sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

dli... tz-on


Dli.... tz-on.

Nada sobrou do que um dia foi a casa de Marina, nem a campainha. Ela está no apartamento e abre a porta para o síndico.

- Como tu tá, Marina?
- Vazia como era a minha geladeira. Mas leve.
-  Complicado.
- Simples mas difícil, eu diria.
- Lamento...
- Não precisa. Era para ser. 
- Se precisar de ajuda, conta conosco.
- Agradecida.

Do pouco que há nesse local enegrecido, Marina pega apenas um "ex-computador", seus cristais de estimação, uma frigideira (que já era carvão antes do incêndio), um frasco de perfume e papéis incinerados.

Vai morar na casa do Jorge, amigo que divide com ela até as roupas. Não fossem os peitos, teriam o mesmo corpo. É uma recém-nascida de trinta anos, recém saída do terceiro casamento e professora do jardim de infância. 

A história de Marina começa aqui - o antes era prólogo, prelúdio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tic... tac

Tic... tac. Tic-tac.

Marina abre os olhos e enxerga um teto branco, adornado em gesso. O silêncio é cortado apenas pelo barulho do relógio. As paredes são floridas. Papel de parede inglês. Penteadeira. Cama fofa. Lençóis perfumados. O cara com cara de Grande Lebowski. Na cama. Com ela.


Percebe que está de pijama. Um pijama masculino de botões. Xadrez. Azulzinho.

- Onde é que a gente tá? - diz Marina cutucando Cacimba.
- Quê?
- Que quarto é esse?
- Casa da minha tia... Avó.
- Tia? Avó?
- Prima irmã da minha vó...  materna. Tia-avó. Vem cá.
- Peraí, não tou entendendo. Como assim?
- Eu te trouxe comigo.
- Sério? Não lembro...
- Do que tu lembra?
- Do incêndio. E só.
- Pois então... Achei melhor te recolher, ou, melhor, te acolher. Tu tava catatônica... e louca. Ficamos de voltar lá no apartamento as 14 horas. 
- Ai não.
- Ai sim. 

Cacimba dorme subitamente. Marina observa a cara dele dormindo. Ele é mais jovem e menos feio do que lhe pareceu na noite passada. Ele dorme em completo silêncio, nem se ouve a respiração. Ele tem um cheiro bom. Ele está sem camisa. 

Marina levanta para ir ao banheiro. Na saída do quarto, dá de cara com a tia-avó, uma senhorinha cinematográfica - cabelinhos brancos presos num coque, kimono amarelo, batom.

- Oi querida - a senhorinha diz.
- Oi.
- Tudo bem?
- Mais ou menos. Pode ser.     

Marina entra no banheiro. As louças são cor-de-rosa. Toalhinhas com borda em crochê. Tapetinho macio. Tudo é muito bonitinho, exceto a sua cara refletida no espelho. Está um trapo. Lava o rosto com sabonete hiperperfumado. Respira fundo e volta para o quarto, sem olhar para a senhorinha.

- Cacimba, seguinte, cadê o Jorge?
- Quê?
- O jorge, cadê?
- Ficou com o guitarrista.
- Não acredito.
- Mas é.


Marina não consegue dormir. O tic-tac a incomoda. Lembra-a as 14 horas. Lembra-a o incêndio. Lembra-a que esqueceu de como foi parar naquele quarto estampado. Ela jura que não vai mais beber. Desfaz a jura e agradece a São Longuinho por encontrar-se ali, quando (e onde) o abraço de Cacimba sossega o seu pensamento. É agraciada pela sorte dos loucos, e emerge no estado de vaziez mental que vivenciara na noite fatídica.

O tic-tac faz curvas nos adornos de gesso do teto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

wha-wha uin

Wha-wha uin. Tóin.

Jorge a Marina chegam no bar. O bar está cheio. O som é realmente algo entre o rock progressivo e o jazz, "metalizado". Ninguém dança. Todos bebem em pé, vestidos de preto. Marina sente-se despercebida, e gosta de ser tragada pela massa negra. Pede uma bebida igual à dos comparsas, cerveja. Jorge opta por uma vodka com energético. Sentam à mesa colada no palco, em frente ao guitarrista.

- O som está muito alto, não dá pra conversar - Jorge reclama.
- Hã?
- O som. Tá alto demais.
- É.

Finda a primeira cerveja, Marina pega a segunda. O drink de Jorge não está nem na metade.

- O guitarrista tá te dando mole - Jorge diz à Marina, a plenos pulmões.
- Que nada! É contigo a coisa.
- Hã?
- Nada.

Finda a segunda cerveja, Marina pega a terceira. O drink de Jorge está abaixo da metade.

- Som estranho pacas - Jorge diz à Marina, baixinho. 
- Hã?
- Nada.

Um cara com cara de Grande Lebowski senta à mesa junto com a dupla. Ninguém o conhece, ninguém o convidou. Os três assistem ao show como velhos e bons companheiros. Seus corpos balançam no mesmo ritmo. As cabeças formam um corpo de baile. Sintonia impecável.

- Som estranho - Marina diz à Jorge.
- Hã?
- Nada.

Finda terceira cerveja, Marina pega a quarta. Jorge pega um segundo drink. 

- Vocês são daqui? - pegunta o cara com cara de Grande Lebowski.
- Como assim? - perguntam Jorge e Marina em coro.
- Vocês são daqui? De Porto Alegre?
- Eu sou do Centro. E ela é da Cidade Baixa mesmo - Jorge responde sozinho.
- Quê?
- Eu sou do Centro, e ela, da Cidade Baixa.
- Viram o incêndio?
- Hã?
- Deixa.

Jorge pensa que o cara com cara de Grande Lebowski é um mala. Marina pensa que ele é carente. Por isso, ela passa a lhe dar atenção.

- E tu? É da onde?
- Sou do Alegrete.
- Ah, massa.
- Por quê?  
- Sei lá... porque ser do interior é legal.
- Do interior
- Do Alegrete. Olha... se não é capital nem região metropolitana, é interior.
- Não acho.
- É sim. Dá um google.
- Quê?
- No google vai aparecer: Alegrete, interior do Rio Grande do Sul.
- Tu não entendeu. Não acho massa.
- Por que não?
- Ser daqui é melhor.
- Depende pra quê.
- Pra que não seria?
- Pra... dirigir.
- Eu não dirijo.
- Ah, sei. Nem eu.

O cara com cara de Grande Lebowski sai e volta com outra cerveja para Marina. 

- Pra que mais não seria? - ele continua.
- Tava pensando... Pra andar de bicicleta. 
- Não. Lá não tem ciclovia.
- Pra passear a pé, então.
- Não. Lá não tem parques. E as praças são sem graça.
- Como assim?
- Não têm recantos, como tem a Redenção. 
- Recantos... Que merda, hein.
- Pois é. Aqui é melhor em tudo.
- Impossível.
- Por que impossível?
- Porto Algre é um cu!
- Tu tá enrolando a língua.
- Cazpaz.
- Tá sim, guria.
- Hãn?
- Deixa.

Finda a quinta cerveja, Marina pega a sexta. Jorge "vê" o show de olhos fechados, bebendo de canudinho o que resta da sua segunda vodka com energético. O cara com cara de Grande Lebowski está praticamente abraçado naquela Marina, que agora já é só um corpo fácido vestido num macacão preto. 

- Vou me mudar pra esta cidade - o cara com cara de Grande Lebowski diz à Marina.
- Como?   
- Vou morar aqui. Vou aprender a dirigir aqui. Vou ter um filho pra passear nos parques. Vou ter um cachorro também. Pra levar nas praças.
- Nossa! 
- É.
- Tou foga, hein.
- Quê?
- Tu é foda, hein.
- Sou. E tu?
- Tou fora.
- Tu que pensa.
- Isso é... triste.
- Não acho. Acho isso feliz.
- Isso o quê?
- Isso tudo que vou fazer. Aqui.
- Tá. Mas digo esse som...
- Melancólico.
- Deprimente.
- Nostálgico.
- É... Voôu-me embora. 
- Fica. Dança um pouco. Sente o chão debaixo dos pés. 
- Boa. Pegar impulso!

Marina levanta com a longneck na mão. Rodopia e pára numa pose de pas de deux. Está com a Gira no corpo. Jorge pega a amiga pelo braço, e sussura em seu ouvido:

- Esse cara tá querendo te comer. É hora de ir.
- Não. Quero o fundo do poço, Jorrge
- Então vai. Mas pergunta o nome dele antes... pelo menos.

Marina senta no colo do cara com cara de Grande Lebowski. Tasca-lhe um beijo, depois outro e mais outro. Jorge entrega ao cosmos o destino da amiga e foca no palco. 

- Qual o teu nome? - Marina pergunta pro cara com cara de Grande Lebowski.
- Cacimba.
- Hã?
- Cacimba. 
- Esse é teu nome?
- É. 
- Credo!
- Creia.

Mais uma cerveja para Cacimba e dois drinks para Jorge, o trio sai do bar em direção à casa de Marina. São velhos e bons companheiros, sim e mesmo. Caminham numa coreografia cósmica de causar inveja àquele que vem logo atrás, sozinho e discreto. Eis que, vêem fumaça e uma muvuca de gente parada na calçada. 

- Que é isso? - Jorge pergunta à magricela que fuma gudang garam no meio da confusão. 
- Parece que um apartamento incendiou. Queimou tudo. Não sobrou nada. 
- É o teu prédio, Marina.  

Marina olha o entorno com cara de paisagem, abraçada em Cacimba. Cacimba não tem mais cara de Grande Lebowski, tem cara de anjo, pai, policial, xerife, psiquiatra, professor, marido.

- Foi no apartamento dela? - pergunta aquele acima descrito.
- Foi - responde Jorge com cara de abajur, antes de inflamar e ser consolado pelo guitarrista, o invejoso que vinha logo atrás. Dele. 

Cacimba ajeita as coisas - depõe, apresenta documentos, assina, envolve-se. Marina continua com cara de paisagem, mas agora esboça um sorriso indagador. Talvez fascinada de ver a origem das sombras que, dentro do poço, lhe horrorizavam. Talvez porque estivesse zerada. Ou bêbada.
        

sábado, 15 de dezembro de 2012

dlin dlon

Dlin dlon. Crac.

- O...
- Oi - (interruptivo).
- Oi.

Silêncio.

- E aí? Não vai me convidar pra entrar?
- Vou.

Silêncio.

- Então convida.
- Entra.

Jorge entra. A casa está uma zona. A luz é fraca. Tem um abajur aceso com um lenço vermelho por cima. Leve cheiro de queimado. 

- Eu tava passando por aqui, pela rua, e resolvi te visitar.
- Sei.
- Foi isso mesmo o que aconteceu.
- Okay. Então?
- Então sei lá.
- Nem eu.
- Bom, acho que já vou indo então.
- Como assim? Nem sentaste, nem tomaste um café ou uma cerveja, nem nada.
- Pois é, mas...
- Agora fica.
- Tudo bem.
- Senta. 

Jorge empurra a montanha de roupas e panos e tralhas para a outra ponta do sofá. E senta.

- Quis ver como tu tá, na real.
- Tou bem. 
- Não parece.
- Por quê?
- Porque nunca vi tua casa desse jeito.
- Que jeito?
- Essa bagunça. Daqui a pouco esse abajur vai incendiar.
- Tudo bem, eu não ligo.
- Tá maluca? 
- Não. Nunca estive tão lúcida. 
- Marina, na boa, não pira. Onde já se viu uma mulher forte como tu se entregar assim por causa do fim de um casamento?

Silêncio.

- Um casamento mesmo. É o teu terceiro, lembra?
- Não lembro não. Pra mim é o único.     
- Já ouvi isso antes, gata.
- Bom, se tu veio aqui pra encher meu saco, é melhor ir embora.
- Tou te dando a real. Sou teu amigo.
- Real dada. Pode ir.
- Agora não vou.
- Como assim "não vou"?
- Vou ficar aqui até te ver rindo.
- Então devia ter trazido mala.

Silêncio.

- Tem cerveja?
- Tem. 
- Posso pegar?
- Pega. E traz uma pra mim. 
- Aheh, gostei!

Jorge volta com as cervejas. Dá uma lata pra Marina e senta no sofá. Marina está em pé, no meio sala, com cara de paisagem.

- Seguinte, Marina, nós vamos sair.
- Não inventa.
- Vamos sim. Tem banda na Zinco.
- Quem é que vai tocar?
- Uns tal de Suspiro.
- Credo! Isso deve ser pagode. Ou new age.
- Não. Parece que os caras fazem um rock progressivo.
- Que deprê!
- Tá com medinho?
- Tou. Argh!  
- Bah, tu tá uma velha rabujenta.
- Obrigada.
- Me falaram bem da banda. 
- Quem falou?

Silêncio.

- Quem falou?
- Não lembro.
- Lembra sim. Quem?
- Tá... Foi o Clóvis.
- Puta que pariu.
- Deixa de ser chata, vamos lá!
- Mas o idiota vai?
- Não. Se ele fosse eu não te convidaria.
- Espertinho... Não sei o que te dizer.
- Diz que vai.
- Tá bom. Vou. Vou me vestir.
- Põe aquele vestido vermelho.
- Fora de cogitação. Tou triste e gorda. Sem chance.

 Marina sai. Jorge fica lendo revistas. Marina volta, vestida num macacão preto.

- Nossa! 
- Vou à caráter. Quero ir ao fundo do poço hoje, pra pegar impulso.
- Boa! Tu precisas recomeçar tua vida.
- Do zero, de preferência! - Marina ria pela primeira vez.

Jorge e Marina saem. O abajur incendeia. E tudo mais.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

forma [ouvindo música]


forma e flor
num vaso de cor
quase azul aberto
meio esverdeado, talvez ou decerto
um ciano acima dos canais de veneza

curva e perfume
perto do cinzeiro cheio
longe do buda de cara tranquila
mais especificamente em cima da mesa

pôr [ouvindo Carlota]

senti o sol. ouvi o mar. vi o perfume do sal. 

falei sobre o haver. degustei alegrias e dores. pesei.

tudo para abraçar o crepúsculo, ninar o luco-fusco, desembalar-me.




fui rainha do dia que dormia.  

era eu que amanhecia 

naquele pôr.

acontece [ouvindo Cartola]

porque tudo no mundo acontece. e o resto é metafísica.  
 

este cachorro

Este cachorro está na maturidade. Seu vocabulário nunca esteve tão rico. A lista de palavras conhecidas é extensa. Entre o aqui e o têm vários lugares. 

E as paisagens fisionômicas ele conhece todas.


teto

o desenho do mofo parece aquarela. a rachadura, nanquim. 
e o prego, uma estrela.

tento

tento inventar uma mentira interessante para escrever aqui. mas nada fantasioso me ocorre nesta manhã cinzenta. é a força da realidade que adentrou minha casa, junto com a água da chuva que entra pelas frestas. quando tem sol dá pra ver o desenho dos raios e imaginar estradas. mas hoje não. hoje só tem o branco flúor, úmido e choroso, da tarde que ainda nem chegou. branco ommo desperdiçado.


nada resta além de falar do tempo. quando digo "tempo" me refiro à meteorologia. porque os ponteiros estão parados. porque não há sombra do sábado. porque no hiper só se vê espaço. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

o abismo [ouvindo Cartola]

o abismo que cavaste com teus pés está aí porque olhaste demais para baixo. teu cérebro esgotou a paisagem resteira. para ele, o chão era limite do qual quis ir além: deu a ordem que teus pés acataram. essa duplinha é obediente e o cérebro só ordena o que conhece. então antes de olhar, veja bem. 



a solução está nos olhos.

cachorros

cachorros são mais espertos que cariocas. eles mijam em lugares insólitos para ninguém desconfiar. e podem andar na calçada sem chinelos.

cachorros são mais espertos que gaúchos. eles catam correntes de ar numa casa de oito cômodos. e não reclamam do calor.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

arte - terreno movediço

arte é um terreno movediço, difícil escrever sobre e ficar em pé ao mesmo tempo. há que se deitar um pouquinho, acocar, afrouxar os joelhos, pular. Também por isso é perigoso.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

tenho pensamentos maléficos

tenho pensamentos maléficos 


(tabaco para mim
faz bem, 
televisão pulveriza mágoas) 





toda porra de mês.


hipereu

no infinito destes dois minutos quero deixar bem claro que vim para ficar. algo me disse que deveria ser assim. incluí na mala até as agulhas. deixei somente rastros. plantei-me aqui como uma erva daninha. temporais apenas me alimentam. sou propagada por tremores de terra. granizos servem para me refrescar. este um metro e meio agora é meu. estou no centro do incomensurável. para sempre. então nada é páreo para mim.


a gente é o que a gente pensa. o que se pretende é mais que meta. o que se faz nunca acaba. uma linha nunca é reta. do fim o início se fomenta.

certa feita fui feliz

certa feita fui feliz. 

acordei tão tarde que já era outro dia. não trabalhei nem pensei. senti que o tudo, que não era nada, me bastava. flutuei sobre as casas. dava para ver os telhados e tudo mais. samambaias nasciam entre as telhas de barro. a vizinha estendia roupas na moldura da tarde nublada. cachorros faziam buracos na calçada. os carros andavam em círculos brincando de roda. dava para tocar a copa das árvores. o branco, em vez de cegar, aumentava. eu estava no céu: tudo era vão e eu só olhava.   

em resposta às perguntas que quero calar


Eu sou aquela do nariz de palhaço. A que toca flauta doce aos sábados. A que escreve antes de acordar completamente. A que não se contenta com dois cafés. A que tem amigos imaginários.

Eu sou aquela que gostaria de ser formiga pelo menos uma vez na vida. A que tem antenas. A que caminha olhando para baixo. A que cultiva inços. A pequena.






aquele prato cheio de farelos

a próxima vez que eu levantar da cama e me deparar com aquele prato cheio de farelos em cima da mesa não responderei por meus atos. enquanto era só a xícara melada, okay. mas farelos! tu sabes a humilhação que me causa pegar aquele pratinho, dirirgir-me ao lixo e raspá-lo com a faca, para expulsar teus detritos e só então depositá-lo na pia (para eu mesma lavar). não há esposa que se transforme em puta depois disso. ela não se vestirá para matar. ela não investirá em lingeries. ela não chupará teu pau. porque junto com os farelos vai-se o fogo. farelos são brasas, mora? 

a próxima vez que eu levantar da cama e me deparar com aquele prato cheio de farelos em cima da mesa farei uma fogueira de pão - mas não sem antes arranjar a véspera: me depilarei com tua gilete, limparei o excesso de maquiagem na tua toalha e furtarei o melhor vinho da tua adega.


a vingança pode vir torrada.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

o jeito que ele usa o facebook

Gosto do jeito que ele usa o facebook: variado. Quando faz um bom trabalho, divulga. Quando escreve um bom texto, publica. Quando faz uma boa foto, mostra. Quando descobre uma novidade, compartilha. E quando anda variando, confessa. 

Podem acusá-lo de tudo, menos de autocentrado. Sua generosidade vem disfarçada de ego. Simples assim. E quem não vê não merece. A ingratidão é um puta defeito.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

família de bichos

Uma família de bichos reside no forro desta casa. Eles vivem aqui desde o verão passado. São cinco ou seis, pelos meus cálculos. Se bem que, não sei - podem ser mais. Nos dias frios eles ficam quietos, não se ouve arrasto ou guincho, creio que durmam aninhados. Nos dias quentes, eles perambulam pelo espaço. Brincam de roda na sala, trepam no quarto, tomam banho de língua no banheiro. Onde defecam ou o quê são não sei. O jardineiro subiu no telhado para desvendar o mistério. Não encontrou sequer uma fresta entre telhas e tábuas. Disse que devem ser insetos. Eu sei que é impossível, pois isetos não tomam banho de língua. O cachorro, coitado, não pode mais nem ouvir a palavra "bicho". Me olha com cara de tédio, como se me mandasse à merda, quase desaprendendo a palavra. Hoje, para ele, a palavra "bicho" tem mais a ver com deboche do que com a ordem de "pega". As paredes da casa estão repletas de marcas de patas, do tempo em que ele tinha esperança... Todos me perguntam como posso viver assim, em condomínio com ORNIs - objetos rastejadores não identificados. Dizem que devem ser banidos. Eu sei que sim, mas não. Gosto de barulho, desperta minha imaginação. Sem eles eu estaria trabalhando, eu estaria estudando, eu estaria dormindo, eu estaria cozinhando, eu estaria fazendo qualquer coisa menos escrevendo este texto. 

Sou muito à favor do maximizar o ínfimo. É o que nos mantém espertos.    



  

amor de mãe

há um amor que eu ainda não conheci, o de mãe. tive meros lampejos, em sonhos. meu filho era bebê, e meu. nós num colorido lomo, em movimentos suaves, com gosto doce e cheiro frutado... isso bastava para que borboletas voassem na minha barriga e para que tudo mais. eu não precisava de nada. plenitude rara e repentina mas, porque plenitude e generosa, não havia frustração quando eu acordava. só e descabelada, eu me olhava no espelho da vida, fiel ao que ela me guarda, com uma sensação imperiosa de suficiência. até que, sabotando esse estado de êxtase, a fim de tomar as rédeas rumo à cozinha e reabastecer o pote d'água dos cachorros, acionava a minha razão: acreditava entender o que Cazuza quis dizer com "só as mães são felizes" - ele, que também não era mãe.         

confidente irmã

Ter uma confidente irmã poupa-me esforços. Dispensa prefácios, preâmbulos, notas de rodapé. Explicações, contextualizações e ressalvas também. Basta o olhar, um suspiro ou um emotion - e tudo é imediatamente capturado. Até o que me escapa. 




[para Lara]

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O Natal

O Natal frustra qualquer um, cristão ou não. Todo mundo quer estar e parecer mais feliz do que realmente está e parece. O grupo quer ser e parecer mais unido do que realmente está e parece. As comidas querem ser e parecer mais gostosas do que realmente são ou parecem. A decoração quer ser e parecer mais bacana do que... , bah, realmente. 

O Natal é fake! E quem disser que não, não sabe o que é um verdadeiro Natal.

"tu escreves muito bem

quando brincas com o português". é isso que eu diria a ele, sem me preocupar com o prefácio. ressalvas não esclarecem coisa alguma, meros floreios. ou recheios de linguiça. 

ressalvas não acertam porque não assertam.

por isso, absteria-me de incluir na oração a expressão "minha singela opinão", que, nada singela, toma o espaço de um avião no azul finito do campo de visão. 

.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

chapéu

- Por quê?
- Quando eu souber, eu junto. E tiro o chapéu.

rol

1. o balde que vc chutou nunca mais será
2. o mesmo
3. taldo balde que vc chutou.  

ele quebra, ele lasca, ele racha, ele entorta, ele é outro.


então,  

Morte [II]

A mais ambígua lição da morte: "pense e não pense sobre o propósito".


Regina e o ovo [VI]


"Eu trouxe o livro. Terminei. Mas, devido ao encontro de ontem, excluí todas as palavras ovo. Susbtituí por amor. Achei mais apropriado. E verdadeiro", disse Paulo, abraçando Regina com o sorriso.  

Era um caderno grosso, tão surrado quanto o bloco de Regina. A última página estava marcada com um blíster vazio. Aceitando o recado, Regina foi direto alí, e leu em silêncio:



Estou preso dentro do amor.
Sua casca fina é o que me abriga. 
Não desejo sair daqui
Se não for para andar na rua
Contigo.

Eu dividiria um guarda-chuva Contigo,
Eu jogaria longe o guarda-chuva para te abraçar
Na chuva.


Espio pelas rachadaruas do amor
o que eu chamo de resto.
Me acostumo com as frestas,
confundo o que está fora ou dentro.
Por pouco nada reconheço.


Mas o abrigo da casca fina,
Abraço quase inexistente, que pena!
Me faz mais que ver melhor, enxergo 
Outros diversos mundos,  
Tantos quantos são os habitantes deste planeta, 
Ondezinhos, codornas!, não me encaixo
E não choro.


Porque estou separado do resto
Que não é o amor.
Nem passarinho, nem pinto,
nem dinnossauro, nem louco,
Eu estou são e certo.

Toda a lavrada loucura
cabe dentro desse amor.
E toda sensatez também. 
Tudo. Desde que seja nosso.
Até este caderno.

Nunca se viu amor assim como o meu, 
Gigante. A ponto de estar além de si,
Descobri faz pouco,
Quase agora.

Se cheguei até aqui, 
Caio, foi pelo amor.
Meu olho já não arde,
E nada fede.




Com o chão sobre a cabeça, Regina largou o livro de Paulo e escreveu em seu bloco surrado: "Paulo nasceu". Pela primeira vez, uma frase conclusiva estampava as folhas abauladas do seu bloco de anotações.

- Tu és poeta. E eu sou a cobaia, Sr. Paulo Hawking - disse ela, antes de chorar.


Regina e o ovo [V]

"A casca se quebrou. Vi o sol em toda a sua potência. Ele secou as minhas lágrimas. Meu olho parou de arder e agora sim, vejo melhor", disse Paulo, tirando os óculos fundo-de-garrafa.  Regina percebeu o quanto os olhos do hominis-ovum aumentavam sem os óculos. Sentiu um arrepio injustificado, naúsea. Mas seguiu adiante.

- Que bom, Paulo. E o quê tu vês? - disse.
- Vejo um mundo gigante coberto por pequenos ovos. Codornas. Acho que são codornas.
- Quantas? 
- Não sei, elas estão dentro dos ovos. 
- O que elas fazem?
- Nada, esperam. 
- Esperam o quê?
- A hora de sair. 
- Por quê?
- Porque estão quase prontas, ora.
- Elas vão nascer, é isso?
- Não. Elas já nasceram. 
- Então?
- Então elas só vão sair. É isso.
- E para quê?
- Para mudar de lugar. E para estar com o resto.
- Para ser o resto - concluiu Regina, inoportunamente.
- Não. Elas são codornas. O resto é o resto.

Fez -se o costumeiro silêncio e Regina pensou na inutilidade daquele trabalho com Paulo, nas voltas e mais voltas que vinham dando há 4 anos, no painel de cartões postais que representavam suas anotações inconclusivas no bloco surrado, no tempo. Eis que, sem racionalizar, foi à forra:

- Meu querido, eu sei que tu não és pinto nem passarinho. 
- Nem dinossauro - interrompeu Paulo.
- Okay. Então, se és homem, seja objetivo.
- Não posso.
- Por que não, Paulo?
- Eu sou poeta.
- Muito bem, poeta. Então me diga: o que o Sr. Poeta fez para estar aqui?

Mais uma pausa silenciosa, até Paulo abrir o jogo, eclodir:

- Tentei me matar. Admito. Com uma dieta exclusivamente à base de ovos. Meu colestreol subiu às alturas, tive alucinações, adoeci. Ridículo. Admito. Mas, quer saber? Isso não tem a menor relevância. A única coisa que realmente importa, e da qual me arrependo, é que dei a Caio a mesma dieta. Isso não foi justo.

Paulo nunca pareceu tão lúcido à Regina, e ela subitamente voltou a acreditar naquele trabalho árduo que finalmente apresentava frutos.  

- Sim, teu papagaio.  
- Ele tinha 40 anos e, pelos meus cálculos, viveria mais uns 30 ou 40. Se eu batesse as botas, ele fatalmente ficaria sem ninguém. E morreia à migua, o que é pior. Ninguém quer um bicho daqueles, especialmente Caio, que era tagarela e inteligente. Falava em rimas.    
- Nossa! - exclamou Regina, abismada.
- Eu tive a sensatez de evitar o abandono do bicho. Mas de forma cruel. Fiz dele um canibal.
- Calma, não é bem assim. Ele comia ovos.
- Fetos.

Paulo tirou os óculos de lentes fundo-de-garrafa e secou o suor das têmporas. Regina o observava, oscilando entre a piedade e a raiva, a compaixão e o desprezo.

- O que me consola é que graças essa dieta vim parar aqui - disse Paulo, buscando forças.
- Gostas daqui?
- Sim. Aqui eu vivo meus textos. Aqui eles aparecem como são.
- Isto é um hospício, Paulo - disse Regina, como se lamentasse a um colega.
- Isto é um laboratório, Dra. Regina Hilst.

A exatidão da afirmação de Paulo soou como uma paulada. Regina apagou tudo o que vinha pensando acerca daquele pobre homem sentando à sua frente. Zerou suas conclusões... mas recomeçou como uma avalanche. Perdeu o rebolado, desceu do salto.

- Louco!
- Pára! Sou um homem são, mais são do que quando cheguei aqui. Mas eu finjo que não. Nossas conversas aparecem na minha poesia e, por isso, ela não têm rima! Sempre almejei essa forma, espontânea e sóbria, pura e simples, natural. E só vim conseguir isso aqui, através do nosso trabalho - interrompeu Paulo. 
- Doido! Doente! Falso! Traidor! Assassino de papagaios! Poeta de merda! 
- Escolha uma das categorias, me classifique, me encaixe. Eu mereço um diagnóstico! Saio todos os dias dessa poltrona amarelo-gema com a cabeça fervendo, chego no meu dormitório e escrevo. Sobre o ovo e o resto. Sobre a nossa loucura, que caberia dentro de um ovo gigante, sobre a casca que nos separa do resto, sobre a fusão dos nossos gametas, sobre a fecundação. E o embrião - disse Paulo com um sorriso nos olhos.  
-  Estás dizendo que a cobaia sou eu?
- Sim. Te examinei o tempo todo. Te usei.
- Não pode ser... - disse Regina num riso destrambelhado.
- É o que fazem os poetas com suas musas. E o livro está quase pronto.
- Quanta idiotice deve ter nesse livro! Eu quero ler essa joça! Tu me deves isso!
- Tudo bem.
- Amanhã - ordenou Regina.
- Amanhã - concordou Paulo.

Regina guardou o bloco abaulado que quase já não cabia no vão encardido da poltrona amarelo-gema e se levantou. Paulo pôs-se em pé, diante da musa ruiva, e esboçou um abraço. Ela deu um passo para trás, negando, sem se arrepeder mais tarde, o contato físico com aquele louco que se dizia poeta. E Paulo saiu da sala, para terminar de escrever o livro.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Regina e o ovo [IV]

"Eu não esqueci que não sou um pinto. Depois que comi o ovo gigante da minha loucura, fiquei grande demais para permanecer nessa casca. Ela me aperta. Quero andar na rua. Contigo", disse Paulo, pela primeira vez referindo-se ao outro. "Contigo", ele disse. 

Regina sentiu o coração disparar. Sua tez de boneca de porcelana brilhou. Seus cabelos ruivos incendiaram. E, dessa vez, quem fugiu do assunto foi ela:

- Só comigo?
- Sim.
- Por quê?
- Porque podemos comer o omelete juntos.
- Como? - insistiu, com olhar de cientista maluca.
- Dizem que ovo podre faz muito mal. E eu nunca quis morrer sozinho.
- Por isso fizeste o que fizeste?


Paulo curvou-se feito um tatu-bola e perdeu-se em pensamentos. Regina pulava de foco em foco, e não achava palavras para expressar no bloco de anotações aquela pausa abrupta, o clímax daquele estampido mudo. 

- Paulo, para enxergares a rua, primeiro terás de reconhecer tudo o que tem dentro do ovo gigante - foi o que Regina conseguiu falar. 
- Estou tão acostumado com as rachaduras que já não sei o que está fora ou dentro.
- Seja mais específico. 
- Acostumei com tudo o que vejo e já não reconheço coisa nenhuma. É isso.
- Paulo, tu precisas ver melhor.
- Como?
- Até se deparar com o germe desse mostro gigante que tu chamas de ovo. Descobrir o que é, afinal, esse ovo.
- Cansei. Estou suando muito. O suor entra no olho. Arde.
- E a vontade de andar na rua?
- Desandou. E está fedendo. 

Dito isso, Paulo calou-se. Regina também. Ele balançava a perna cruzada, espantando moscas invisíveis. Regina anotou no bloco surrado: "Parece que Paulo não quer nascer". 

O passeio havia sido negado pela direção. Paulo continuaria em espera, até segunda ordem.  Regina não insistiu, nem lamentou. 

Um homem só nasce quando está pronto, e Paulo não estava. Ainda.

Regina e o ovo [III]

"Ovos quebrados não têm conserto, ainda que façam um bom omelete", Paulo disse antes de se calar por exatos 16 minutos. Regina segurou o silêncio como um halterofilista. 
 
Ela sabia que Paulo era mais afeito à visão que ao paladar, que transpirava em excesso, que fugia de respostas diretas, que evitava contato físico, que detestava calor e guarda-chuvas, que se sentia preso, que temia perder o abrigo daquilo que justamente o prendia e que julgava poder colocar toda a sua loucura dentro de um ovo gigante. Mas Regina não sabia ao certo o que Paulo estava dizendo com aquela frase surrealista ou mesmo dadaísta, metafórica, poética, ridícula, neurótica ou mesmo esquizofrênica. E dessa vez não tentou buscar a resposta. Permaneceu calada, observando Paulo sem anotar sequer uma palavra.  

O tempo passava lento para Regina. Para Paulo o tempo não passava. 

Ela fez uma lista mental do supermercado. Ele sentia sede, mas não transpirava.  Era inverno novamente.


Passados os 16 minutos, Paulo declarou:

- Acho que precisamos sair desta sala. Aqui não é igual a lá fora. Precisamos andar na rua.
- Para quê? - provocou Regina.
- Para provar o omelete.
- Isso não é permitido, vai contra o regulamento.
- Mas estou tomando coragem. Estou disposto a sair da casca.
- Tu não és um pinto - disse Regina, inquieta.  
- Hã?

Falsamente plácida, Regina deu o tempo necessário para que Paulo pensasse sobre a própria proposta e retomasse a conversa. Paulo estava longe, parecia atravessar as fronteiras demarcadas pelas margens dos cartões postais reunidos naqueles 4 anos. Enquanto isso, passavam-se os 22 minutos mais longos da história profissional de Regina.

- O confinamento não me transborda mais - disse Paulo, absorto.
-  Mas e o medo de abandonar o abrigo?
- Eu não sou um pinto. Não sou mais.
- E o ovo gigante?
- Eu comi. Digeri a loucura. Estou são. E desistindo.
- Desistindo do quê?
- De esperar.
- Esperar o quê?
- Ser aumentado, correspondido.
- E achas que será bom lá fora? 
- A vida inteira espiei pelas rachaduras.
- Okay, vou pedir autorização para a direção. Quem sabe amanhã.

Findo o encontro, Paulo estendeu a mão para Regina. E ela retribuiu o gesto sem hesitar. 


Agora Regina sabia mais. Sabia que Paulo tinha as mãos frias e que se julgava são.

Regina e o ovo [II]

"Eu me sinto envolto numa casca que me prende e me separa do resto. Se eu correr, temo quebrar a casca e nunca mais ter onde me abrigar",  disse Paulo com os óculos embaçados. Nem os 18 graus do ar condicionado aliviavam a transpiração daquele homem com pinta de oriental. Regina estava à sua frente, com a tez intacta, parecendo uma boneca de porcelana. Só o bloco surrado em que anotava as falas de Paulo revelava que ela era real, que vivia a passagem do tempo como qualquer mortal. 

Nesse dia tórrido, ambos estavam num oásis e a questão da casca veio à tona.

- Por isso tu transpiras assim? - perguntou Regina.
- Sempre preferi o inverno. Detesto calor - respondeu Paulo, suando.


Nenhuma pergunta era respondida de imediato por Paulo. Regina sabia que teria de se esforçar para obter qualquer informação que desejasse. 

- A casca te sufoca? - insistiu.
- Ela me prende, me impede de chegar até a água. Sinto sede, mas o desânimo é maior. Estou transpirando demais, não é?
- Não. Para quem vive envolto numa casca, até que estás bem seco.
- Hã? 

Sem saber o que dizer Regina fixou os olhos no pescoço de Paulo, que pingava feito goteira no temporal. Lembrou que não havia fechado o registro da máquina de lavar roupas. Depois lembrou da conta de luz. E da lâmpada queimada no banheiro.

- A questão é que a casca me separa dos outros, do mundo, do mundo dos outros - disse Paulo, tentando retomar o assunto. 
- Quantos mundos existem, Paulo?
- Tantos quantos forem os habitantes deste planeta, penso eu. 
- E cada um vive numa casca?
- Só os covardes... - falou baixo, com um sorriso estranho - e os tímidos - completou.
- E em qual tu te encaixas?
- Eu não me ancaixo. Estou separado do resto. Meu isolamento me torna incomparável. 
- Entendo - disse Regina sem entender. 

Às vezes Regina mentia - para confortar Paulo, para mudar de assunto ou trocar de paisagem, e para dar tempo de anotar. Depois, ao rever as anotações, arrependia-se.

- Está calor... é bom ficar na chuva, mas eu não gosto - continuou Paulo. 
- Preferes ficar abrigado?Ainda que apartado do "resto"?
- Sim. Mas o incrível é que destesto guarda-chuvas.
- E abraçar? - provocou Regina.
- Neste aspecto, gosto de guarda-chuvas. Ocupam os braços.
- Sei. 

Dessa vez, Regina entendeu. Não estava mentindo.

Paulo levantou da poltrona forrada de um amarelo mais vivo, secou o suor da testa com as costas da mão esquerda e não estendeu a direita para Regina. Mas disse "até amanhã". 

Regina e o ovo [I]

"Toda a minha loucura cabe dentro do ovo, ovo gigante, o mais gigante que possa ser", disse ele, com cara de intelectual. Usava óculos de lentes e aros grossos que acentuavam sua postura nipônica. Vestia uma camisa xadrez e um allstar canoa, gasto. Tudo azul. A perna esquerda estava cruzada sobre a direita. Sua expressão esboçava a paz que ainda estava por vir. Seu futuro seria diferente do que havia planejado, mas infinitamente melhor. Seu nome é Paulo. E a mulher ruiva sentada à sua frente era Regina. 


Num bloco surrado, Regina anotava frases esparsas, especialmente coisas que Paulo falava sem dar a devida importância. O bloco nem fechava mais, de tão usado. Páginas abauladas continham o material necessário para o relatório conclusivo e o consequente processo de reparação. O bloco surrado, de certa forma, era ovo. Para Regina, era.

No final dos encontros, Paulo nunca abraçava Regina. Ela desejava ao menos um aperto de mão. Mas não. Paulo evitava o contato físico, por mais ínfimo que fosse. Regina guardava esse desejo com culpa, mas com uma inconsciência diretamente proporcional. Esse fato, portanto, não entrava no ovo que Regina queria completo. E gigante.  


No final do encontro seguinte, em que Paulo estava mais assertivo e Regina fez muitas anotações, o homem meio japa estendeu a mão na direção da mulher ruiva. Como num reflexo invertido, ela lançou a mão pra trás, e, quando percebeu, disfarçou, afrouxando o cinto que lhe marcava a cintura. Paulo saiu sem dizer nada. Regina sentou na poltrona amarela e teve vontade de chorar. Mas não chorou. 

Faz quarto anos que Regina não chora. Faz quatro anos que conhece Paulo. Faz quatro anos que o tal ovo só aumenta. 

Até agora nenhum diagnóstico, nenhum veredicto. Só aquela espécie de inquérito que não chegava a lugar algum. Só o caminho de 1.460 dias traduzidos em paisagens inóspitas, nas quais Regina não tinha vontade de ficar. Quando encontrava um oásis, ansiava o deserto; quando encontrava o deserto, buscava água - cobiçava a chuva ou o mar.  E assim construía-se o relatório nada conclusivo, que mais parecia um painel de cartões postais de uma vida inteira com férias anuais. 

A demora era o alimento do ovo, que, por sua vez, nutria aquela investigadora ruiva que desaprendeu a chorar. E as coisas ditas por Paulo, no ver da cientista ruiva, eram o próprio ovo ainda não suficientemente gigante. 

Até onde se estenderiam esses encontros? Até quando?

Regina não tinha pressa e Paulo não tinha foco - conjuntura perfeita para o agigantamento do ovo. 

domingo, 4 de novembro de 2012

Morte [I]

A maior lição da morte: "a vida é hoje".

A morte não muda só os mortos. A morte não só mata. 





Obs. Não estou sendo romântica. Estou sendo prática.




sexta-feira, 2 de novembro de 2012

tempo represado

sorria, você está sendo eternizado. 
não adianta emagrecer ou pintar o cabelo. não adianta mudar, nem morrer.

ironia

Se eu fosse uma cafeteira, teria capacidade para 36 cafézinhos.

E se eu fosse um pendrive, seria de 1 GB.  


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Disse

Disse que não lavaria mais as minhas calças de abrigo. Disse que da próxima vez que encontrasse na tulha aquele trapo puído, desbotado, fétido, encardido, o jogaria no lixo. E eu achei isso um ato de terror.

Disse para eu não comer mais margarina. Disse para excluir da dieta aquela gordura hidrogenada interesterificada, corada e aromatizada artificialmante pelos nocivos Cs e Ps, composta de ácidos sulfúrico, benzóico e butil hidroxitolueno que em nada ficavam atrás da soda cáustica. E eu achei isso explosivo.

Disse que a ordem dos cds estava trocada. Disse que embora eu não entendesse qual, a sua arrumação tinha um critério - subjetivo, mas tinha -, que havia passado a juventude inteira investindo naqueles tesouros - tanto que não virou  alcoólatra e ainda conseguiu decorar o lugar de cada um na fila - e que portanto devia ser respeitada (a ordem ou ela?, não entendi qual). E eu achei isso confuso.

Disse, com cara de mais boazinha, que cuidaria de mim e que eu cuidaria dela. E não disse mais nada. Eu acho que isso é amor.  



p.s.

esgotei minhas forças na redação de tanta coisa rija. agora, blop-blop, o blog e o suspense da areia movediça... teclinhas queridinhas, meus dedos têm imãs e vocês são feitas de ferro. essa xícara é feita de ferro. as paredes são feitas de ferro. e eu sou uma lagartixa!


mole mole pum!

#prontofalei.


 Meu bem,

Venho por meio deste singelo bilhetinho (que nem é azul) dizer que está tudo acabado entre nós. A culpa não é tua, de forma alguma. A culpa é minha. Não deixei de te amar, bem capaz. Te amo cada dia mais. Queria poder dizer que cago e ando pra ti. Mas estaria mentindo. Contigo fico constipada e tudo pára. É isso. #prontofalei.

de pronto escrevo e publico

depois leio.


deixo por alguns dias o texto quarando. 
abondono-o à sua própria sorte, pra que ele se vire sozinho com a luz que tem. sou mãe desapegada, escrevedora sem alvo, leitora sem pressa.

escrevo no mormaço, quando o céu está branco de cegar. só leio quando chove.



Ontem pari um traço que hoje a chuva faz palavra.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Nosso amor

Nosso amor venceu a distância, o desespero e o tédio

Nosso amor venceu o desencanto, o desapego e a crença.

Nosso amor venceu o medo, a paixão e o desprezo.



Nosso amor venceu, igualzinho às estórias que eu leio...
 


Nosso amor desconhece a indiferença. [rá!]

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

homencida

Ele escreve para não sofrer calado - um homem mudo é um homem morto. 

E depois espalha pela rede palavras ásperas das quais todos reclamam - para matar.

superemail

Escrevi um superemail para aquela mulher. Aquela mulher cujo marido saiu de casa deixando apenas um bilhete, comunicando oficialmente a separação. 

Escrevi que entendia sua frustração. Frustração convertida na dor que me comovia. 





"A culpa não foi minha", escrevi também.

sábado, 27 de outubro de 2012

emburrada

se eu não fizer o que você espera, você se afastará de mim. eu sei. não adianta negar. você me quer inteira ou mais nada. o caminho do meio é território inóspito em sua alma. não vejo pegadas, só o vazio da poeira assentada. 

você me quer do seu jeito, mesmo emburrada.

filha,



você tem que enxergar o outro antes de falar. você tem que prender o seu olhar. você tem que fisgar o seu ânimo. você tem que alcançar o seu segredo. vocêm tem que acolher o que o ronda. e capturar o que o escapa.

você tem que ofertar mais que palavras.   

perceber.

idéia conviva

a idéia não fica muito tempo na minha cabeça. isso porque ela não é minha, ela é do mundo. ela apenas me visita. é preciso aproveitar o momento. é preciso tratar bem a visita, a hóspede, a conviva. 

a idéia é uma conviva que sempre ajuda a preparar o banquete.

para quem se achega dando, eu faço tudo o que posso. 

bem-vinda!

é os pingo da chuva

me molhar. foi isso que pensei quando começou. não estava calor (nem frio). mas o brilho das coisas na rua me atraiu. desejei me esfregar naquela cintilação. eu estava empoeirada feito uma estante de livros lidos. e sabia que aquela luz molhava. 

LA doR

quando veio a dor de dente veio também a dor no coração. 
não necessariamente nessa ordem. ela nunca sabe o que vem primeiro. 
ordem não é matéria de sua alçada. 

seu dia nasceu mais cinza. restos de lixo povoavam sua varanda. o apito do trem não parecia tão longe. o sinal da net estava fora do ar. havia poças de mijo estacionadas nos cantos da casa. os cachorros estavam tímidos.

o lado direito da face ardia. o coração batia tenso. parecia que estava rachada por dentro.

a casa é o lar do corpo que é o lar da alma. 

na casa habitam luz, lixo, som, televisão, mijo, cachorros. no corpo habitam dente e coração. 


da rachadura, hospedada na alma que não é lar de nada, escorre dor. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

in_o_ & aqui_o_ ◄ clique pra voltar: minha vida na caixa de fósforos

in_o_ & aqui_o_ ◄ clique pra voltar: minha vida na caixa de fósforos: eu sou uma formiga. vivo aqui desde que me perdi da trilha. foi por culpa de um garotinho travesso. ele tinha olhos grandes e mãos enormes. ...

habitar

habitar é um processo. logo que cheguei aqui, nada era meu. os dias passavam estranhos a tudo o que eu conhecia. o chão tremia quando eu caminhava. as paredes rangiam. o vento soprava sacudindo os vidros. os vidros opacos impediam a entrada da luz. a rua ficava apartada e a casa era deserta de mim. com o tempo aprendi o lugar das coisas, as manias das coisas, o som que elas produzem e porquê. pedaços de mim foram povoando a sala, o quarto, a cozinha e o banheiro. fui me instalando em partes. e a rua entrou pelas janelas.