quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

exaustera

se jogou no mar e nadou até a rebentação. depois do estouro das ondas só havia calma. surpresa boa. emoção masinha. gosto azul na boca. desejou acariciar o horizonte. e boiou nas águas serenas com gratidão. 


não mais cansaço, não mais dureza. 

era só a linha móvel que dividia o mar do resto.  



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

ela é uma pensadora

pensa no mato sem cachorro, na morte da bezerra, na volta do bumerangue, na força estranha da formiga, na poeira que flutua invisível, na fumaça que sobe às barbas do vento, na circunferência da ervilha, no raio do ovo galado, na tonga da mironga, na desmatéria do ritmo. 

(e acha tudo à fudê).

férias

  • eras
  • marcas
  • regras
  • trevas
  • fugas
  • cócegas
  • entranhas
  • unhas
  • miúdas
  • pontas
  • surdas
  • cegas
  • piegas
  • letras
  • tortas
  • tontas
  • pombas

o cheiro

ainda sente o cheiro do mato molhado. cachorros pedem atenção. ela só pensa no cheiro.  cachorros refestelam-se em vão.

Natal

foi Natal e mais uma vez não comeu panetone. mais uma vez detestou as propagandas natalinas. mais uma vez esqueceu de se emocionar. mais uma vez deixou de tentar ser menina.

comeu a ceia como quem vai à churrascaria - da gula à luxúria, um passinho só (para cima).

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

photoshop I

trabalhar no photoshop é delicioso, mas fatiga, estafa, esgota. o olho não é mais de lince. é olho de toupeira, submerso nas camadas famintas. o olho vira presa (agora ele é a comida). ignora o sabor do matiz, o tempero da saturação e o sal da luminosidade. brilho acaba servindo só para ocultar. tampa-se a panela do molho. por isso é importante parar e fechar os olhos: imagine que és pássaro, mas não olhe para o céu azul - bata o branco nas nuvens.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Leitor Imaginário II

(...)

- Surdo.

- Hã?

- Isto mesmo que você escutou.

- Hã?



[- Sim, isto mesmo que você entendeu. O leitor imaginário é você.]


OU


[sim, isto mesmo que você entendeu. o leitor imaginário é você]

10mbro

Hoje é um daqueles dias de calor úmido. O conhecido bafo.




Agora São Pedro ameaça chutar o Grande Balde. Minha avó já sente reumatismo nos joelhos. 

Se for chover, que seja um toró.

o irmão da sônia braga II

o irmão da sônia braga se chama Benjamin. pelo menos é o nome que ele diz que tem. não dá para se fiar, porque ele é muito criativo. conta estórias estranhas e depois diz que é tudo invenção. quando nos conhecemos, ele falou que era analfabeto. estranhei a correta  concordância dos verbos, mas okay. "tem gente que sabe falar", pensei. passadas duas horas, ele confessou o invento. não invoquei porque gostei. assim posso lhe escrever bilhetes, como fiz hoje. deixei um papelzinho com o seguinte escrito: "floriu", ao lado do travesseiro. e ele, todo faceiro, fotografou o meu jardim. com Benjamin é tudo simples. assim. 

300 cafés antes de acordar (realmente)

ai, que dia mais pesado. faz sol mas não venta. parece que estou dentro de uma estufa à gás. quase sinto o cheiro ardido das moléculas letais invisíveis. minha agenda está lotada. ontem não fiz nada. acumulou. paciência. caramba, detesto esta palavra: paciência. com esse acento circunflexo então, ela fica ainda mais repugnante. repelente. nessa noite não sofri com os mosquitos. acordei disposta. gosto de café forte. pelo menos os quatro primeiros. dizem que café em excesso pode dar gastrite. pior se fosse cirrose. caramba, destesto esta palavra: cirrose. com esses dois "erres" então, ela fica ainda mais repugnante. repelente. eu bebo muito pouco. depois que decidi ser feliz parei de beber álcool. só quero ver até quando vou aguentar tanta felicidade.

Leitor Imaginário

- Por que tu escreves?

- Porque tenho um leitor imaginário.

- Como assim? 

- É o jeito que encontrei de me comunicar.

- Ah, claro. E como ele é?

- Surdo.

so glad! (si joyeux)

Emília está grata e feliz. Conseguiu o que sempre quis. Com o décimo terceiro salário na conta e apenas um clique comprou uma passagem para Paris. Está indo em fevereiro, para fugir do Carnaval.

Não levará sandálias. Não levará apito nem colar havaiano. 
Levará câmera fotográfica e erva de chimarrão para um ano.

Locadora de Sonhos

Entrou na locadora de sonhos e locou aquele que mais aliviaria suas tensões pré-reveillon. Optou pelo gênero "realismo fantástico". Sonhou com bonecos de borracha em tamanho natural, vivos. Tudo em cores pastéis. No ponto em que os bonecos (eram três) começaram a reclamar de sua condição de bonecos, as cores saturaram e o sonho beirou o horror (e logo voltou à fantasia descarada mesmo). Como Alceu havia desfalcado a prateleira do gênero "ação", e dormia ao seu lado sonhando o quinto sonho, ela acordou de súbito com um ponta-pé na batata da perna. Bom que deu tempo: o sonho terminou depois que havia encaixado a cabeça no terceiro boneco e quando já lhe vestia um sobretudo (ou sobrenada) - antes ele estava pelado, no frio e sem cabeça.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

vácuo criativo

é amarela e comprida. tem algumas manchas escuras e uma ponta mais saliente que a outra. é curva, quase um bumerangue. por dentro é bege e macia. tem ranhuras, boas de tirar.



[antes de dormir, naquele instante limítrofe entre o ser e o sonho, me vêm uns textos bacanas. mas durmo e esqueço tudo. acordo descrevendo bananas.]

tapeware

tape où? tape dónde? tape cui? tape حيث ? tape where?



[desajustados que não colaboram]

duas dicas para emagrecer

1. muito dormir;
2. muito sonhar (gênero: ação).

a tradição do tender

temperar. caramelar. levar ao forno envolto no papel alumínio. esperar 2hs. fatiar quando estiver frio. comer sem pensar no bebê peru.

purê de abobrinha

você acordou abobada.  isso é bom mesmo não sendo raro. então vamos ver:


acento circunflexo... que coisa mais demodê.


porém,

se você não sabe o quê escrever, escreva sobre o não saber o quê. assim você enche uma caixa de texto sem perceber. publica um tanto de palavras sem saber por quê. nem tudo o que se lê é para entender. 


enfim,


purê de abobrinha

abobrê com farinha,
abobrê com chuchu,
abobrê com ervilha,
abobrê com ovo cru.

 
(em primeiro lugar, tudo o que você faz é para você em primeiro lugar).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

sem título [video]

http://www.youtube.com/watch?v=SrEPNqTkNOE&context=C24169ADOEgsToPDskI93_6rZgfNQOJlnVzpBA56

MOVxxxxx primeiro:
1. no fundo tem um movimento lídimo;
2. no fundo tem um movimento ínfimo;
3. no fundo tem um movimento íntimo.

puxa

"Estica, poxa!"

E foi assim que tudo começou.  Prenderam os galhos rente ao gradil. Os bambus cresceram e taparam tudo o que antes se viu. Ela pôde jardinar de camisola. Ela pôde tomar banho de sol sem a parte de cima do biquini. Ela pôde fazer de conta que não vive numa gaiola.  

bodas de ouro

50 anos de casados. meio século de união. 18.250 dias de paceria. coisa rara na era das extinções. portanto, vale tudo para rodopiar airosa no salão. é dia de alinhar os cabelos, maquiar-se sem parcimônia e vestir aquele tubinho preto do século passado. é dia de usar salto alto e de triturar os pés chatos. é dia de baile, bebê.   

desgranidas de plantão

já botei inseticida. já tapei o buraco com massa-corrida. (e já me conformei com a marca no marco da porta). 

mas nada detém a sua cobiça. 

mestres na arquitetura e imbatíveis na porcaria, espalham ração por toda a cozinha. só comem depois de picar o grão: farofa de proteína. 

qualquer dia estarão latindo, essas fomigas.

fim de ano

calor escaldante. mormaço inebriante. atmosfera enfeiante. todo mundo suado. elegância em baixa. alta irritabilidade. pressão oscilante. tonturinha desgraçada. pressa em realizar os atrasados. tostão que não garante. frustração disfraçada. papai noel existe. estacionamentos lotados. carros e mais carros. gentileza esgotada. onde estacionará o trenó? ônibus e mais ônibus. barbeiragens arrastadas. motos e mais motos. imprudências fúnebres. táxis e mais táxis. inabilidade acelerada. é fim de ano. trânsito amalucado. de novo. bosta. pobres renas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

resfriado x gripe

A diferença entre o resfriado e a gripe é o vírus. A gente só sabe quando é um ou quando é o outro quando há febre ou contágio. Ficamos na ignorância até que o tempo esclareça. Interessante como o tempo é rei até nos pormenores. Enquanto isso elencamos os sinais com a curiosidade morbidamente entorpecida:

sinal 1: nariz saliente;
sinal 2: garganta presente;
sinal 3: corpo ancorado;
sinal 4: relógio atrasado;
sinal 5: reunião perdida.

o filho playboy de kadafi

Saif foi educado da Áustria e na Inglaterra. fala mais de três línguas. é arquiteto de formação e dono de diversos veículos de comunicação. escreveu sobre democracia e foi acusado de plágio. foi capturado em estado de confusão mental enquanto tentava telefonar para o pai, já morto. com os óculos embaçados, jurou lutar até que o último homem caísse. eis que tropeçou numa pedra imaginária e tombou no chão. (ninguém lhe estendeu a mão).

ou mais ou menos isso

me parece que as pessoas preferem ler crônicas. algo que aconteceu de fato. a verdade do narrador. o real que interpretam. eu prefiro a ficção, filha da verdade suprimida com o real em potencial. mentira travestida. ou mais ou menos isso. 

o irmão da sônia braga

chegou como quem não quer nada e parou ao meu lado sem olhar para mim. até que nossos olhares se cruzaram e um sorriso desajeitado apareceu, no rosto dele e no meu. um pouco depois ele encheu o meu copo de cerveja, sem me perguntar se eu queria. mas eu queria e achei a o gesto gentil. conversamos sobre a iluminação do palco. me pareceu que ele também se interessava por luzes e sombras. simples assim. daí ele me contou que fotografava. entendi tudo. capturador de instantes, ele me fisgou desde a primeira olhada (aquela desajeitada). até que acertou o enquadramento e teve habilidade no foco. me beijou sem dizer uma palavra. ele é um rapaz muito diferente. e irmão da sônia braga.   

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

tampouco entendia

quanto mais eu tentava entender, menos eu entendia. e ficava numa espécie de limbo, onde nada acontece porque não alcança. em termos espaciais mesmo. matérico. e tampouco entendia isso.  

fui para fazer volume

sentei na cadeira do meio, de uma fila vazia. assisti todo o espetáculo com vontade de mijar. a cada aplauso parecia que eu ia estourar. a concentração era tanta em não mijar que eu até esquecia o que estava aplaudindo. vez ou outra eu relaxava e começava a acreditar na estória. até que a bexiga me cutucava e eu passava a perceber (e a analisar) o roteiro. daí a vontade de mijar só aumentava. foi punk. foi foda. foi very hard. core. enfim, o que era mesmo que eu estava falando? ah, sim... acabou que eu fui só para fazer volume. no caso, o volume da bexiga - que cresceu a ponto de preencher o teatro.  

 de amarelo.  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

barriga ronca

silêncio

fui comer

[ silêncio ]

fome circular

começa na barriga e se espalha até o pescoço e os joelhos.
quando muita, atinge os braços.

cibela

cinderela contemporânea


norte-americana.    loira, 


lisa e poderosa


alta, magra, mulher E homem.

balanço

ele voltou, ele voltou!


papai noel voltou. sinal que o final do ano chegou. período de balanços. muitas coisas acontecendo. período atordoante que acontece sempre no final do ano, todos os anos. sempre assim. papai noel volta (feito um inço) e com ele voltam o final do ano

e os balanços.    









sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

essa planta

Essa planta espontânea está concorrendo com as outras. Essa invasora é erva daninha. É inço mesmo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

9mbro

Novembro foi o mês mais seco no Rio Grande do Sul nos últimos quarenta anos. Os narizes ardem como se estivessem passeando pela Av. Paulista.
 
Na terra da pele brilhosa, o ar-condicionado já fez centenas de vítimas. Mais do que nunca as plantas dependem do homem. Os passarinhos só cantam à noite. Cães e gatos parecem colados nos pisos de lajota. Cavalos e ovelhas não arredam da sombra. O leite da vaca já vem fervido. Cerveja não devolve o carisma masculino. Nem sorvete provoca o prazer feminino. Por causa do calor. Calor seco. (Não o conhecido bafo).



Agora São Pedro ameaça chutar o Grande Balde. Minha avó já sente reumatismo nos joelhos. 

Se for chover, que seja um toró.


[Se não chover, chovo eu!]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

mais uma vez

Mais uma vez ele caiu em tentação. Eu já pedi, implorei, para que ele abandonasse essa perversão. Mas ele não se controla. Gana e orgulho falaram mais alto. Era noite, estava calor, todos na casa dormiam e ele estava livre para cometer o ato: assassinou o rato e abandonou o corpo no mato.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

fica difícil no calor

correr, caminhar. trabalhar, estudar. não beber cerveja, raciocinar. escrev

feliz dela

feliz dela que pode passar esta segunda-feira escaldante de pés descalços. enquanto isso, de terno e gravata, eu tento me concentrar neste trabalho árduo. no final do dia terei mais R$ 430,00 na minha conta bancária, um chulé sórdido e uma asa desgraçada. e ela nada. 

qualquer coisa nº757

Adentrou a sala como se fosse um avião, um tubarão aéreo, um gavião. Estava assustado e tinha os olhos parecidos com os teus: castanhos e curiosos. Corri atrás daquele ser avoado tentando ajudar. Foi em vão. Só atrapalhei. Ele parou ofegante e desajeitado em frente à janela fechada. Eu não sabia se abria a basculante ou se me afastava. Fiquei segundos infinitos nesse dilema, com minha presença desesperando o bicho. Foi então que veio o cachorro, pronto para abocanhá-lo. Eis que e ainda bem, meu braço, sozinho, baixou a alavanca e lhe devolveu o jardim. Era um sabiá cagão. Ele cagou até em mim. Fim.

livro de artista - instruções instantâneas

1. crer que és artista;
2. pegar o suporte-livro;
3. manejar o conteúdo;
4. criar um registro próprio ao objeto-livro;
5. apresentá-lo ao público (ou não).


Aqui não seria o lugar para organizar os pensamentos criativos desta que vos escreve. Todavia acaba sendo. Fazer o quê, se o meu HD externo é a nuvem? Ademais, nada se fixa no cérebro viscoso de quem sofre de calor. 

Perdi dois quilos de idéias nesta brincadeira.

eulicóptero

o ventilador voltou a me acompanhar. ele é a sombra que me faltava.


faz 35°C e é novembro. o flamboyant recomeçou a brotar. sombra é a palavra.

água para o palhaço

em água para elefantes tudo é tão bonito e só. bom para comer pipoca. salgada e de microondas. 

sou mais o palhaço. bom para comer pipoca doce de carrocinha. e beber água com bolinha.

la piel que habito

aquele médico é um fascínora. a violência é tão ampla que nem cabe no próprio termo. é mais. o médico-fascínora foi deus neste mundo perverso, e a criatura ficou tão bela que somos tentados a absolvê-lo. mas não. ainda somos homens, e habitar a beleza pode ser a prisão que nos aparta de nós mesmos.   

I ♥ Google

sábio, generoso, parceiro, eficiente, bem-humorado e paciente - ele amplia o espaço e alonga o tempo. com ele eu venço a distância e ganho horas. por ele posso ser preguiçosa. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

dona Natureza

há muito tempo Natureza já preparava o golpe final de uma vingança estrategicamente elaborada. primeiro enfraqueceu o homem com a escassez: secas, queimadas e fome. depois cansou homem com a força de seus elementos: terremotos, maremotos, tsunamis, furacões, erupções vulcânicas, avalanches, temporais, vendavais. até que, enfim, decretou a invasão: trepadeiras sufocaram prédios e ruas, nasceram árvores entre os paralelepípedos, brotaram folhagens entre os tijolos, gramíneas entupiram ralos e bueiros. então tudo rachou e virou escombro. de longe só se vê o verde.      






  
Maria Sem-Vergonha, bar do Instituto de Artes da UFRGS, 2011.

dia de arte

ela adora quando pode tirar o dia para trabalhar com arte. quando pode deixar de lado a papelada encardida e as paredes alvas do escritório. quando deve, então, ela adora mais ainda. pois sim. ela fica tão satisfeita que exagera no café e quase não come. a cabecinha dá mil voltas e as mãozinhas ficam enérgicas feito dois passarinhos. ela se perde pela casa, vagando entre pensamentos e sentimentos. esquece o que pensou antes de parar em frente à janela, distraída pelo que sentiu. ela gostaria de subir no flamboyant, agora que é novembro. ele está parecendo um desenho de tim burton. está bom para se agarrar nos galhos.


  



flamboyant, novembro de 2011.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

selecionar

selecionar é trabalhoso. escolher é custoso. voilá o que eu digo.

rebloguei o que regostei

aqui abaixo.


para ler os reblogados na íntegra, clicar no link (e não no título).



[estou selecionando textos para inseri-los num novo projeto. é interessante como parece que não fui quem plantou esses escritos. estou quase convencida de que surgiram espontâneos. eita floresta de palavras-inço!]

in_o_ & aqui_o_: a flor

in_o_ & aqui_o_: a flor: abriu a janela, deixou o sol abochornar a sala. meteu um chiclé na boca e desenhou uma flor com caneta esferográfica. pendurou o desenho na ...

in_o_ & aqui_o_: clima

in_o_ & aqui_o_: clima: toda a vez que chove a piscina do vizinho transborda. toda a vez que venta as cortinas voam derrubando os vasos. toda vez que faz sol os cac...

in_o_ & aqui_o_: casa-útero

in_o_ & aqui_o_: casa-útero: a gente gosta mesmo é de ficar em casa, quando chove e quando sempre. útero com paredes de tijolos maciços. o edredom é a placenta.

in_o_ & aqui_o_: tempo

in_o_ & aqui_o_: tempo: não adianta puxar as orelhas do tempo. ele é teimoso e valente feito um touro. o que podes é subir no lombo estreito deste monstro.

in_o_ & aqui_o_: o grito da Terra

in_o_ & aqui_o_: o grito da Terra: dizem que a Terra vai gritar. que ficaremos surdos e que tudo vai rachar. nesse dia estaremos distraídos, produzindo lixo, engarrafando água...

in_o_ & aqui_o_: é o amor que faz o homem

in_o_ & aqui_o_: é o amor que faz o homem: disse Gal. disse Alice. disse Sandra. disse Fernanda. disse Juliana. disse Carla.

todas sem pestanejar.

in_o_ & aqui_o_: caneta vic

in_o_ & aqui_o_: caneta vic: sonhou com uma caneta roxa, de ponta grossa e tinta deslizante. desenhou um diamante. ele era firme e delicado. parecia um origami.

in_o_ & aqui_o_: vou

in_o_ & aqui_o_: vou: vou encher essa porra de textos. vou povoar isso aqui de palavras. vou rechear essa tela de estórias. vou fazer transbordar essa naba. vou p...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

a fonte Georgia

Não sei porque inventei de postar os escritos deste blog com a fonte Georgia. É cansativa de ler. Um tanto over. Trunca a leitura. Dizem que letra desenhada é sinal de vaidade. Não segui minha natureza minimal ao escolher a Georgia.  Segui minha vaidade, talvez? Enfim. Veja como a palavra Vaidade parece bem mais vaidosa em Georgia. Compara: Vaidade - Vaidade - Vaidade.

Se um dia inventarem um comando que altere a fonte em todas as postagens de uma vez só, trocarei na hora. E pela fonte Padrão: Georgia, para mim, já está parecendo um lugar. Art Noveau.   

hoje [blush]

acordei irritada com o telefone que tocava de dez em dez minutos a cerca de uma hora. na primeira chamada imaginei que fosse engano. na segunda, que fosse algum vendedor. na terceira, que fosse o vendedor de novo. na quarta, que fosse o vendedor de novo de novo. na quinta, comecei a me preocupar. na sexta, levantei da cama indignada e atendi já entendendo: era o despertador, cumprindo sua função, seu serviço, suas responsabilidades. resultado: não tive moral para jogá-lo na parede.    

Não [blush]

Não me perguntes onde fica o alegrete se estiveres com o mapa na mão.

saca? [blush adaptado]

chega um ponto na vida que se for para ser, já é. saca? é a concomitância. saca? não há futuro. saca? nem passado. saca? o presente é a única coisa verdadeira que existe. saco.

mada

madam, not yet mada m

os pêlos migram

com o passar dos anos

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

dia estranho

durmo ininterruptamente por mais de doze horas. acordo confusa. parece que a bagunça do tempo desorganiza o espaço. caminho pela casa. está tudo fora do lugar. a geladeira está cheia de restos. bebo meio litro de suco de maçã. paro em frente à janela. observo a rua. a luz está boa para fotografar. as flores brancas se abriram. as formigas cortadeiras desapareceram. a trepadeira está abraçando o poste de luz. a caixa de correio está vazia. as contas estão em dia. que estranho.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

das quatro

quatro amigas criaram um blog para escrever trechos de filosofanças conversadas, auto-ajudas compartilháveis, quase-ficções e palavras ao vento. fizeram um email, criaram o blog e esqueceram a senha - do email e do blog. coisa linda! das quatro restou só um neurônio.

Haham

- Como você explica toda essa repercussão?
- Eu não explico porque não tem explicação. As coisas aconteceram.
- Como assim?
- Um belo dia tornou-se perceptível que as pessoas me ouviam. Desde o início.
- Haham. [silêncio]. Não peguei. Dá pra repetir?
- Haham.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

ö

não há ressaca, não há gravidez, não há empanturramento, não há passeio de barco. só há a náusea.

nevrótica

Neurótica e com os nervos à flor da pele, Jasinta chegou na recepção e pronunciou: "eu quero um quarto bem escuro, com água de côco no frigobar e lençóis de algodão". 

Assim foi, e deitou-se na escuridão macia sentindo o gosto do côco verde se espalhar pelo corpo até chegar ao dedão do pé.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

moléstia vulgar

fiquei diversos dias sem escrever. nem Ella, nem Holga, nem Willá vieram me visitar. eu estive ocupada, me esvaindo em merda, dor e fadiga. nunca mais desprezarei o poder das bactérias. tamanho nunca foi documento. originalidade não é documento.

portanto, prometo lavar alfaces com mais afinco, não beber leite vencido, não roer unhas, evitar congelados e outras nojeiras mais. a moléstia vulgar pode estar num inocente pão dormido.

domingo, 23 de outubro de 2011

o som da manhã

o som da manhã é o melhor. e a luz também. não importa se o vizinho está usando o lava-jato. não importa se o vizinho já está preparando o churrasco. o som da manhã é o melhor. e a luz também. 

ouço o estalinho dos galhos de árvore, o coro dos passarinhos e o canto dos galos. gosto de imaginar quintais urbanos onde habitam galos.

vejo as sombras em outros lugares, arredadas pela luz que colore o mato de um verde mais suave. gosto de comparar com a tarde.

sábado, 22 de outubro de 2011

a guriazinha

A guriazinha me atucana todo fim de tarde nos dias inúteis. Ela é animada, autoritária e insistente - três coisas que me irritam numa pessoa. Mas fato é que sempre acolho as suas ordens. Com sacola plástica e bolinhas em punho, saio de casa para soltar os bichinhos.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

quando

Quando a cinza é longa é melhor levar o cinzeiro ao cigarro. Quando se come manga aconselha-se a tirar a luva. Quando o termo está longe vale a pena ir de carro. Quando fica salgado não adianta botar açúcar.

três amores

ela tem três amores. um ignora a existência do outro. eles vivem suas vidas na doce ilusão de serem únicos. nada do que ela faça desencanta esta ficção. já trocou o segredo da fechadura e várias vezes disse não. 

o primeiro está na sala, esparramado no sofá. o segundo está no quarto, dormindo feito um paxá. o terceiro está na cozinha, esperando para almoçar.

a televisão tem 89 canais, os lençóis são de algodão e na panela tem feijão.

a flor

abriu a janela, deixou o sol abochornar a sala. meteu um chiclé na boca e desenhou uma flor com caneta esferográfica. pendurou o desenho na parede e coloriu o miolo da flor com o chiclé mastigado. o sol foi derretendo o chiclé, e da matéria viscosa nasceram nuvens choronas. ficou tudo uma porcaria. então veio a mosca.

a troca

hoje troquei a imagem-cabeçalho deste blog. e gostei de mudar o que presumivelmente lhe dá identidade. afinal esta coisa não tem uma identidade. cada um que vem aqui escreve o que quer. e cada um é um, não posso controlar. o solo daqui é fofo, com um pouquinho de força dá para brotar. bem diferente do chão do viaduto da Borges. eu estava lá em cima e descobri a aridez vegetal daquelas calçadas poéticas. lá não nascem inços. lá não há espaço para qualquer serzinho verde emergir. nenhuma fresta, nenhuma fenda, nenhuma greta. achei tão urbano o estranho daquele lugar - preenchido só por luzes e cinzas. (tem muita fuligem lá).

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Juliana

Veio de longe, atravessou a cidade, tomou dois ônibus, bateu na minha porta, atendi. Entrou na minha casa. Ofereci a poltrona e um café. Aceitou os dois. Me contou a sua história com lágrimas nos olhos e um princípio de sorriso, tímido. Pediu para que eu a desvendasse, para que eu a descobrisse, para que eu a revelasse. Já era quase noite quando levantou e foi embora. Estava confiante de que sairia de si, de que eclodiria, de que finalmente viria ao mundo. Seu sorriso ficou menos tímido, alargou-se. Suas lágrimas cristalizaram, estancando a fonte. 

E eu a escrevi.

mais Juliana

Ela não consegue cumprir suas tarefas diárias. Está difícil trabalhar, estudar, comer e tomar banho. Ela ignora o que está ao seu redor. Parece que foi abduzida por essa coisa que se chama alma. Parece que foi sugada por sua própria pessoa. Parece que ficou trancada dentro de si. Nada disso seria problema se ela ao menos conseguisse colocar um pé na frente do outro e caminhar por suas entranhas. Se pudesse explorar esse lugar que é Juliana.      

do momento imóvel ao drama (de Juliana)

Enquanto ele não mais a fazia feliz, tudo bem. O problema é que agora é ela quem não mais o faz feliz. Está sendo terrível perceber. É um verdadeiro pesadelo, daqueles que não se consegue acordar. Pesadelo entrecortado, truncado, vertiginoso, em que frases de efeito vêm à tona, como vinhetas, só para bagunçar, sacudir, azucrinar. 

"Só o amor não basta", já disse o poeta, o filósofo, o psicanalista e a sua mãe.  Então. "A separação também é um ato de amor", já disse o poeta, o filósofo e o psicanalista.  Pois. "Amar não é aceitar tudo", disse Maiakóvski. Logo. "Aquilo que se faz por amor está além do bem e do mal", disse Nietzche. Tampouco. "Amar é ultrapassarmo-nos", disse Wilde. Enfim. "O amor só encontra o seu significado no momento da separação", falou Bona. 

[Pois bem. Que se faça do riso o pranto silencioso e branco, que das bocas unidas faça-se a espuma, que das mãos espalmadas faça-se o espanto e que dos olhos desfaça-se a última chama - como cantou Vinicius]. 




"A vida é uma aventura errante" ainda leu Juliana, antes de acordar de mãos dadas com a dor.

nunca confiei em unicórnios

Nunca confiei em unicórnios. Seres enigmáticos que adoram mulheres virgens não podem ser boa coisa. Como diz o ditado (ou mais ou menos como ele diz): "o diabo é belo e seduz com o seu mistério". 

Os unicórnios são como os homens enigmaticamente belos e solitários que vemos nas ruas e nos bares, cuja imagem aparece envolta numa bruma branca e sutil - silhueta desfocada, "desfoque inteligente", baixo contraste. Nunca conseguimos tocar nesses homens, nunca conseguimos pegar esses homens, nunca saberemos se a tal maravilha existe. Mesmo cativadas, seguimos para nossas casas, cada dia mais descrentes de sua veracidade.

Assim como esses homens irresponsáveis por aquilo que cativam e assim como os pôneis coloridos, os unicórnios são uns malditos! Quer maior maldição do que estar condenado a ser mito, visão, fantasia, ficção, quimera, sonho, devaneio, ilusão? 


ACHE O GATO

As pessoas não se conformam com o que vêem. Elas querem mais. A imagem óbvia não prente. A leitura direta da imagem não conforma. O que é óbvio e direto é descartado antes mesmo de ser olhado. Vemos, porém não olhamos o que vemos. Pois para apreender é preciso focar, e para focar é preciso parar. A ânsia pela mudança, reflexo do movimento acelerado da vida e "suas paisagens", torna a leitura direta de uma imagem quase impossível. A concentração no ponto chave não se sustenta, pois o entorno puxa e distrai. 

Experienciei isso, de forma óbvia e direta, no facebook. Por que adoramos a brincadeira-frebre do "ache o gato"? Porque com ela obtemos o deleite de ter os olhos passeando pela imagem, passeando até achar algo - no caso, o gato. E mais: saber o que procuramos dentro da imagem scaneada por nossos olhos e mente é estimulante. Isso me lembra aquelas pessoas que procuram figurações nas nuvens. Para elas uma nuvem não pode ser "apenas" uma nuvem, tem que que ser um coelho, um coração, uma ovelha, um rosto. Ai, ai...

"Conclusão": quem procura na imagem o que ela não mostra, não tem ou não é, está querendo achar o gato ou o coelho. 

Todos nós fazemos isso. O homem faz isso. De certa forma os animais fazem isso (prontoviajei#): já vi meu cachorro contemplar o mato e, de repente, enxergar algo que o fez correr ao encontro da coisa que não existia, pensando, talvez, que se tratasse de uma bola, um bicho, um monstro, um paraíso. 

Isso não é nenhuma novidade, mas para mim é sempre surpreendente perceber que o desejo do espectador está muito além do que ele vê. 



[Notinha: esse textinho nasceu de um singelo postzinho meu no facebook, cuja proposta de leitura direta (num tom até meio "dã") virou uma pegadinha. O que foi beeem mais divertido. E rico.]       



ACHE O GATO:

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sonhando com ele e pensando naquilo,

foi andando, andando, andando, até que chegou no Gasômetro e pensou: "Nossa, que chaminé enorme".

dois elefantes incomodam muito mais

um homem que vivia no escuro recebeu a visita de um elefante iluminado. a luz do paquiderme lhe incomodou, mas ele aguentou firme, disfarçando como pôde. até que chegou um segundo elefante, igualmente iluminado. daí o homem não aguentou: botou os dois para correr alegando que lhe faltava espaço.  

maria-mijona

"TU TENS QUE SER MAIS CARA DE PAU", me disse meu avô de noventa e quatro (faço questão de escrever por extenso) primaveras. Depois disso ele acendeu um cigarro, cuspiu na varanda um catarro esverdeado e falou mal do meu figurino. "MARIA-MIJONA", ele disse.

o meu mais velho

o meu mais velho nega-se a comer ração de idoso. só quer saber da ração de jovem, do meu mais novo. não sei mais o que fazer. o veterinário disse que ele tem um coração enorme, por causa de sua "ANATOMIA SINGULAR" - ou seja: não é por doença, não é por velhice. e disse também que seria bom dar-lhe uma ração especial. sigo tentando.

já misturei a tal ração natural-plus seleção especial orgânica sem corantes e baixo teor de sódio com tomate, com cenoura, com guisado, com afeto - ou seja: com tudo que ele adora. 

enfim, eu não desisto.

sentadinha na cadeira, me sinto bem brasileira.

colecionador

a tal mulher já amava o homem que conhecera há exatos dezesseis dias. nunca tinha vivido um romance com um homem daqueles: gentil, atencioso, inteligente, generoso, bonito e viril. ele fazia com que ela se sentisse a mais importante das mulheres, ele realmente a fazia feliz. como se não bastasse tudo isso, o homem a levou ao seu apartamento - que era limpo, organizado e tinha uma decoração de extremo bom gosto. nessa noite eles dormiram de conchinha depois de um sexo com orgasmo simultâneo. mas, pela manhã, o homem saiu para comprar pão e a mulher aproveitou a deixa para vasculhar a casa. na gaveta do criado-mudo encontrou dezenas de camisinhas. no roupeiro, seis calcinhas rendadas, uma de cada tamanho. na estante da sala, escondido atrás da televisão, um porta-retrato múltiplo que portava fotos de seis mulheres lindas. desesperada, a mulher correu para o banheiro e eis que no armarinho do espelho encontrou seis batons vermelhos - cada um com um nome etiquetado: nádia, fátima, gislaine, carina, joana, maria. enlouquecida, a mulher pôs-se a chorar e chutou a tulha de roupas sujas que habitava o canto escuro do banheiro. e dela saltaram roupas femininas de todos tipos: top, mini-saia, sutiã, meia-calça, baby-look, corselet. alucinada, a mulher decidiu ir embora, mas não sem antes escrever um bilhete para aquele homem. numa caderneta que repousava em cima da mesa do telefone, escreveu "jamais me procure seu BOSTA" bem na página B, onde constava bárbara, beatriz, betânia, betina, bernardete, bruna, bia, bianca, brenda, barbarela. então, a mulher voltou para casa aos prantos, sentindo a dor incomensurável de amar um colecionador.   


mas não termina aí.

ao recobrar os sentidos, a mulher percebeu que voltara para casa sem calcinha, que perdera seu único batom vermelho-tomate e que respirava melhor sem o espartilho que lhe apertava a cintura.               

despertador

a tal mulher vagava num campo coberto por flores amarelas de caules longos. o vento batia nas flores e elas dançavam para lá e para cá. o vestido branco da mulher voava manso e ela ficava parecendo um anjo. o céu estava azul, não tinha sequer uma nuvem para manchar o tapete verde e amarelo que se movia numa valsa. havia um silêncio acolhedor interrompido apenas pelo canto delicado dos passarinhos. havia um perfume de flor. a mulher nunca sentiu tanta alegria, tanto frescor, tanta paz, tanto deleite, tanto contentamento. até que tocou o despertador.

reciclador

a tal mulher resolveu juntar todo o lixo (seco) da casa e botar pra rua. sabia que a coleta seletiva passaria naquela tarde. numa caixa, acomodou quatro garrafas de vinho tinto. numa baita sacola plástica, depositou trinta e seis latas de cerveja bock - já amassadas - e cinco caixas de pizza congelada. num envelope, colocou todos os extratos bancários e as contas pagas dos últimos cinco anos. e numa pasta de papelão, reuniu fotos e mais fotos do seu passado inglório. depois, vazia do que a estorvava, dormiu um sono reciclador.

domingo, 16 de outubro de 2011

o acaso

o acaso descobre os avessos e constrói novidades. é considerado uma benção pelo artista desesperado, pelo passante distraído, pelo amante frustrado ou por qualquer descrente. ele não só estorva, ele organiza e inventa. burla as probabilidades como um hábil bailarino. mas quando desce o pano ele está lá, sem aplauso nem vaidade, disfarçado de coxia, calçada, travesseiro, televisão. e só isso já é surpreendente.

sábado, 15 de outubro de 2011

coisinhas do chão


sou afeita às coisinhas do chão. quando jovem há menos tempo, eu costumava sonhar que voava e que não conseguia aterrissar. isso me causava um certo desespero. daí eu percebia que estava sonhando e me conformava com o céu. agora, jovem há mais tempo, sei que tudo era uma provação. sou broto da terra e afeita às coisinhas do chão. 


como manoel, como aipim, como beterraba, como grão.

haja óculos para tanto saco

haja saco para ler esse texto teórico sobre arte mezzo-contemporânea, em espanhol e com letras minúsculas - mais um xerox vagabundo de livro esgotado! tudo fica ainda mais tenebroso quando lembro que terei de apresentar esse texto para um enorme grupo de colegas inteligentes, cultos, exigentes e que provavelmente leram esse mesmo texto com invejável disposição e sem qualquer dificuldade. enfim. meu primeiro passo para a empreitada é usar óculos, o que eu detesto com todas as minhas forças. porque fico surda de óculos, e meio que perco a noção de tempo e espaço. enfim. então, com cara de coruja malvada, eu tento, eu leio e releio, eu sublinho, eu penso e repenso, eu bebo café, eu anoto impressões, eu escolho, eu destaco, eu seleciono, eu reclamo, eu venho para este blog, eu escrevo este post medonho, eu creio num possível alívio, eu desfruto de um breve recreio, eu registro o embate com o texto teórico sobre arte mezzo-contemporânea em espanhol com letras minúsculas do tal xerox vagabundo. povera me, ainda por cima, de óculos.



[Pra fazer "sentido para terceiros": o texto em questão é Arte Povera, de A. F. Polanco ]

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Problemas bons são os contornáveis

Aquele homem que eu beijei é tão bonito que quase não consigo olhar. Se me demoro, meus olhos choram. Sou sensível à beleza. Só sei beijar de olhos fechados.

Patuscada

Tire as chinelas e prove a caipirinha de cachaça. Dance mais hoje do que ontem. Cante alto para que tua voz apareça. Solte a franga e os demais bichos. Isto não é uma ordem, portanto, obedeça.

quando o ano terminar

quando o ano terminar darei adeus a este blogue. inventei esta nova regra. para seguir ou para burlar, depende.

melancholia

uma tristeza vaga está crescendo. uma saudade incerta só aumenta. não adianta correr. não adianta se esconder. não adianta fugir. não adianta nada. acontecerá na hora exata. nem antes nem depois. não adianta. e só terminará no fim. em todo lugar. irão pelos ares a natureza e a arte. a família e o amor ficarão no azul. (só a matéria não escapa).   






[Ontem assisti Melancholia, do Lars Von Trier. A câmera dele sempre me causou sentimentos indefiníveis, que se traduzem em algo parecido com lamento e pesar. Por que gosto dos seus filmes? Talvez porque seja o que dizem. Que é bom exercitar sentimentos dormentes, vasculhar cantinhos inexplorados da gente, vestindo a pele do outro. É comovente perceber que a dor da vida na Terra é bela. Porque trágica. Em maior ou menor grau, para todos. E tem mais: é confortante reconhecer que somos únicos porém idênticos. Não adianta.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

D.O.I.S.

Eis que, passada a neurose, ou o auge da neurose, convenceu-se de que, se as pessoas parassem um pouquinho para pensar sobre o que leram, elas entenderiam os seus recados. E desistiu de não ser.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

U.M.

No auge da neurose, convenceu-se de que não poderia ser escritor porque percebeu que não tem sensibilidade em relação ao outro, ao escrever. Percebeu que nunca é interpretado como gostaria. "Merda!", ele pensou.

a maçã

deu-se hoje o encantamento de steve jobs. 


o criador que mordeu a maçã e lançou-a adiante ..   .      .               .                         .

terça-feira, 4 de outubro de 2011

azul royal

vi um passarinho azul royal num jardim urbano. ou seja, vi o azul royal na natureza. foi lindo e estranho. o azul royal é tão difícil de combinar quanto um chapéu amarelo. e é tão difícil de encontrar quanto o velho do saco. a gente sabe que existe porque alguém de confiança nos contou. ou porque vimos numa pintura, na moda ou na internet. sempre de longe, camadas antes. aquela canetinha de R$ 1,99 não é azul royal. aquela blusa das Marisa não é azul royal. e nenhum monitor me convence. minha retina tem cones além da conta. sou sensível demais. e chato (como todos os sensíveis demais). e ponto.

lágri-minha

Tristeza encabulada. Sorrateira. (Ela se odeia).
Quer passar despercebida. E quer morrer como veio: de repente e do nada.
Mas antes, só mais uma lágri-minha.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

anagramas

Petição e peitaço são anagramas de poética. Não é incrível como um cê-cedilha embaraça?

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

o tradutor do google é muito criativo

[chove a cântaros. os passarinhos não cantam.]

>> "is raining cats and dogs. the birds do not sing."





[Eu sou a bruxa do rodo.]

>>  "Je suis la sorcière de râteau sans dent."

Plantas isto e aquilo [respingos]

Embriófitas são as plantas terrestres. (As algas são do Reino Protista). Briófitas são os musgos. Pteridófitas, as samambaias. Espermatófitas são as plantas com sementes. Gimnospermas, os pinheiros. Angiospermas, (olha que lindo!), são as plantas com flores e frutos. Tudo isto para dizer: não interessa que tipo de planta é, sempre terá um nome difícil de apreender numa primeira leitura.

Arte isto e aquilo [respingos]

Arte naïf designa a arte produzida por artistas sem preparação acadêmica, cujas características são a ausência de elementos formais sofisticados e o uso de padrões e cores primárias. Art brut designa a arte produzida por artistas livres de influências estilísticas e excluídos do mercado de arte - seria a arte dos "loucos", daqueles que não discernem a técnica, o sistema e/ou as "histórias" e teorias da arte. Arte povera designa a arte produzida por artistas que utilizam materiais alternativos e cotidianos para produzir suas obras, tais como areia, terra, madeira, jornais, cordas, pregos, trapos. 

Todas questionam as barreiras entre a arte e a vida. Mas todas têm um nome. E um nome é sempre um divisor.  



performadas

Há pessoas performadas. Por escolha, por desejo, por incontinência, por natureza. O tempo é o maestro, o diretor, o encenador, o culpado, o libertador, o professor. O espaço é o molde e o desmolde, e também campo, tabuleiro, estrada, cama, chão. Há pessoas que quanto mais inventadas, mais verdadeiras se tornam.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

228 days ago

chove a cântaros. os passarinhos não cantam.

[@ellacarlinha on twitter]

nadaver

o nadaver não combina e só existe por um lapso. indefinitivamente.

desperteço

despertenço porque sou volátil nesta atmosfera. eu escapo pelos buraquinhos mais ínfimos. não adianta. não existe emenda para mim.

ao lado

Minha vizinha dá aulas para crianças em casa. É delicioso viver ao som de brincadeiras e músicas cantadas por vozes agudas. Ainda mais porque ritmadas por palmas, piano ou bola. Que sorte a minha! O som daqui de casa é sortido, dá para imaginar à beça. É como se a infância morasse aqui do lado.  




sem pressa

domingo, 25 de setembro de 2011

despercebida

"Visto preto para passar despercebida". E assim ela se foi, com a boca bem pintada de vermelho.

o cigarro

O cigarro é a má companhia que a gente traz para dentro de casa. Mas que dorme na sala.

o último cigarro da noite

O último cigarro da noite é um companheiro que lamenta envergonhado. 

desanuviar

o que vem parar aqui vem para se perder mesmo.
vem para sair de mim.
vem para se e me libertar.

é divertido mandar palavras para a nuvem. é bom desanuviar

escova de dentes

minha escova de dentes envelheceu. que triste história de ingratidão ela viveu. me deu tudo o que podia. me serviu. me cuidou. me fez olhar no espelho. e eu sequer percebi o seu envelhecimento. só tive olhos para o meu. 

¢

não fui eu. eu fiquei.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

isto (II)

isto não é um livro. isto não é um portfólio. isto não é um diário. isto não é um retrato. isto não sou eu.


isto é só 
uma parada de idéias e sopros. um berço de inços. o meu brinquedo. meu descompromisso. 


torneira de nuvem.

o desgraçado

de mansinho e calado o desgraçado chegou. nem percebi a chegada. sentou do meu lado e lançou âncora. atracou. bastantíssimo tempo depois, sem dizer uma palavra, me tirou para dançar um bolero. nossos passos casaram na hora. conheci a sincronia absoluta. foi terrivemente bom. depois ele foi embora e eu voltei para a mesa. não havia mais nada lá. só o buraco da âncora.

mulher baldia

sou uma mulher baldia. ao meu redor nascem inços e mais. coisas inúteis e imprevistas aparecem. ficam um tempo e vão embora. e eu sempre no mesmo lugar, largada e inculta. mais frustrânea que nunca, recebo vaga quem quiser me freqüentar.   

dreaming of a neon light

ando até tarde da noite. só mais um cigarro de hora em hora. só mais um ponto de luz no horizonte. só mais uma esquina me demora.



[título: Thiago Petit]

bichos soltos

prefiro os bichos soltos. os meus e os dos outros. 
sem eles meu mundo fica oco.

imagem 04


planta que brota na merda
já vem poesia 

sabiás

quando fecho a porta da casa sempre vêm dois sabiás passear no jardim. caminham que nem galinhas. e que nem galinhas ciscam no barro e tomam banho nas poças. na grama eles andam ligeiros. que nem quero-quero ameaçado. me pergunto se por causa dos cocôs brotantes ou se por causa dos formigueiros.

Para Manoel

Passou a sentir-se artista no dia em que percebeu o cio vegetal da sua voz. Isto foi antes de conhecer o avô eleito. Isto foi quando andava só.

Aos que

Aos que o julgam arrogante e sobretudo aos que o julgam, ele declarou que é antipático por distração. 

Desde que nasceu ele é assim. Não atende aos códigos sociais porque não os memoriza. Portanto, se diz coisas descabidas, ofensivas ou fátuas, se não cumprimenta ou sorri na hora exata, não é por mal do espírito. É porque é boca-aberta.   

isto (I)

isto não é um livro. isto não é um portfólio. isto não é um diário. isto não é um retrato. isto não sou eu.

isto é só 
uma parada de idéias e sopros. um berço de inços. o meu brinquedo. meu descompromisso.


minha vida

minha vida entre árvores e bichos aconteceu sem planejamento. quando percebi eu já estava aqui. deve ter algum imã nesta terra. imã compatível com minha "magnitude". sei lá. só sei que depois que me plantei aqui, as palavras floresceram. sementes plantadas há tempos, brotaram. virei mato, matilhas, bandos, cambadas, formigueiros.


mangueira

chove de novo. para molhar a mangueira de folhas inversas. lágrimas de ponta-cabeça. salgueiro-chorão no meu invento. quando chove, apenas. 

(se tem sol, mangueira mesmo. se faz calor, mais ainda).

flor amarela

brotou uma flor amarela no jardim. eu tinha apenas um ano de idade. passamos mais de trinta anos juntas. ela me ensinou muitas verdades. sobretudo liberdades. eis que num dia de sol à pino, ela murchou. eu chorei. mas isto porque eu ainda não sabia que caule e folhas e a terra toda também eram ela. hoje eu sei.   

o retorno

não adiantou nada você me mandar embora, eu voltei. quero viver nesta casa. contigo. este lugar é a minha cara. há tantas árvores para uma só pessoa (você). os muros são largos e altos na medida. a vista é incrível. vejo o rio lá embaixo... ademais os vizinhos já me respeitam. inclusive me adoram. e você também é uma ótima pessoa. sua comida é à base de peixe. miau.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

barro

já que tudo é impermanente, vamos queimar o barro. deixar pistas pros próximos passageiros. 

maçã

em silêncio, mordeu a maçã olhando para mim. fiz que não estava notando que e o que ele queria falar, enfim. eis que tarde porém nem tanto, me ofereceu um pedaço. e eu mordi.

ato (II)

deitou-se na cama insistindo no ato. todo embarrado. com cara de coitado. fingia arrependimento. por minha causa. ele sabe que ele próprio jamais trocará os lençóis. que dirá, lavá-los e estendê-los ao sol. ele não nasceu para este tipo de coisa. deus lhe deu quatro patas mas não habilidade motora para tal. então descansou sereno sobre a imundície. fingindo outra coisa, como antes eu disse. 

ato (I)

sentou-se na grama. orgulhoso do ato. peito estufado. postura de herói. nenhum sinal de arrependimento. fez um enorme buraco. enorme mesmo. e depois mijou em cima do formigueiro. ele sabe que ele próprio jamais terá de estocar comida para sobreviver. que dirá, cuidar do jardim. ele não nasceu para este tipo de coisa. deus lhe deu quatro patas mas não habilidade mental e motora para tal. então descansou imponente sobre o verde. ingnorando minha presença, que nem combina com esta cena épica.  

enjôo

vem de baixo e acaba no plexo solar. alguma coisa isso me revira por dentro. penso a cor disso e o gosto. é esverdeado e amargo. começou num soluço e explodiu num arrepio. que puta ex-trago!

d'escrever

vermelha com bordas alaranjadas. 
duas alças gastas. 
pingo de café no lado esquerdo. 
o direito é um pouco esfarrapado. 
dentro não tem nada.

foi assim que a vi indo embora.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

somos cômoros

somos cômoros de areia. cada grão, uma vivência, alguém. algum amigo. algum amor nem tão amigo. somos construídos pelo tempo. e o vento. nos mudamos de lugar. nos mudamos simplesmente. e assim gente vai. até morrer ficando. (espalhados e planos.)    

palavras de Holga V

"Para ser homem escreva a primeira imagem que lhe recorre. Escreva o visível. Conte através das imagens. Não elucubre. Homens são diretos. Mesmo quando poéticos. Mesmo quando profundos."
(Holga Lo-fi)  

Samantha

"Então misture tudo/Dentro de nós/Porque ninguém vai dormir/Nosso sonho". Tocava isto quando Samantha adentrou o bar com cabelos de pantera. Seus olhos estavam pintados de kajal negro. De imediato a imaginei chorando, com o rosto borrado de preto.

Samantha sentou num dos banquinhos altos do bar. Naqueles banquinhos de bar mesmo. Deu para ver o quanto ela é alta. Seus pés ficaram naturalmente posicionados no apoio. Nisso, o vestido preto subiu, deixando à mostra os joelhos flexionados. Ela tem joelhos magros.

Samantha pediu um dry martini e acendeu um cigarro de filtro amarelo. Essa descombinação a fez ainda mais atraente. Então seu olhar passeou pelo recinto, como se estivesse a recencear as pessoas e as coisas. Naquele inventário mental seu rosto se iluminou feito a lua. Luz emitida. No momento desejei ler aquele cérebro feminino e sombrio. 

Samantha é sombria. Sua presença oprime e eleva. Ela atormenta.  

Por isso decidi não encontrá-la. Estou usando um difarce, embora consciente de que tudo isso seja um sonho lúcido. Durmo ao lado de Amanda enquanto o despertador não toca. Mas vai que estou enganado.
    

R:

Peguntou por que comprometer a qualidade do conjunto postando textos sem sentido ou relevância - estética ou de conteúdo.  Respondi perguntando: qualidade?

quem?

Quem se importa? quem busca? quem pensa? quem gosta? alguns quens se encaixam numa e não noutra resposta. alguns quens em nenhuma se encaixa. pode sobrar pergunta para pouco quem. pode sobrar quem para pouca pergunta.

Aqui nesta sala tem uma caixa vazia. (ainda tem). ela espera pelos quens encaixáveis que transbordarão seus limites até arregaçá-la, tornando-a não mais que papelão reciclável. nela está escrito Nestlé. e isto significa que um dia esteve recheada de chocolate. 

Quantas barrigas não acolheram o ex-conteúdo da caixa? quantos quens lhe abriram espaço? quantos quens lhe possibilitaram estar aqui? neste caso não sobra nada. sempre tem alguém por trás do quem.

Não fosse ele, esta caixa habitaria um depósito.

por mim e manoel

as palavras me acham. e também me escondem sem cuidado.

me conheço mais escrevendo do que vivendo. que bom e que ruim. 

aprendo com inços e pedras mais do que com plantações e edifícios. é o olhar para baixo que eu nasci tendo. ainda não sei de quem herdei esse olhar para baixo. talvez de meu avô eleito, que foi criado no mato e aprendeu a gostar das coisinhas do chão - antes que das coisas celestiais. 


[com frases/palavras de manoel de barros]  

scape

fugi do relógio. desliguei o rádio. fechei as cortinas. entrei neste blogue. escrevi fantasias (verdadeiras). eu queria ser lido pelas pedras*. eu queria ser árvore. eu queria conhecer manoel - ele seria meu avô. 


*[frase de manoel de barros] 

Falou de boca cheia:

"Terei férias curtas, porém caras". Depois engoliu o bolo de bacalhau que girava dentro daquela boca cheia, de dentes bracos e sadios. 

dúzias

uma dúzia de prazos para cumprir. uma dúzia de textos para escrever. duas dúzias de artigos para ler. assim eu sigo minhas incontáveis dúzias de dias. eu como meia-dúzia de ovos. eu bebo meia-dúzia de latas de ceva. eu ouço seis dúzias de música. e continuo em dúvida: quantas dúzias de dúzia para concluir isso que eu chamo de "contabilidade mórbida"?  

sábado, 17 de setembro de 2011

vi

vi a palafita
enfeitada de fita
de cetim

daí lembrei de mim
e acordei 

Wilá (I)

"A estesis do tato quase não se prevê, nem se idealiza ou pré-constrói. Aqui, técnica e talento quase se equivalem em termos de importância. É um meio bem democrático. Todo mundo pode experienciar".
(Wilá Yale)

sobre textos e tijolos

passou toda a tarde escrevendo os tais textos, narrativos e diretos, enquanto eu rebocava a parede. para esconder os tijolos.

palavras de Holga IV

"As pessoaas gostam de ler sentidos. Preferem textos com narrativas diretas. As pessoas gostam de reboco mas preferem tijolos aparentes".
(Holga Lo-fi)


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

vim ficar

para ouvir teu ronco e te presentear com o meu. para te abraçar no escuro. para entrar no teu mundo. para sonhar junto. para dormir contigo e depois acordar. vim ficar. 

Cacarecada dos Infernos

Aqui tem tudo o que se pode pensar em acumular numa vida de mais de trinta anos. Neste caos habitado de desimportâncias, o óbvio é rei. Porque é o único que está em paz no meio da Cacarecada dos Infernos - que é imperiosa e exigiu constar no título desta postagem.

o jeito que ela trabalha (II)

catou no caos a frase mais óbvia que encontrou:

 "mais importante que fazer algo importante é fazer algo"

e optou por não pontuá-la.

o jeito que ela trabalha (I)

sua sanha é caprichosa e mimada. normalmente faz as coisas quando pensa em não fazer nada. ela é assim, indeterminada. a confusão paralizante de uns é o caos desabandonado dela. onde ela vasculha o óbvio e apanha o desimportante. então trabalha e trabalha. ela é assim, silenciosa e estranha.

rabo de jacaré

foi-se o tempo em que ele cagava ao andar. hoje em dia ele se importa. deixa as portas abertas ao sair. se imagina com rabo de jacaré. e ri.

"sujeita você é um barato"

disse Clóvis depois de calçar os tênis e descabelar os cachos. "sujeita você é um barato" disse Clóvis antes de ir embora levando o álbum de fotografias debaixo do braço. 

desânimo materializado

o estúdio está tão bagunçado que meu ânimo para organizá-lo está em menos um. e assim vai até o dia em que a única superfície livre será a tela do computador - ou quem sabe nem isso. 
o teclado
e tudo estará soterrado por papéis, cinzas, fotos, livros, poeira e cacarecos 
formando uma massa compacta em grande escala. 
será o retrato do meu desânimo. 
que estará em menos dez. 

e não haverá outro jeito senão se mudar.

(isto é uma violência).







Jeff Wall. legenda na foto.

Caderno de 1986

Encontrei hoje um caderno com meus escritos de 1986. Eu tinha doze anos e era romântica. Adorava vírgulas, ponto-e-vírgulas, cor-de rosa, cetim, piano, hipnose, o Brasil e o espaço sideral.  

Audição [1986]

O piano já estava no palco. Mariana preparava-se para a audição e estava muito nervosa. Seu coração batia forte e em sua memória ela revisava as partituras que iria tocar. Isso fazia com que ela esquecesse um pouco o problema de Jivago. 
Mariana estava com um vestido cor-de-rosa e usava um laço de cetim branco no cabelo. 
Na hora da apresentação o público fez silêncio. Mariana sentou-se ao piano, colocou os dedos nas teclas e encheu a sala com as músicas que guardava na cabeça. No fim da audição, Mariana foi cumprimentada pela professora. No outro dia, o jornal dizia: "Mariana Flores hipnotizou o público tocando uma versão pausada do Prelúdio Op. 28, nº7, de Chopin".


[obs. problema de Jivago? jornal na audição? versão pausada? prelúdio op. 28, nº7?]

Brasil; Brazil [1986]

[aprendendo a usar o ponto e vírgula aos 12 anos de idade]

Meu nome é Brasil, mas sou mais conhecido como Brazil. Sou grande e bonito, porém mau cuidado. Quando jovem, fui rico e livre. Com o tempo, tornei-me pobre, sujo e depredado. Ofereci a todos minhas riquezas, acolhendo as pessoas com carinho e boa vontade. Só que em troca não recebi gratidão; fazem o que bem querem de mim e acabam com o meu coração. Se os homens ouvissem o que eu sinto, eu novamente poderia sorrir; mas basta olhar para mim para ver o quanto já morri. 

[obs. "se ouvissem o que eu sinto"]

O Cientista [1986]

[ou: A infância nos anos 80; ou: Aprendendo a usar o ponto e vírgula]

Quando criança eu constumava sonhar com o futuro; heróis espaciais, planetas e estrelas. Meu mundo era como o de toda a criança; os brinquedos, os mesmos; mas o futuro estava tão próximo que era possível imaginá-lo em detalhes. No meu quarto bagunçado havia naves espaciais, foguetes e pistolas a laser espalhados pelo chão. Na parede, havia desenhos feitos por mim e figuras retiradas de revistas. Tudo muito espacial; tudo muito especial. Na adolescência as coisas não mudaram muito, mas comecei a estudar o assunto. Já adulto, tornei-me um cientista e inventei uma nave espacial capaz de viajar por toda a galáxia. Como deu para notar, sou um sonhador. Não sei se terei sucesso nesta ida à Lua, mas para mim será muito importante, porque pisar na Lua sempre foi o meu sonho.



obs. "quando criança...", sendo que eu escrevia aos doze.    


[detalhes do processo ou coincidências fantásticas: Este texto foi originalmente escrito em 1986, aos meus 12 anos de idade. Ao reproduzí-lo aqui, enquanto eu escrevia "pisar na Lua", Jorge Ben cantou no rádio: "Depois que o primeiro homem/Maravilhosamente pisou na lua/Eu me senti com direitos, com princípios/E dignidade/De me libertar", pedindo calma ao brother Charles].