domingo, 16 de outubro de 2011

o acaso

o acaso descobre os avessos e constrói novidades. é considerado uma benção pelo artista desesperado, pelo passante distraído, pelo amante frustrado ou por qualquer descrente. ele não só estorva, ele organiza e inventa. burla as probabilidades como um hábil bailarino. mas quando desce o pano ele está lá, sem aplauso nem vaidade, disfarçado de coxia, calçada, travesseiro, televisão. e só isso já é surpreendente.

sábado, 15 de outubro de 2011

coisinhas do chão


sou afeita às coisinhas do chão. quando jovem há menos tempo, eu costumava sonhar que voava e que não conseguia aterrissar. isso me causava um certo desespero. daí eu percebia que estava sonhando e me conformava com o céu. agora, jovem há mais tempo, sei que tudo era uma provação. sou broto da terra e afeita às coisinhas do chão. 


como manoel, como aipim, como beterraba, como grão.

haja óculos para tanto saco

haja saco para ler esse texto teórico sobre arte mezzo-contemporânea, em espanhol e com letras minúsculas - mais um xerox vagabundo de livro esgotado! tudo fica ainda mais tenebroso quando lembro que terei de apresentar esse texto para um enorme grupo de colegas inteligentes, cultos, exigentes e que provavelmente leram esse mesmo texto com invejável disposição e sem qualquer dificuldade. enfim. meu primeiro passo para a empreitada é usar óculos, o que eu detesto com todas as minhas forças. porque fico surda de óculos, e meio que perco a noção de tempo e espaço. enfim. então, com cara de coruja malvada, eu tento, eu leio e releio, eu sublinho, eu penso e repenso, eu bebo café, eu anoto impressões, eu escolho, eu destaco, eu seleciono, eu reclamo, eu venho para este blog, eu escrevo este post medonho, eu creio num possível alívio, eu desfruto de um breve recreio, eu registro o embate com o texto teórico sobre arte mezzo-contemporânea em espanhol com letras minúsculas do tal xerox vagabundo. povera me, ainda por cima, de óculos.



[Pra fazer "sentido para terceiros": o texto em questão é Arte Povera, de A. F. Polanco ]

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Problemas bons são os contornáveis

Aquele homem que eu beijei é tão bonito que quase não consigo olhar. Se me demoro, meus olhos choram. Sou sensível à beleza. Só sei beijar de olhos fechados.

Patuscada

Tire as chinelas e prove a caipirinha de cachaça. Dance mais hoje do que ontem. Cante alto para que tua voz apareça. Solte a franga e os demais bichos. Isto não é uma ordem, portanto, obedeça.

quando o ano terminar

quando o ano terminar darei adeus a este blogue. inventei esta nova regra. para seguir ou para burlar, depende.

melancholia

uma tristeza vaga está crescendo. uma saudade incerta só aumenta. não adianta correr. não adianta se esconder. não adianta fugir. não adianta nada. acontecerá na hora exata. nem antes nem depois. não adianta. e só terminará no fim. em todo lugar. irão pelos ares a natureza e a arte. a família e o amor ficarão no azul. (só a matéria não escapa).   






[Ontem assisti Melancholia, do Lars Von Trier. A câmera dele sempre me causou sentimentos indefiníveis, que se traduzem em algo parecido com lamento e pesar. Por que gosto dos seus filmes? Talvez porque seja o que dizem. Que é bom exercitar sentimentos dormentes, vasculhar cantinhos inexplorados da gente, vestindo a pele do outro. É comovente perceber que a dor da vida na Terra é bela. Porque trágica. Em maior ou menor grau, para todos. E tem mais: é confortante reconhecer que somos únicos porém idênticos. Não adianta.]

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

D.O.I.S.

Eis que, passada a neurose, ou o auge da neurose, convenceu-se de que, se as pessoas parassem um pouquinho para pensar sobre o que leram, elas entenderiam os seus recados. E desistiu de não ser.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

U.M.

No auge da neurose, convenceu-se de que não poderia ser escritor porque percebeu que não tem sensibilidade em relação ao outro, ao escrever. Percebeu que nunca é interpretado como gostaria. "Merda!", ele pensou.

a maçã

deu-se hoje o encantamento de steve jobs. 


o criador que mordeu a maçã e lançou-a adiante ..   .      .               .                         .

terça-feira, 4 de outubro de 2011

azul royal

vi um passarinho azul royal num jardim urbano. ou seja, vi o azul royal na natureza. foi lindo e estranho. o azul royal é tão difícil de combinar quanto um chapéu amarelo. e é tão difícil de encontrar quanto o velho do saco. a gente sabe que existe porque alguém de confiança nos contou. ou porque vimos numa pintura, na moda ou na internet. sempre de longe, camadas antes. aquela canetinha de R$ 1,99 não é azul royal. aquela blusa das Marisa não é azul royal. e nenhum monitor me convence. minha retina tem cones além da conta. sou sensível demais. e chato (como todos os sensíveis demais). e ponto.

lágri-minha

Tristeza encabulada. Sorrateira. (Ela se odeia).
Quer passar despercebida. E quer morrer como veio: de repente e do nada.
Mas antes, só mais uma lágri-minha.