domingo, 20 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

799/1983

aspiro um livro simples, mas não um livro idiota. aspiro um livro leve, mas não um livro vazio. algo sem muitas descrições ou grandes psicolgismos. nem biografia, nem poesia. tampouco ensaio ou teoria, seja lá sobre que maravilha for. desejo me transpor. exauri a escrita. agora vou ler. este romance. ficção de setecentos e noventa e nove páginas com letras miúdas. edição de mil novecentos e oitenta e três. só podia.

antes da internet as letras eram menores. e os leitores, menos míopes.  

pianinho

vou tentar ler esse livrinho. 96 páginas. letras garrafais, diagramação para aposentados. mas posso desistir e dormir pelado. hoje é sábado, faz um calor danado e estou sozinho.

#@!%

"puta que pariu, esqueci a porra do carregador do celular naquela merda de escritório. bosta de lugar. minha chefe é uma vaca. se eu for lá buscar, a filha da puta vai me segurar até às nove e o cacete. boceta. piça pra ela, que vá tomar no cu. não ficarei nem fodendo".  


"calma, amor. o carregador está no bolso do teu casaco. vejo daqui".
  


maria capitolina

dois litros d'água e uma pança descomunal. sem feijão, nem repolho. absolutamente nada de sorvete. sequer um pão. 

foi assim que ela chegou atrasada no serviço. 

os colegas estranharam, desconfiaram que ela estivesse grávida. mas como teria engravidado de um dia pro outro? ou, como teria adquirido oito meses de gravidez em menos de quinze horas? a meada se alastrava pelos corredores nus da repartição. eram apenas nove e vinte e o mexerico já estava na secretaria. todos concordavam mas ninguém entendia. até que a colega mais sem-noção não resistiu a caraminhola e pronunciou, com olhos esbugalhados, "tu estás grávida?". emulada, Maria superou em muito a sem-noçãozice da colega. com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, disse, visivelmente triunfante, "estou de ressaca".

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

sozinho

Gosto de ficar sozinho. Agrada-me estar longe de vínculos. Não preciso ver o outro, falar com ele ou qualquer coisa assim. Posso fazer o que quiser sem ser avaliado ou visto. Eu deito na cama, leio um livro e tomo um quinto café, de pijama. Eu rolo na grama, faço buracos e conto formigas. Não lavo a louça, não puxo a descarga, não desligo a tv. Eu ouço Teixeirinha e bebo água no bico da garrafa. Eu corto as unhas no sofá da sala. Eu fumo. 

Gosto de estar sozinho. Invento um caminho cheio de obstáculos ínfimos. E ando descalço, desengonçado e sem ritmo. Ninguém me distrai, ninguém me trai, ninguém me desvia. Eu sou o dono do meu dia. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

um dia

Um dia você terá de fazer um backup. Um dia você terá de limpar a caixa d'água. Um dia você terá de parar de fumar. Um dia você terá de escrever o livro, plantar a árvore e ter o filho. Um dia você terá. Só um dia.

moro numa casa velha

Moro numa casa velha. Corpo de alvenaria, paredes internas de madeira. Chão e teto de madeira também. As janelas não têm venezianas, mas têm cortinas lindas que foi minha mãe quem fez. Na sala, a janela é quase tão grande quanto a fachada. Entra muita luz e a vista é bonita. Gosto da rua, arborizada e calma. 

Na frente da casa tem um pé de butiá. No seu tronco nascem orquídeas brancas. Esse butiazeiro dá um charme especial à casinha azul. Na alvenaria chapiscada, nascem limos e inços. Esses verdinhos dão um toque especial no azul piscina.

Tudo dentro de casa é antigo. Cozinha enorme, pé direito alto, lareira larga, fogão à lenha. Nos banheiros, os azulejos que restam são floridos. Piso de mosaico, louças coloridas. Bucólico.  

Procuro deixar tudinho limpo. E deixo. Especialmente quando viajo. Para sentir que o tempo não passou aqui dentro, quando eu voltar. O que nunca acontece. A corrida dos dias me é revelada, sempre e implacavelmente, pela presença de cadáveres ortópteros. De onde vêm esses seres cosmopolitas? O que essas criaturas saprófogas vêm comer aqui? Estamos longe da civilização. E o pouco que há está na geladeira.

Malditas e burras baratas, vêm de longe para morrer de fome.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

passiflora

É muita informação. As pessoas não aguentam mais. Eu não aguento mais. Mal voltei de férias e já estou "estriquinada". Cheguei a ponto de dar um google pra ver o que é exatamente "estriquinina" e descobri que o certo é estricnina. Portanto, estou estricnada. 

Mas antes dei google pra saber como tirar manchas de mofo, a receita de souflê de cenoura, qual anti-pulgas é menos tóxico, sobre aquele café vindo da merda daquele bicho estranho, a correta colocação do pronome "lhe", quantas calorias tem um camarão, qual o nome daquele ator que fez o filme "Bronson", como ficou o recurso de revista depois da reforma, os feriados de 2013, onde nasceu Tehching Hsieh e o caso das drogas cibernéticas ou digitais. 

Então, larguei de mão a internet e fui pra sala ver tv e folhar revistas. Na tv, me deparei com a entrevista de um cara que falava sobre a obra de Ricardo Piglia, escritor argentino que nunca li e do qual nada sei. Na revista, encontrei uma matéria sobre o novo gênero literário denominado de  "autoficção" e do qual nada sei também. Pensei em dar um google, mas não. Fui forte. Fui pra cozinha fazer um chá de passiflora, que uma amiga me disse que acalma. 

Mas não sem antes dar um google pra saber o que é, exata e justamente, passiflora.







Passiflora - (Passiflora incarnata)
Retirado das folhas do maracujá ou especialmente do maracujá açu. É no suco do maracujá que existe boa quantidade de vitaminas, especialmente A e C, além de sais minerais, como cálcio e ferro, e fibras.
Usado por muitas gerações, é uma planta conhecida no Brasil de sul a norte, famoso pela sua ação nas propriedades calmantes que são depressoras do SNC. É vendido com o nome comercial de Passiflorina (ou Maracujina), um sedativo natural encontrado nos frutos e folhas.
Indicações terapêuticas: usar as folhas. Pode-se usar de 6 a 8 gramas. O chá reduz a atividade excessiva do sistema nervoso. Tome uma ou duas xícaras por dia.


para quem escreve como escritor

o maior alívio para quem escreve como escritor - sem necessariamente ser um escritor, refiro-me à prática e só - é conseguir terminar um texto de que se gosta tanto de ler que a única coisa a fazer dali pra frente é sair do computador ... ir ver o sol nascer ou se pôr, jogar bola com o cachorro ou cozinhar, ver tv ou regar as plantinhas da casa. quando isso acontece, o dia fica infinito. 

para quem escreve como escritor, ansiolíticos não confortam a alma - é preciso ser dito.   

o eu

O eu está na moda. Com as redes sociais o eu ganhou um palco infinito. O eu é sempre o mais feliz e o mais bonito. O eu cresceu tanto que está difícil ver o outro. O eu é o maior e o resto é pouco. Ficou demodê ser tímido.

Há, não por acaso, a proliferação de palavras com prefixo "auto". A mais nova classificação de gênero para obras literárias é a "autoficção". Para os formalistas, talvez os textos desse blog estejam incluídos nessa categoria. Mas, para mim, não.  

O meu eu é mentiroso e nada nítido, a coisa mais horrível.

hospital

"Um óculos escuros, pelo amor de deus". Foi só o que eu disse quando acordei naquela cama de hospital.

A luz branca me cegava - detesto luz fria. Meu corpo tremia feito vara verde - nunca vi uma vara verde tremer. Sentia frio e náuseas. A enfermeira me deu um cobertor e uma bacia de inox que eu apelidei de vomitador. Mas não me deu os óculos escuros. 

Fiquei ali extasiada com aquela sensação de perdimento. Eu estava morbidamente fruindo aquele caos mental. Tentava lembrar do que eu sonhei enquanto estava anestesiada - sim, eu creio que sonhei. Mas não lembrei de nada. Lembrei sim foi da minha amiga que morreu. Chorei e chorei. Eu chorava sem saber por que, embora sabendo que eu sentia saudades dela. Não me interessava o resultado da cirurgia, eu estava cagando para o sucesso. Eu só queria saber de gozar aquele momento estranho e único, no qual eu chorava sem saber por que e  que há muito tempo não acontecia. Queria minha amiga para chorar comigo. Eu era a única que chorava naquele rescinto e estava cagando para isso também. Me perguntaram se eu sentia dor e eu respondi que não. Se me perguntassem se eu sentia prazer, teria respondido que sim.  

Então, para encurtar a história, eu fiz xixi só para obter alta do CR e ser levada para o quarto. No quarto, eu botei meus óculos escuros e fiquei um dia inteiro deitada, olhando o soro pingar. Sem dor, nem prazer.

 

a enceradeira vermelha

a enceradeira vermelha veio comigo até os confins. não me desfiz desse objeto pifado. porque foi minha avó quem me deu. e porque ela é mais bonita que um cabide.

a enceradeira vermelha vive comigo há três anos. já chegou aposentada. antes repousava sobre uma mesa de mármore. aqui, agora, aguarda um posto sob um chão de tábua. acho que ela prefere essa casa. 

a enceradeira vermelha gosta de estar no chão, eu sinto. sua perspectiva fica mais ampla. ela pode olhar para os lados sem sofrer vertigem. não há penhascos. 

uma paisagem segura é vital para quem espera.

ines

Ines é prudente e precavida. Não conta com nada que talvez. Se fosse devota seria a Tomé. Mas não é.

Ines só anota na agenda os compromissos que já cumpriu. E é a única mulher que eu conheço que lê o manual de instruções do microondas.     



terça-feira, 8 de janeiro de 2013

colapso geral

Tudo o que guardava na cabeça transportou para o coração. Foi aí que o órgão aumentou até esmagar o mal, e deu-se o colapso geral.

Ele não morreu. Mas muita gente chorou de remorso. E mais gente ainda chorou de arrependimento. Ele nunca mais foi o mesmo. O mal, tinhoso, ganhou na justiça a demarcação de área. E o coração, tão bonzinho, desisitu de recorrer. 

e disso nasce o verde

tua cabeça é uma metrópole e teu coração é um sertão. em mim, isso difere. a minha é deserto e o meu é mangue. tu és por demais extravagante. vagas sem vazar gota. eu não. eu sou igual aos outros. àqueles que pouco pensam antes de chorar. e disso nasce o verde, da fossa do terreno fértil. 

No Meu Tempo [fofolete x Polly]

No meu tempo, nós, meninas, brincávamos de fofolete - bonequinha de seis centímetros, cabeça de plástico e corpo de pano recheado de bolotinhas indefiníveis (sagu?). Corpo fofinho nos dois sentidos. Hoje há a Polly (com p maíusculo) - bonequinha de seis centímetros, toda de plástico siliconizado. Corpo magérrimo, esquálido.

A semelhança, creio, não passa do tamanho. Para começar, a fofolete sequer tinha nome: fofolete era gênero. Aqui "não ter nome" significa ter qualquer nome, o nome que, naquele dia ou para semppre, a sua dona ou amiga da sua dona e manipuladora a batizou. A fofolete não tinha acessórios - sua casa era feita pela própria brincante, com caixinhas de fósforo, tampihas de garrafa, vidrinhos, carretéis. Um luxo era ter mobília feita por algum merceneiro, geralmente pecinhas de madeira que se encaixavam. Seu guarda-roupas resumia-se a uma touca e um cachecol. Portanto, mesmo com aquele corpinho de pano, era como se vivesse pelada. A  Polly tem dezenas de acessórios, e tem casa, piscina, moto, carro, helicóptero. Tem um vasto guarda-roupas especial, fashion e de plástico. Portanto, ela vive "montada". 

Com a fofolete, a brincadeira começava antes, na confecção de seu cenário, seus objetos, seu universo. E o desenrolar da bricadeira, com a criação de enredos, situações, relações entre fofoletes, comumente era alimentado pelo ambiente criado. Com a Polly, a brincadeira começa na mera organização de seus incontáveis acessórios, rapidamente, para já começar a troca de roupas. Também há tramas e relações, mas isto não é o cerne da brincadeira - trocar tantas roupas envolve muito tempo.  O cerne dessa brincadeira é combinar figurinos, embelezar-se, "montar-se" para... o quê, mesmo? Bom, isso não importa tanto. Então, vamos andar de helicóptero.

Vejo nisso um retrato da diferença entre as gerações. Prezava-se o fazer manual e o entorno imaginado, com todas as possibilidades oferecidas pela ausência - terreno da criação. A fantasia reinava sem limites. Hoje, na verdade, estou muito crescidinha para saber até onde vai a fantasia. Posso estar sendo romântica ou presunçosa, mas, se ela vai até algum ponto, é porque tem limites. Logo, ainda reina, mas sem domínio absoluto, dentro de uma circusncrição - comarca do poder de consumo, âmbito do ter e do estar o mais bonita possível com aquilo que se tem. Ser fica em segundo plano. 

Inobstante isso, minha filha me pede uma Polly com acessórios - e eu compro. Vejo no corredor do caixa umas bonequinhas denominadas "fofolete", parecidas com as antecessoras, mas sem o mesmo charme. Perfumadas e com cores fluorescentes, cabelo bem mais volumoso, sem touca e sem cachecol! - e não compro. 

Porque o mundo da minha filha é hoje. Aquele meu mundo foi ontem, No Meu Tempo.