumes: cenoura, batata, cebola e pimentão vermelho. depois de dourar, fios de azeite de oliva extra-virgem, uma pimentinha preta moída na hora e pimenta biquinho a gosto. para enfeitar.

inventação

aventuranças no alfabético mundo das letras.
mergulhanças no mar reviolento da escrita.

a palavrateca dos livros me alcança
mas fonte inventativa é a cabeça.


se cansada de teclações, eu apenasmente na cama-leio
e me deleivirto no atravesseiro.

sempre aos sábados

sempre aos sábados alguma escrivinhação, alguma escreventura, alguma escrituração.

porque o dia é mais lento. porque dá para almoçar às três da tarde. porque a casa está vazia. porque faz silêncio e calor.

também porque amanhã é domingo. depois de amanhã, segunda. e preciso me esvaziar antes disso.    

tanto e nada

tenho tanto a dizer. aqui faz um calor danado. tenho tanto a falar. aqui faz um calor. tenho tanto a contar. aqui faz. tenho tanto a expor. aqui.

nada tenho a dizer. aqui. nada tenho a falar. aqui faz. nada tenho a contar. aqui faz um calor. nada tenho a expor. aqui faz um calor danado.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

instruções

Vamos lapidá-lo. Faz de conta que é um diamante. Eliminar os artigos e pronomes pessoais. Cortar as vírgulas. Retirar os gerúndios e particípios. Deixar só o essencial. 

Vamos recomeçar. Esquecer os estilos. Ser sincero e suscinto.  Escrever sem pressa nem pretensão. Não se preocupar com o inteligível. Ignorar o leitor nesse instante. Criar uma linguagem, que seja. Deixar que o texto aconteça.

não recomendo

Clichês inoperantes. Chavões. Texto sentimental que não emociona. Piegas. Nada de novo. Vazio de conteúdo, zero de fruição. Esse escritor não é neurótico e nem apaixonado. Não conhece gramática. Não tem estilo. Serzinhho ignóbil. Novelinha de merda.  


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

mind the gap

atravessou o pátio como um trem desgovernado. deu de cara no muro. sacudiu a cabeça. inflou o peito para mostrar que é forte. deu meia volta e correu pro meio das macegas. ficou ali durante oito minutos. reapareceu mais calmo. pensou que não era visto. andou distraído e tropeçou numa pedra. sacudiu o pézinho e parece que lambeu a ponta do dedão. respirou fundo e seguiu. olhou pro céu, onde desfilavam os pássaros. distraiu-se. caiu num buraco. num ralo sem grade. flutuou na água da chuva. tentou nadar mas afundou.


meti minha mão suja de tinta naquela água barrenta. peguei o bicho pela cabeça e o joguei de volta à vida. não era um rato, nem um sapo. nem uma das caturritas enlouquecidas. era um lagarto. um lagartinho silencioso. e eu disse pra ele: mind the gap!


correu todo pintado de vermelho, o bichinho. resultado: ficou incrivelmente elegante.    

Por que Pablo não dança mais?

Era domingo e Carmen ainda dormia. Uma sensação estranha tomava conta do bailarino deitado ao seu lado. Ele era Pablo, o marido. A vida toda ele abriu mão de coisas importantes para dançar. Para ele a dança sempre foi mais importante que essas outras coisas importantes. Mas nessa manhã seu corpo estava inerte. O coração, acelerado. Pensava no quanto estava ansioso. Preocupado. Pânico. Falta de ar. E nada de se mexer. Entendeu que precisava gritar. Carmem acordaria e resolveria tudo. Mas Pablo estava mudo. Sentia que estava prestes a implodir. Como um prédio abandonado. Em silêncio. Em câmera lenta.

Sabia que a partir dalí não dançaria mais.  Era ateu e não fez promessa. Sabia que a partir dalí não dançaria. Era jovem demais para morrer e velho demais para passar os dias deitado. Sabia que a partir dalí não. Era um homem feliz, mas não alegre. Sabia que a partir dalí. Era o dono daquela cama macia e não sentiria saudades disso. Sabia que a partir. Era amado por Carmem e gostaria que isso não fosse verdade. Sabia que. Era uma pessoa à beira da morte e aceitou isso sem dor. Sabia. Era nuvem e partiu numa pirueta.
      

domingo, 13 de fevereiro de 2011

das fotos

essas fotos estão aqui porque fazem parte da minha pesquisa 'poética' sobre os inços, plantas espontâneas ou daninhas – depende do ponto de vista.

gosto de observar os inços. alguns são tristes, melancólicos. outros são alegres, ousados. ignoram o fato de serem indesejados. o que lhes importa é vir à superfície da terra. onde tem luz.


[outras no http://www.flickr.com/photos/ellacarlinha].

até hoje são três séries.

 Posted by Picasa alberto torres, 2009

Posted by Picasa jardim, 2010

Posted by Picasapátio, 2010 

sábado, 12 de fevereiro de 2011

um mix

de bobagens besteiras pensamentos idéias historinhas ficçõezinhas pesquisinhas estudinhos de tudo um pouquinho alguma coisa se salva dessa miscelânea de coisinhas mal elaboradas algumas menos que outras um todo colocadinho organizado em links coloridinhos contendo palavras textos escritos desabafos resultados de exercícios experimentos praticados guardados depositados nessa caixinha preta um grande mix disso aí mesmo.    

a amante™

O meu homem é aquele de óculos Ray ban. Óculos de grau. Aquele de barba. Barba espessa. Com algumas falhas. Um pouco acima do peso. O que segura um copo. Ou uma lata, talvez. Provavelmente cerveja. E Polar. Ele está mais à esquerda do balcão. Veste uma camisa social. Azul. Desabotoada. Tem uma camiseta rota por baixo. Acho que uma Hering branca. Das antigas. Ele acabou de rir. Isso é raro. Deve ter ouvido algo muito engraçado. Sim. Ele está fumando. Marlboro. Vermelho. Já parou duas vezes e voltou. Está calçando os tênis que eu dei de aniversário. Adiddas. Dos mais baratos. Ele não gosta de coisas muito caras. Se sente inseguro ao andar pelas ruas de madrugada. Ele caminha muito. Anda léguas. Não entendo como pode gostar de passar trabalho. Ele detesta táxis. Acha um desperdício de dinheiro. Eu não acho. Acho um ótimo investimento. Melhor que gastar em comida. Ou em bebida. Agora parece que ele vai sentar. Sentou. Todos sentaram. Ele é o que ficou na ponta da mesa. Está abrindo o caderninho de rabiscos. Moleskine. Ele escreve pacas. E bem. Em qualquer lugar. Olha como ele se concentra no meio da confusão. Parece que está sozinho no bar. Numa biblioteca. Deve estar escrevendo um poema. Poesia concreta. Talvez desenhando. Ele também desenha. Não tão bem quanto escreve. Não tanto quanto escreve. Parou. Está olhando pra cá. Está acenando. Vai me chamar. Chamou. E agora? Conto pra ele sobre nós duas?    

arte em pensamentos chuvosos

Sábado chuvoso e pensamentos sobre arte. Depois de quatro cafés e ainda algum resquício de sono, as letras se jogam na tela do computador. Fonte dezoito. É de manhã. Escrever com esse barulhinho-bom me ajuda a perceber o que penso. Bocejos reprimidos. Gosto de café na boca. Ele se mistura com o sangue e corre pelo meu corpo. Minha vida, meu estojo de pastéis oleosos. Minha vida, meus livros sublinhados a lápis 6B. Minha vida, meu caderninho de rabiscos. O que as pessoas pensam sobre isso? Ao som da chuvinha mansa, uma pesquisinha rápida. Uma breve navegadinha. Estou de bote no Google. Não tenho pressa. Porque hoje é sábado e amanhã, dormindo. As plantas do pátio parecem saber disso. Estão mais preguiçosas que eu. Indiferentes à chuva. À vida dessa manhã cinzenta.   

Arte ajuda a viver. Enriquece a existência. Contribui. Como disse Brecht: “todas as artes contribuem para a maior de todas as artes: a arte de viver”. Porque viver é difícil. Sábias palavras de Leminsky: “viver é super-difícil, o mais fundo está sempre na superfície”. Viver (bem) é mesmo uma arte. Para mim, a maior de todas.

Mas a finalidade da arte é incerta, dispensável, muito pessoal ou variável. Não existe uma finalidade universal na arte, embora alcance sempre a finalidade que não tem, como pensava o ensaísta austríaco, naturalizado brasileiro, Otto Carpeaux. A arte abre buracos nos muros, nos faz ver além. E no território da Vida.

As plantas não sabem disso. 

Para Loinello Venturi (não sei quem é), "a arte alimenta-se de ingenuidades, de imaginações infantis que ultrapassam os limites do conhecimento; é aí que se encontra o seu reino”. Então.

Se o reino da arte é feito de ingenuidades e imaginações (infantis), a vida é alimentada pela criança que mora em nós. Não é a vida que a alimenta. Essa criança é nossa mãe. E anda de mãos dadas com a arte, assinatura da civilização. Que abre buracos nos muros. Clareiras nos matos. E tece caminhos.

Daqui da janela vejo muros cor de cimento e um pequeno matagal. Estou de mãos dadas com a escrita, que tece um caminho no ar, por cima dessa paisagem caseira. Agora estou num balão. Balãozinho lento. Bem devagar. Divagador. 

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

a arte de qualquer um

Para o americano Joseph Kosuth, o alemão Joseph Beuys e o brasileiro Nelson Leirner, qualquer coisa pode ser arte e qualquer um pode ser artista. Será?  De fato a arte é como qualquer outro campo de trabalho, exige estudo teórico e/ou técnico, muito suor e algumas lágrimas. Pelo menos para a maioria dos artistas. E de fato hoje não existem linguagens puras, está tudo misturado. As obras são mestiças, híbridas. Um artista contemporâneo, pelo menos no início de sua trajetória, experimenta as mais diversas linguagens de que hoje dispomos. Muitos passam a vida toda transitando entre elas. Uma pintura pode não ser arte. Uma escultura pode não arte. Arte pode ser um guarda-chuva igualzinho ao seu. Sim, depois de Duchamp, qualquer objeto tem potencial para tornar-se artístico. A arte contemporânea já nos recebe assim. Mas paremos para pensar.

O que confere status artístico a um objeto ainda é a mão (ou a mente) daquele que o produziu ou escolheu e recontextualizou. O vaso sanitário do meu banheiro não é arte. O chão de ladrilhos (lindo!) da minha casa não é arte. A minha enceradeira vermelha, que não funciona e tem função meramente decorativa, também não. Porque estão descontextualizados. Porque nenhum artista, curador ou crítico sustentou que essas coisas são arte. Não houve neles ou sobre eles algum trabalho de ordem artística. Eles existem por suas funções utilitárias e/ou decorativas. E ponto final.

Mas se alguém qualquer, que se dissesse artista, e que de fato resolvesse trabalhar esses objetos, seja material ou teoricamente, tendo conscientemente por fim uma produção artística, esse alguém estaria sendo artista. Nem que fosse por quinze minutos. E os objetos trabalhados, desprovidos de sua função original e envoltos numa nova concepção, cuja razão de ser primeira fosse a Arte, se tornariam arte. Para mim, nesse caso, a condição de objeto artístico do vaso sanitário, do chão de ladrilhos e da enceradeira vermelha estaria garantida. Enquanto durasse a existência daquele artista. E enquanto durasse a poiética ou o animus artístico da sua produção. Por quinze minutos apenas, que fosse.                  

a arte dos outros

Para Nam June Paik, “arte é pura fraude”, “você só precisa fazer algo que ninguém tenha feito antes”. Num primeiro momento, concordei. Nesse breve momento de cumplicidade e revolta, achei que ele estivesse coberto de razão. Mas não. Logo discordei. A verdadeira arte, ou, mais realisticamente falando, a boa arte acontece mesmo que já tenham feito algo muito parecido. E também a arte não acontece só por ser a obra absolutamente original. Desde o fim da Arte Moderna, a originalidade não é mais um valor, um requisito, um pressuposto da Arte com ‘a’ maiúsculo.

Pode ser que na década de setenta, quando o artista proferiu a famosa frase e quando se “estruturava” o que hoje é conhecido por arte contemporânea, para se ter um reconhecimento no campo das artes bastasse fazer o inédito, materializar o inusitado, criar o diferente. Mas hoje não.

Hoje nós artistas temos muito claro que nada se cria de forma autônoma, que nenhuma obra é  auto-suficiente (historicamente falando) e que nada surge incólume de nossas mentes “geniais”. Lemos, escrevemos, estudamos, fuçamos na internet, freqüentamos exposições, experimentamos a vida. Apreciamos, criticamos, rejeitamos e escolhemos, do nosso entorno, o material para nossa produção. Conscientemente. Sem pudores de estar sendo pouco original, plagiando obras ou copiando idéias. Hoje essa “exploração” faz parte do processo de criação de forma muito natural. Eu diria até por uma questão de sobrevivência da própria arte, já que nada, nadinha nessa vida, nos parece totalmente novo, puro ou impossível. As referências e influências são nossas parceiras na criação da obra. Tanto que os documentos de processo muitas vezes constituem o próprio objeto artístico. Mesmo quando neles consta algo de outrem. Mesmo quando o trabalho não é uma releitura. Mesmo quando ele se propõe a ser único.    

Por isso nós artistas somos tão curiosos. Porque precisamos encontrar no universo que nos circunda o material para nossa criação. Quanto maior o entorno e mais profundo o seu conhecimento, mais fértil será a mente daquele que cria. Quanto mais absorver do que os outros já tenham feito, provavelmente melhor será o artista. E maior a sua arte.      

ao jardim de mato

os inços insistem. querem colorir o pátio, pintá-lo de verde. eu os observo. e penso. se eu arrancá-los, eles somem para sempre. mas outros nascerão no lugar vazio. se eu podá-los, eles viram árvore. e precisarei de uma serra elétrica. desde que não abriguem ratos ou cobras, está tudo certo.  eu só observo. e penso. se eu deixar tudo como está, como será?

está tudo verde lá fora. o mato cresceu muito com as chuvas. me assusta a eficiência com que ele invade a casa. não gosto de fechar as janelas. nem quando chove.

conviver é uma arte. sim. é. 

querido jardim de mato, seja delicado. não se vingue em mim. eu nem cheguei a desmatar o mundo. estou só observando. e pensando. mas se vieres para dentro de casa, me leva para cima, para o castelo do gigante. pois quero encontrar João. antes que cheguem as caturritas.



as carturritas... eu as observarei.  e não pensarei em nada.

elas chegam em abril.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

tempo [rj 2001]

Nada se faz sem o tempo
Que molda conceitos
Organiza idéias
Constrói sentimentos
Desfaz mistérios
E gera os inversos

(ausência à nado) [rj 2001]


quanto mais nada
mais afunda
e mais nada


bundas [rj 2001]


ABANA
ABANA A BUNDA
ABALA
DIZ QUE ME AMA
E NÃO PÁRA



sem pé nem cabeça
são só letras
CHURROS DOCES
comi dois
churriu podre
fedor



bundas nas ruas
todas nuas
escuras

com um
cu
no meio

na areia [rj 2001]

SOL,
SOU SUA:
SÓ SUOR!

poesias cariocas [2001]



CalOrãO
DoR No corAçÃo
vaLor sEm UM toStãO

eu cOm fome, rAivA e seDe

tenHo nO PeiTo UMA CAnção

qUe diZ mAis ou MenOs AsSim
Lá, lÁ lÁ lÁ Lá Lá
lÁ lÁ lÁ Lá Lá
Lá lÁ lÁ
lÀ Lá



domingo, 6 de fevereiro de 2011

Ella se casa

Cansada de carregar sacolas e necessaires, Ella pediu Benvindo em casamento. Ele não vibrou como as mocinhas dos filmes, mas também não pestanejou. Topou na hora.

Foram morar num apartamento alugado. De fundos. Sem luz mas com muito espaço. Tinha até um patiozinho para criar plantas. E quem sabe montar um jardim.

Era tudo flores. Ella aprendeu a fazer feijão. Benvindo aprendeu a consertar o chuveiro elétrico. Ambos aprenderam a beber menos.

Nas manhãs de domingo passeavam no parque, que ficava bem pertinho, quase em frente ao apartamento de esquadrias cor de abóbora.

Naquele apartamento estranho, escuro e grande viviam como se todos os dias fosse um domingo de sol. Isso nos primeiros meses, quando a vontade de estar junto era o sentimento predominante, o impulso, o coração daquele casamento. 

Adotaram um gato. Amarelo. Seu nome ficou Be. Uma sílaba só. Não entendo como se pode chamar um bicho usando apenas uma sílaba. Enfim.

Be passava o dia sozinho, enquanto seus donos trabalhavam.  Dormia quase todo o tempo. Andava sobre os móveis. Se aninhava nas almofadas. Fazia malabarismos tentando pegar os móbiles de origami que sua dona produzia. Raramente andava sobre os muros, raramente explorava o universo daquela vizinhança. Porque Ella traumatizou o gato, tinha medo que ele sumisse, e cada vez que o bicho trepava no muro ela o mandava descer. Pobre gato. Mas, resignado e faceiro, ele passeava no patiozinho, que já estava quase um jardim. Se roçava nas plantas de mato, uns capins brabos que Ella plantou em floreiras vagabundas. Be estava feliz. Assim como seus donos.    

sábado, 5 de fevereiro de 2011

carta para meu gato [Ella]

Meu nome é Ella e eu tenho vinte e quatro anos. Detesto o meu nome. Muito impessoal. Parece um pronome. É um pronome. Disfarçado. Um éle a mais não o absolve. Minha mãe teve essa brilhante idéia, esse rompante de originalidade, quando estava grávida de mim e passava as tardes ouvindo Ella Fitzgerald. Bem bacana. Para ela.

Agora eu serei a tua mãe. Tua dona. Tu serás meu. Cuidarei de ti até que fiques velhinho e parta dessa pra uma melhor. Tu estavas tão triste quando te encontrei. No meio daquela sujeira tu nem ficarias velhinho. Pobrezinho.  Tão magro. Logo estarás gordinho como o Be, teu irmão adotivo. Ele é mais velho, deves respeitá-lo. E aproveita para aprender com ele as malandragens e os malabarismos. Não seja idiota.  

Teu nome será Bó.  Por quê? Para combinar com Be. E porque eu gosto da letra ‘b’. Por isso teu irmão se chama simplesmente Be. Não, não é vingança. Nem recalque. Ella é muito pior que Bó. Bó é muito mais simpático. E não é pronome. Nem nada mais que duas letrinhas, o que te dará identidade. Um ‘b’ e uma vogal aberta. Que bonitinho! E ademais, gosto do número dois. Gosto de nomes simples. Pensa: ficará mais fácil pra ti aprender o teu nome. Gosto de tudo simples. 

Daqui a pouco Benvindo, teu pai, chegará do trabalho. Se ele for indiferente ou grosseiro contigo, não dá bola. Ele demora para assumir os afetos. Mas é boa pessoa. E cuidará de ti mesmo quando estiver alérgico. Mesmo quando estiver sem saco. Mesmo quando estiver sem sorte. Mesmo depois da morte. E eu também.

carta para ninguém [Ella]


Não tenho mais aquele sono excessivo. Acho que é a idade. Dizem que os velhos dormem menos. Quando adolescente eu costumava dormir mais de doze horas por noite e ainda dormia à tarde. Meu recorde foi dezesseis horas seguidas com mais três horas de sono num espaço de vinte e quatro horas. Mas eu estava de ressaca. Pois então. Hoje durmo ainda menos quando faço uma noitada. Sinto muita sede. E não sonho. Os velhos dormem menos. Nei Lisboa uma vez disse que se lembra que está ficando velho quando a ressaca custa mais tempo para passar. Eu completo essa idéia dizendo que lembro que estou ficando velha quando acordo cedo. Mesmo de ressaca. E com muita preguiça.

Tomo um gole de café, e nada. Bebo 350ml de coca-cola, e nada. Fumo um cigarro, e nada. Continuo sem pique. Decido escrever e cá estou, escrevendo bobagens. Pobre computador, meu fiel confessionário, meu pontual terapeuta.

Adotei outro gato. Dei-lhe o nome de Bó. Para combinar com Be, o outro gato. Adoro combinar nomes. Às vezes fico pensando qual nome daria a um filho, um nome que combinasse com o meu e o do pai dele. Nas noites de insônia essa questão sempre me vem à cabeça. Fico horas fazendo uma pesquisa mental. Quando viajo de carro, na carona, também. Benvindo detesta quando insisto nessa especulação. Que nome dar ao nosso filho? Ele diz que quando esse filho existir a gente pensa, até porque certamente mudaríamos de idéia até lá. Não interessa, quero me prevenir! Como se de repente um filho surgisse, sem os nove meses de gestação. Prevenção à parte, combinar nomes não deixa de ser um exercício mental interessante.

Gosto muito dos nomes começados com “b”. A letra “p” também me agrada. Penso na posição dos nomes na chamada. Se “b” for uma pessoa tímida talvez prefira ficar mais para o final. Imagino como deve sofrer um Adalberto! Sempre o número um. Na chamada, na fila, na lista. O primeiro a se expor. Ou essa pessoa aprenderá a ser corajosa, forte e segura ou estará fadada ao sofrimento. Conheço dois Adalbertos. E os dois são fortes, seguros e corajosos. Interessante. Vai ver o desfio de abrir a porteira inevitavelmente leva à superação. Timidez não pode durar a vida toda.

Preciso de um ventilador. Preciso de ar. Preciso de um banho. Preciso dormir. Preciso de dinheiro. Preciso de dinheiro para comprar um ventilador.

Senão fica ainda mais difícil dormir.

Todos os velhos deveriam ter um ventilador.

carta para um dia cinza [Ella]

Acordei tarde. E não tenho nada de urgente para fazer. Está nublado. Tem um pouco de vento. Adoro vento. Mas abriria mão do vento por uma chuva. Gostaria que estivesse chovendo. Seria o álibi perfeito para ficar em casa sem culpa.

Atualmente tenho pouquíssimos compromissos e nenhum deles é inadiável. Não tenho me comprometido com nada que me exija demais. Sinto culpa por isso. Estou numa fase da vida em que não há tempo a perder. Aí penso: o que me falta? Vontade. É vontade que me falta porque necessidade eu tenho. Ando tão dura que não tenho dinheiro nem para pegar um táxi, nem para tomar um chope na esquina. Minhas contas estão todas atrasadas e temo que nessa semana cortem minha luz. Apesar de toda essa penúria, continuo sem vontade de me mexer.

Trabalhar, estudar, encontrar amigos, trocar a areia do gato, caminhar no parque, fazer sexo, ir ao banco, cozinhar: tudo isso me cansa só de pensar.

Por isso permaneço em casa, olhando o dia pela janela.

Como se eu estivesse num trem, vendo a paisagem correr. Sem desembarcar em lugar nenhum. O trem é o meu apartamento, a paisagem é a vida acontecendo.

Sei que preciso desembarcar em algum lugar, em alguma estação, em alguma situação. Pôr os pés no chão. Mas hoje não.

                                                                                          
                                                                                           Ass. Ella 

Ella e a origem do ellacarlinha

nos idos anos de 1997, minha amiga Beti morava na Europa. a internet recém estava acontecendo. ela queria se cominucar comigo via email, mas eu ainda não tinha um. então, ela fez um hotmail pra mim. ellacarlinha era (e é) o ID. e por que esse nome? porque na época eu estava escrevendo uma estória na qual a personagem principal se chamava Ella.

foi assim que peguei seu nome pra mim. que o recebi da Beti. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

http://temnosotao.blogspot.com/

Agora que criei um blog específico para publicar escritos sobre arte, deixo de postá-los aqui no inços e aquilos. Mantive apenas alguns trechos dos três textos anteriores, que estão na íntegra no blog recém criado que é o tem no sótão.   

Agora, cada cousa no seu quadrado.

This is it.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

o Realismo no estúdio do pintor

trecho da leitura de imagem da obra "O estúdio do pintor", de Courbet

texto publicado íntegra no blog http://temnosotao.blogspot.com/


Courbet foi um defensor do Realismo, que pregava que arte deveria tratar de fatos comuns, sem comentários morais nem idealizações. Segundo JANSON, Courbet começou como um romântico neobarroco, mas, influenciado pelos levantes revolucionários que varriam a Europa, chegou à conclusão de que a ênfase romântica sobre o sentimento e a imaginação era uma fuga à realidade da época – o artista moderno devia confiar em sua experiência direta, devia ser um realista

Na obra  “O estúdio do pintor”, de 1855, Courbet faz uma crítica social. É uma das obras recusadas pela Exposição Universal, em Paris, quando o artista reagiu construiundo um pavilhão onde expôs 44 obras que chamou de “realistas” – um marco desse movimento.
Courbet registrou suas reflexões enquanto o pintava "O estúdio do pintor", por isso dispomos de informações indubitáveis que  elucidam a leitura dessa obra. Sabemos que à direita do pintor estão personagens reais, amigos do artista, e que à esquerda estão aqueles que segundo ele próprio “florescem com a morte”: não só seus inimigos e as coisas que ele combatia, mas também os pobres, destituídos e perdedores na vida.
Talvez com o intuito de esclarecer quais eram suas intenções, a obra vem com um estranho subtítulo: “Alegoria Real, Histórica, Moral e Física que resume um período de sete anos da minha vida artística”. Nessa tela Courbet realiza um novo tipo de alegoria, uma “alegoria realista”, uma síntese simbólica da sociedade de sua época, com todas as camadas sociais representadas.

E é um ato-retrato. Ele se representa pintando uma paisagem, ao lado da mulher nua, que para muitos estudiosos seria a representação da verdade.

A corrente predominante na arte ainda não considerava a paisagem um tema digno de um pintor sério – e Coubet parece estar se opondo a esta opinião, questionando as idéias vigentes no sistema das artes.   
Courbet lutou pela independência do artista, que neste quadro, é o centro da obra - está no centro da composição. A partir daí, ele assinala um novo horizonte de possibilidades para os artistas, livres de preceitos morais e encorajados a seguir seu próprio caminho, sem contar com qualquer outro pressuposto além do ser fiel a seus próprios princípios – sinalizando o rumo que tomaria a arte moderna no século posterior.

“O estúdio do pintor” é, para CUMMING, um manifesto onde o artista declara suas crenças e opiniões. Nesta obra ele declara sua idéia de que a pintura tem exigências próprias e escancara sua negação aos arranjos convencionais. Os historiadores consideram esta a obra mais ambiciosa de Courbet, a sua declaração de independência.

Concordo com JANSON: “O Realismo de Courbet, então, foi mais uma revolução temática que uma revolução no estilo". (p. 329).

Assim como muitos historiadores, penso que Courbet foi um artista imprescindível naquele momento histórico. Ele questionou as convenções vigentes no sistema das artes, opondo-se ao classicismo e ao romantismo com propósitos sociais e artísticos. Seu Realismo provocou uma revolução temática e, com isso, uma nova forma de ver a arte – questão que veio à tona nos movimentos artísticos posteriores. “O estúdio do pintor” é uma obra que resume as idéias do artista: Courbet explora ao máximo sua crítica social e suas convicções realistas, colocando o artista no centro da composição, ou ainda, a arte no centro daquele universo.

Pensando sobre o estranho subtítulo “Alegoria Real, Histórica, Moral e Física que resume um período de sete anos da minha vida artística”, penso ainda que “O estúdio do pintor” remete a uma questão que por muito tempo esteve em discussão na arte contemporânea: a natureza da arte, ou, “o que é arte”. Penso que neste trabalho Courbet está de algum modo questionando o “ser ou não ser arte”. Ele  apresenta, no centro da composição, outra pintura sendo feita - uma paisagem, tema tantas vezes rechaçado do mundo das artes. Então, mesmo levando em conta que para Courbet arte seria a representação da realidade da vida, que para ele havia esta afirmação, penso que, diante de todas aquelas figuras representadas na cena (intelectuais e povo) e diante de todo o público que viesse a se deparar com a obra, Courbet acabou questionando a natureza da arte, ainda que sem intenção. 

Porque uma alegoria moral requer um pensamento crítico-filosófico. Porque uma alegoria física implica a importância da matéria (pintura). Porque o resumo de sete anos de uma vida artística pressupõe um pensamento que chegou à afirmação de que arte é a representação da realidade. E porque se a obra “O estúdio do pintor” é arte na medida em que representa a realidade, o que seria aquela paisagem que ele pinta ao lado da verdade?

Segundo os historiadores seria um novo tipo de arte, uma paisagem realista que representaria a terra natal do artista. Mas quem sabe, por ironia, não seria a pintura do que ele não vê, uma paisagem imaginada? (já que está fechado em seu ateliê). Se assim fosse, para quem nunca pintou um anjo porque nunca viu um, aquela paisagem poderia não ser arte. Seria apenas pintura. Haveria no centro da composição um jogo de proposições. Imagem que afirma perguntando, que dita e leva além a nossa concepção de objeto artístico - e com isso a concepção da própria de arte.  Algo como “isto não é um cachimbo” (é representação/é pintura/é arte), como bem mais tarde afirmou Magritte.

CUMMING, Robert. Para entender os Grandes Pintores. São Paulo: Ática, 1998. p. 74-75
CUMMING, Robert. Para entender a Arte. São Paulo: Ática, 1998. p. 82-83.
JANSON, H. W. Inicição à História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1996. p. 328-329

Bosch, o estranho (e seu jardim delicioso)

trecho da leitura de imagem da obra "O jardim das delícias", de Hieronimus Bosch

texto na íntegra no blog http://temnosotao.blogspot.com/


Segundo o padre José de Sigüenza (séc. XVI), em História da Ordem de São Jerônimo: “a diferença, que no meu entender, existe entre as pinturas deste homem [Bosch] e a dos outros é que os demais procuraram pintar o homem tal como ele parece externamente; apenas este se atreveu a pintá-lo como ele é por dentro” (Mestres da Pintura, 1977, p. 05).   

Bosch viveu num período particularmente crítico: o da passagem do feudalismo ao capitalismo comercial, passagem de um modo de vida a outro, que, no campo cultural, foi marcada pelo Renascimento. Entretanto, Bosch não é um representante dos ideais humanistas e da vontade de dominação material e espiritual do mundo; pelo contrário, Bosch representa o limite de uma percepção da realidade em vias de extinção – uma das expressões mais altas e alucinadas do mundo medieval.

Segundo Ludwig Von Baldass:   

“Pelos problemas que coloca, ele está absolutamente sozinho. É o grande solitário da história da arte; é o pintor que, através de sua arte – que está historicamente a altura de sua época – quer mais que os outros. Não aspira a divertir, a instruir ou a educar, mas a criticar e a profetizar". (Mestres da Pintura, 1977, p. 06).  
A incerteza acerca da vida e Bosch é tão grande quanto à do sentido de sua obra - já foram propostas diversas interpretações de O Jardim das Delícias, havendo um consenso acerca do sentido global da obra: o pecado original gerou no Paraíso um mal que se alastrou pela Terra e cujo castigo é o sofrimento do Inferno (tema recorrente em sua obra).     

Segundo Robert Cumming, (Para Entender a Arte, p. 24):

“Sua visão da humanidade é pessimista e moralizadora: o ser humano carrega uma falha fundamental desde a expulsão de Adão e Eva do Jardim de éden. Na filosofia de Bosch, a salvação é possível, porém com grande dificuldade, e o destino provável da maioria das pessoas é a danação eterna. A morte e o medo da morte são uma realidade sempre presente na sua arte”.

Não sei se de fato a obra é moralizadora ou irônica. A obra mostra as conseqüências do pecado, a trajetória do homem que parte do Paraíso, seu lar antes de sua queda, e passa pelos pecados terrenos até chegar ao inferno. Se Bosch representa, assim, a condenação do homem em razão de sua vida pecadora na Terra ou se faz disso um palco para reflexão, dotado de bom-humor e celebração, não se pode afirmar. 

Embora possa haver uma conotação moralizadora nessa obra, no painel central percebo certa simpatia do pintor em relação à cena: pela alegria, pelo humor explícito e pelo “algo de” doce e ingênuo na forma como ele nos mostra o pecado da luxúria - mesmo nas imagens que chocam pela estranheza e crueldade, como no homem com a cabeça submersa no lago, que segura seus genitais com uma framboesa (podre?) entre suas pernas. Para meu olhar contemporâneo, soa como uma “crueldade delicada” (pelas formas arredondadas, cores alegres e doces), e talvez por isso as imagens me sejam antes bizarras que violentas. Segundo COPPLESTONE (p. 56): “O curioso efeito geral desta orgia pastoral é de pacífica inocência e de uma delícia verdadeira”. Sim, a paisagem apresentada é por mim vista como uma espécie de “parque de diversões”, habitado por estranhos animais, pássaros gigantes, curiosas formas vegetais, frutas vermelhas e conchas enormes, onde homens e mulheres (pequenos em relação aos elementos, o que pode ser crítica à pequenez no homem) se divertem com suas acrobacias sexuais.     

Fraenger, estudioso da obra de Bosch, entende que o pintor não utilizaria cores e formas tão encantadoras para um objeto que queria representar como condenável - o que vem a sustentar minha opinião sobre a predominância da ironia em relação à moralização. Não obstante haja uma crítica, não podemos saber ao certo até que ponto Bosch estaria condenando esses homens, até que ponto houve esta é uma visão moralizadora. As imagens seduzem, atraem por sua beleza formal e pela estranheza, pela “bizarrice” das cenas - e acabamos deixando em segundo plano a condenação moral que para tantos estudiosos seria o cerne da obra de Bosch.

O universo apresentado por Bosch em O Jardim das Delícias é surpreendente e confirma a peculiaridade da sua visão de mundo tão apontada pelos historiadores – visão esta que parece vir à tona, de forma inconsciente, nesse trabalho. Não é a toa que os surrealistas têm sua obra como referência! O fato de sua obra ter sido produzida na segunda metade do século XV, no auge do Renascimento mas fora dos cânones renascentistas, a torna uma obra diferenciada: Bosch continuava apegado às questões do medievo e produzindo imagens surreais, numa cidade provinciana povoada por religiosos conservadores. Foi um artista conservador, pelo apego ao medievo, mas moderno pela coragem de pintar o homem por dentro. Foi irônico e/ou moralista. Foi polêmico. Sua poética torna inevitável tentar imaginar a reação das pessoas da época ao se depararem com seus quadros - tarefa quase tão impossível quanto entender a obra (e as intenções) desse artista tão singular.      

BOSING, Walter. Hieronymus Bosch. Londres: Taschen, 1991. p. 51-57.
COPPLESTONE, Trewin. Vida e Obra de Hieronymus Bosch. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997. p. 52-61.
Mestres da Pintura. São Paulo: Editora Abril, 1977. p. 05-19. 
CUMMING, Robert. Para Entender a Arte. São Paulo: Ática, 1998. p. 24-25.

O padeiro chamado Neo

trecho da leitura de imagem da obra "O padeiro e sua mulher" (ou "Neo e sua mulher")

texto na íntegra no blog  http://temnosotao.blogspot.com/


A pintura mural conhecida como “O padeiro e sua mulher” (ou Neo e sua mulher, século I, Roma) foi descoberta em Pompéia, cidade soterrada pela erupção do vulcão Vesúvio no ano de 79 d.C. É um dos primeiros retratos da História da Arte em que não há um intuito fúnebre ou religioso.

A simples intenção de retratar a existência de personagens comuns era algo raro nessa época em que a pintura romana estava estreitamente ligada à arquitetura e sua finalidade era quase exclusivamente decorativa. Esse retrato me “fala” também de uma tendência à valorização do homem, antes visto como tão insignificante diante de Deus.

Embora com motivações diferentes, e a meu ver até antagônicas, essa pintura traz muitas semelhanças com os retratos de Fayum (oásis situado ao sul do Cairo), retratos mortuários pintados sobre tela de linho ou madeira e colocados sobre os sarcófagos. Remontam à época da ocupação romana, nos primeiros séculos da nossa era. A Berger Foundation considera estes os primeiros retratos de personagens pintados na História da Arte, bem como o relato de um encontro histórico entre duas culturas: a romana e a egípcia.

O elemento que os diferencia, para mim, também os aproxima: enquanto na arte funerária a finalidade era divina, de exprimir a serenidade de um personagem em paz diante da morte, o que lhes propiciaria a vida eterna, “O padeiro e sua mulher” com finalidade decorativa, doméstica e de registro dos donos da casa, também os ETERNIZA na parede daquele lar. Nos dois casos, a identificação, seja no túmulo ou na parede da casa, perpetua a existência das personalidades retratadas.

As semelhanças entre os retratos mortuários e a obra romana aparecem também no aspecto estilístico, na ênfase nos traços fisionômicos e no fundo neutro que concentra a atenção nos retratados. Ambos exploram a expressividade do olhar, que mira o espectador atraindo-o para si, buscam ser fiel às feições, mostram o vestuário, as jóias, os adornos e algum elemento alusivo ao ofício dos retratados. Os primeiros, no intuito de alcançarem a vida após a morte, o segundo, no intuito de marcar sua existência.

A tradição do retrato começou na antiguidade, mas esteve durante muito tempo restrito a uma pequena parcela da sociedade.  Há alguns exemplos no Antigo Egito, onde apenas o faraó e sua família tinham o privilégio de serem retratados, na Grécia, onde as moedas eram cunhadas com o retrato dos seus soberanos, e em Roma, onde principalmente utilizavam o retrato para cultuar os antepassados (“O padeiro e sua mulher” é exceção).

O retrato popular começou a aparecer com mais força a partir do século XV, até o surgimento da fotografia no século XIX.

A idéia do retrato como imagem fiel à aparência do retratado esteve presente apenas em determinados momentos históricos, como no antigo Egito, nas dinastias IV e XVIII do Antigo Império e no Império Novo. Na Grécia antiga, somente no período helênico os retratos incluíram aspectos particulares dos retratados. Durante a Idade Média o naturalismo foi interrompido e retornou a partir do Gótico, quando, com a revalorização da natureza, do homem e da razão, o retrato desenvolveu-se como gênero autônomo, destinado aos nobres e burgueses.

No Renascimento, com o naturalismo e o humanismo em alta, o retrato tornou-se um dos principais gêneros da arte, com finalidades particulares e públicas, tornando-se um meio para os burgueses consolidarem seu prestigio e seu poder social. No Barroco o retrato naturalista voltou com força total, especialmente os retratos de corpo inteiro.

No Impressionismo e na Arte Moderna os artistas negaram os padrões tradicionais da pintura, o naturalismo deixou de ser unânime e as novas abordagens estéticas entraram em choque com as expectativas da sociedade, tornando escassas as encomendas de pintura de retratos pela burguesia, tão comuns até o Romantismo. A fotografia passou a atender à função prática do retrato e permanece assim até hoje.

Enfim, “O padeiro e sua mulher”, retrato pintado no primeiro século da nossa era, sem fins religiosos ou fúnebres, é um exemplar do nascimento do retrato tal como o conhecemos hoje, essencialmente destinado a “representar” a pessoal como ela é, fiel à sua aparência, à sua singularidade, deixando-a para a memória. E isso me leva a pensar em como, depois de cerca de 2 mil anos de história, esta obra, dotada de um realismo e de uma expressividade incomuns, pode parecer tão atual.

Fazendo um contraponto com os retratos mortuários de Fayum, de intuito especificamente fúnebre, penso sobre o casal retratado em “O Padeiro e sua mulher”. Vejo-os como pessoas “modernas” para a época, porque foram pessoas comuns que utilizaram o retrato na busca de identidade e memória, com a vontade de ter um pouco de si gravado na parede da casa, eternizando-se (como desejavam os retratados de Fayum) através da decoração. Um pouco de vaidade, a intenção de marcar presença, um tanto de desejo de sentir-se especial e eterno. Funcionou. Hoje, em pleno século XXI, cá estou, escrevendo sobre eles, intrigada com essas personalidades tão antigas e tão iguais a nós contemporâneos, e me perguntando se o nome do padeiro era mesmo Neo. Ou se Neo realmente foi padeiro.         


BECKETT, Wendy. História da Pintura. São Paulo: Editora Ática, 1997. p. 22.
GOMBRICH, E.H. História da Arte. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1999. p. 117-131. 

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

http://www.flickr.com/photos/ellacarlinha/

Coloquei no Flickr algumas fotos e imagens de trabalhos feitos por mim dentro e fora do Instituto de Artes da UFRGS.

Porque não vivo só de palavras.

Porque estou experimentando.

Porque eu gosto.

Porque sim.

alfabeto de mulheres

enfim, foram postadas as tais historinhas dessas mulheres que de certa forma me habitam desde que eu era menina. este "projeto" começou antes dos meus vinte anos. os textos foram revisados ao longo do tempo, mas preservei o conteúdo e a forma da escrita.

posso dizer que esse alfabeto de mulheres levou mais de quinze anos para ser finalizado. se é que estar completo significa o fim. acho brabo, porque volta e meia chega alguma Ana, Bárbara, Clara ou Débora reivindicando um espaço. um parto. ou algo assim.  



agradeço as minhas AMIGAS que, compartilhando comigo suas intimidades e suas vidas, (imaginações à parte) forneceram o material do qual é feito cada uma dessas mulheres.

Zelda

Zelda já fez de tudo: dançou balé, tocou piano, roubou um estojo de canetas hidrocor numa loja de departamentos, colou na prova do vestibular, formou-se em Direito, trabalhou em escritórios de advocacia, estudou teatro, fez cursos de mergulho, pintura, oratória e desinibição, comprou um apartamento, trocou o apartamento por uma casa velha, criou cachorros e uma tartaruga, alimentou os gatos da vizinhança, fez doação para o Criança Esperança, viajou de ônibus até o nordeste, viajou pela Europa de mochilão, aprendeu a tocar violão, foi cantora de banda de rock e crooner de banda de baile, atuou num filme em super-8, namorou um colorado, casou com um gremista, deu para vários caras, transou com uma mulher e não gostou, leu Paulo Coelho, Hesse, Bukowski, Cortázar e Guimarães Rosa, queimou um livro sobre o poder do subconsciente, vendeu rifa e artesanato, teve um grande amigo que morreu de AIDS, escreveu incontáveis diários, raspou a cabeça, usou dreadlocks, anéis em todos os dedos e saias longas produzidas na Índia, calçou coturnos, mocassim e salto agulha, pintou a boca de preto, as unhas de azul e o cabelo de vermelho, aderiu ao cabelo loiro com chapinha, deixou de fazer as unhas e de pintar os cabelos brancos, quebrou o pé, fumou maconha, bebeu absinto e virou fã de gim tônica, dormiu nas mesas do Van Gogh, perdeu a melhor amiga e acordou para a vida, inventou poemas e canções em três acordes, sonhou que estava voando e não podia aterrisar, plantou um jardim de flores amarelas, cultivou inços, engordou dez quilos, emagreceu doze, brigou com o vizinho, fez amizade com o porteiro, se apaixonou pelo pedreiro, teve um caso com o professor de filosofia, ficou eufórica achando que a metafísica era a sua linha, desistiu da lógica, virou espírita e mais tarde budista, acampou nos Aparados, pescou um bagre, tomou banho pelada no Guaíba, tornou-se socialista, anarquista, capitalista e niilista, assumiu-se artista, foi modelo vivo e síndica, criou um blog sobre culinária, descobriu que seu ascendente é Libra, admirou a mãe pelo bom-humor e o pai pela postura blasé, entendeu que família é mais um porto que uma porta, tomou um porre com o irmão jurando que o tempo tinha parado, ficou três horas com a irmã ao telefone jurando que o tempo tinha parado, fez seis anos de psicanálise e chorou quando se despediu da psiquiatra, tomou ansiolíticos, estimulantes e antidepressivos, se separou pela segunda vez como se fosse a primeira, dormiu com o melhor amigo, virou vegetariana, pulou carnaval na Bahia, desfilou em escola de samba, foi fã do Jim Morrison, assistiu Legião na primeira fila, encarou a pista no show dos Stones, pegou caxumba e catapora, vacinou-se contra a gripe suína, torceu pela Argentina, bateu de carro num fusca zero km, contou os azulejos do banheiro e descobriu o resultado ímpar, tirou a televisão do quarto, parou de ver novela, fez peeling, drenagem linfática, reiki e acupuntura, conseguiu meditar, parou de fumar, perdeu o medo de altura e passou a gostar de escadas rolantes, salvou um passarinho que caiu do ninho, emprestou dinheiro e teve que fazer empréstimo para cobrir o cheque especial, plantou uma árvore, perdeu o prazo num processo, reverteu uma sentença no STF, sentiu-se mais feia que Beti, a feia e mais bela que a tal Gisele Bündchen, teve um filho e aprendeu a amar melhor - não necessariamente nessa ordem.

E Zelda acha que fez pouco. 

Yasmim

Yasmim tornou-se trapezista de circo, mas no início da carreira pensava em ser atriz de teatro. Seu maior sonho era interpretar Blanche Du Bois. Segunda opção: Lady Macbeth.  

Eis que hoje seu trem é um motorhome enferrujado e seu castelo é feito de lona azul e branca.

Depois que aprendeu a voar, Yasmim nunca mais sonhou interpretar outra personagem que não ela mesma.

Wânia

Uma mulher como Wânia, com esse “w” maiúsculo, enorme, imenso, nunca dorme só. O biquíni branco pendurado no boxe do banheiro não foi a única coisa que restou de seu banho de mar.

Wânia está na cama e ao seu lado está Marcos. Com a cabeça cheia de idéias, ele não consegue pegar no sono. E está decidido a não sair dali antes ver Wânia sair debaixo daquele lençol. Ela dorme e sonha que ainda está no mar.

As mulheres são quase todas muito iguais, algumas são menos que outras. Mas Wânia é bem diferente.

                                                                     [referência: música Melô das Musas, Mundo Livre S.A.]

Vanessa

Vanessa completou trinta anos e ao apagar as velinhas do bolo de aniversário fez um pedido: um filho. Ainda não conhece o pai de seu rebento, mas sabe que ele está por aí, em algum lugar do planeta azulzinho. Por isso ela agora não tem mais preguiça: vai de ônibus pro trabalho, almoça em restaurantes vegetarianos, caminha no calçadão de tardezinha, vai ao supermercado na hora de pico, confere todas as festas anos 80 que acontecem na cidade e entra nas filas de banco ao invés de usar o caixa eletrônico.

Ela está pagando um plano de saúde e parou de fumar.

As amigas estão orgulhosas de Vanessa. O que elas não sabem é o real motivo de tamanha disposição. Se soubessem, talvez fizessem o mesmo. Mas por certo não dispensariam o caixa eletrônico. Porque fila de banco, só depois de grávida.

Úrsula

Úrsula não é a maior, mas é a mais brilhante de sua constelação de amigas. É ela quem leu todos os livros, assistiu a todos os filmes e possui todos os discos. É ela quem conheceu mais lugares, conquistou mais rapazes e se mantém em forma mesmo comendo fast food. É ela quem tem o maior número de amigos no Orkut. É ela quem tem o maior número de seguidores no Twitter. É ela quem decide para aonde vão nos sábados à noite. É ela quem consegue ingressos de graça para shows. É ela quem coloca os nomes nas listas.

O que as amigas não sabem é que Úrsula se sente apagada e sozinha, como se vivesse num céu nublado, num domingo à noite, em pleno agosto, esperando um cometa.

Talita

Ao som de You’re So Fucking Special Talita beijou Bernardo pela primeira vez. Just like an angel, Bernardo entrou em sua vida pela porta da frente.

Ao beijar Bernardo, Talita teve certeza que na manhã seguinte acordaria ao seu lado. E torceu para que essa manhã se repetisse, porque já sentia saudades do que ainda nem tinha acontecido.   

Faz quatro anos, sete meses e oito dias que Talita e Bernardo namoram. Nesse tempo, fizeram muitas coisas juntos: viajaram pelo litoral, plantaram uma árvore, adquiriram uma cama de casal, adotaram um cachorro, leram a Odisséia, aprenderam a cozinhar, engordaram dez quilos, ganharam dinheiro, viraram espíritas e fundaram o primeiro fã clube brasileiro do Radiohead.


Sílvia

Sílvia cresceu ouvindo de todos: “Sílvia, piranha” – refrão da música da banda Camisa de Vênus, hit nos anos 80. Quando menina chegou a acreditar que essa música tinha sido feita para ela.

Hoje Sílvia já é uma mulher e está no quinto casamento. Cada vez que se casa lamenta os tantos homens com os quais deixará de transar. E lembra da música, sabendo que não foi feita para ela.     

Sílvia só deu para cinco, de resto ela apenas emprestou. Ou foram eles que pegaram. Para todos os efeitos, ela é penta. E isso não tem nada a ver com a tal da música.