sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Audição [1986]

O piano já estava no palco. Mariana preparava-se para a audição e estava muito nervosa. Seu coração batia forte e em sua memória ela revisava as partituras que iria tocar. Isso fazia com que ela esquecesse um pouco o problema de Jivago. 
Mariana estava com um vestido cor-de-rosa e usava um laço de cetim branco no cabelo. 
Na hora da apresentação o público fez silêncio. Mariana sentou-se ao piano, colocou os dedos nas teclas e encheu a sala com as músicas que guardava na cabeça. No fim da audição, Mariana foi cumprimentada pela professora. No outro dia, o jornal dizia: "Mariana Flores hipnotizou o público tocando uma versão pausada do Prelúdio Op. 28, nº7, de Chopin".


[obs. problema de Jivago? jornal na audição? versão pausada? prelúdio op. 28, nº7?]

Brasil; Brazil [1986]

[aprendendo a usar o ponto e vírgula aos 12 anos de idade]

Meu nome é Brasil, mas sou mais conhecido como Brazil. Sou grande e bonito, porém mau cuidado. Quando jovem, fui rico e livre. Com o tempo, tornei-me pobre, sujo e depredado. Ofereci a todos minhas riquezas, acolhendo as pessoas com carinho e boa vontade. Só que em troca não recebi gratidão; fazem o que bem querem de mim e acabam com o meu coração. Se os homens ouvissem o que eu sinto, eu novamente poderia sorrir; mas basta olhar para mim para ver o quanto já morri. 

[obs. "se ouvissem o que eu sinto"]

O Cientista [1986]

[ou: A infância nos anos 80; ou: Aprendendo a usar o ponto e vírgula]

Quando criança eu constumava sonhar com o futuro; heróis espaciais, planetas e estrelas. Meu mundo era como o de toda a criança; os brinquedos, os mesmos; mas o futuro estava tão próximo que era possível imaginá-lo em detalhes. No meu quarto bagunçado havia naves espaciais, foguetes e pistolas a laser espalhados pelo chão. Na parede, havia desenhos feitos por mim e figuras retiradas de revistas. Tudo muito espacial; tudo muito especial. Na adolescência as coisas não mudaram muito, mas comecei a estudar o assunto. Já adulto, tornei-me um cientista e inventei uma nave espacial capaz de viajar por toda a galáxia. Como deu para notar, sou um sonhador. Não sei se terei sucesso nesta ida à Lua, mas para mim será muito importante, porque pisar na Lua sempre foi o meu sonho.



obs. "quando criança...", sendo que eu escrevia aos doze.    


[detalhes do processo ou coincidências fantásticas: Este texto foi originalmente escrito em 1986, aos meus 12 anos de idade. Ao reproduzí-lo aqui, enquanto eu escrevia "pisar na Lua", Jorge Ben cantou no rádio: "Depois que o primeiro homem/Maravilhosamente pisou na lua/Eu me senti com direitos, com princípios/E dignidade/De me libertar", pedindo calma ao brother Charles].      

ceramicamente

eu penso o barro como organismo vivo. eu penso a troca que há entre mim e a massa. eu penso transparente.

Agatha, a gata triste

parou de chover e Agatha, a gata triste, saiu das trevas num instante. renasceram as cores de Boticelli no apartamento hiperiluminado. mesmo com as cortinas fechadas. hoje pela manhã Agatha tomou banho de sol na beirada da janela. e dormiu. e roncou. e hoje é seu aniversário. agora é antes do meio-dia e não resta um grão de ração no pote que há dias transbordava. depois que a nuvem negra se dissipou de cima de sua cabeça, Agatha saiu da idade média e sua caixa de areia voltou a pesar. é aí que eu entro na estória.   

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

manoel de barro

o barro  no nome de maoel não foi por acaso




Barbarella (I)

Acordei indignada. Menstruada. Monstruosa. Horrorosa. Cheia de cabelos brancos. Acordei odiando mais do que o de costume a impunidade do Brasil.  Foi isso que Barbarella me disse antes de voltar para a cama e pegar no sono. Às duas da tarde. Enquanto eu escrevia.

Jaque e a banana

Com 265 votos não, 166 sim e 20 abstenções, a deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) foi absolvida pelos colegas de Câmara, após ser acusada de quebra de decoro por recebimento de propina. Foi essa a notícia. O vídeo em que ela  aparece recebendo dinheiro sujo foi gravado em 2006 e veio a público em março de 2010.  A votação secreta atrasou cerca de uma hora, pois os líderes de partidos estavam ocupados articulando seus acordos. O medo dos coleguinhas deputados de enfrentarem antigos processos foi maior do que a necessidade de dar uma resposta aos seus representados. Então a tese da defesa venceu. A deputada foi absolvida porque o vídeo foi gravado em 2006, quando a deputada ainda não era deputada. Era apenas "uma cidadã comum", como ela mesma argumentou. E assim, Jaque saiu da Casa, linda e loira, antes da votação terminar.

Depois disso, o velho de barba que engrossava a massa dos representados aguardando por uma resposta no saguão da Câmara vomitou, lembrando do dia em que desistiu de furtar uma banana por medo de ir em cana.

Enterro

Medicamentos genéricos foram encontrados enterrados num lixão. O laboratório (ir)responsável foi autuado. Foi essa a notícia. Alguns medicamentos ainda estavam no prazo de validade. A maioria era de antibióticos e antiinflamatórios. Sabe-se que o laboratório foi o autor do enterramento, da sacanagem, do delito, do crime. Por isso ele foi autuado. Por isso ele terá alguns anos para se defender. Por isso ele levará um tempo bolando uma tese em que a palavra "impunidade" sequer possa ser lembrada. O dono do laboratório - um homem grisalho, forte e alto, com cara de George Clooney - resolveu beber um drink e dar um mergulho na piscina. Para relaxar. 

E no exato momento em que o Clooney genérico prendeu a respiração para o mergulho, seu Silva perdeu a respiração para sempre. Porque lhe faltou leito, porque lhe faltou o antibiótico, porque lhe faltou ar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

a tal mulher e o tal bloquinho

a tal mulher não fala com ninguém, mas escreve. fica sentada no banco da praça capturando palavras. fala sozinha sem olhar para o lado. e depois escreve num bloquinho encardido. quando chega em casa, guarda o tal bloquinho na primeira gaveta do criado-mudo. lá dentro já tem um mundo.  

se você tivesse

se você tivesse a inquietude que eu tenho. se você tivesse a juventude que eu tenho. se você tivesse a inventividade que eu tenho. se você tivesse a mutabilidade que eu tenho. se você tivesse a desconfiança que eu tenho. se você tivesse a ânsia que eu tenho. eu teria pena de você.

sábado, 3 de setembro de 2011

eu e nem

eu e nem passamos a tarde andando pelas ruas do bairro, pisando as calçadas limosas que contornam as casas. em frente a elas, imaginamos vidas que não eram as nossas. abrimos janelas e sentamos em varandas. comemos bolo em cozinhas velhas. fizemos xixi em banheiros rotos. deitamos em quartos ensolarados para olhar nos tetos os mofos. e um monte mais. eu e nem adoramos isso, sonhar que somos outros.