sábado, 27 de outubro de 2012
filha,
você tem que enxergar o outro antes de falar. você tem que prender o seu olhar. você tem que fisgar o seu ânimo. você tem que alcançar o seu segredo. vocêm tem que acolher o que o ronda. e capturar o que o escapa.
você tem que ofertar mais que palavras.
perceber.
idéia conviva
a idéia não fica muito tempo na minha cabeça. isso porque ela não é minha, ela é do mundo. ela apenas me visita. é preciso aproveitar o momento. é preciso tratar bem a visita, a hóspede, a conviva.
a idéia é uma conviva que sempre ajuda a preparar o banquete.
para quem se achega dando, eu faço tudo o que posso.
bem-vinda!
a idéia é uma conviva que sempre ajuda a preparar o banquete.
para quem se achega dando, eu faço tudo o que posso.
bem-vinda!
é os pingo da chuva
me molhar. foi isso que pensei quando começou. não estava calor (nem frio). mas o brilho das coisas na rua me atraiu. desejei me esfregar naquela cintilação. eu estava empoeirada feito uma estante de livros lidos. e sabia que aquela luz molhava.
LA doR
quando veio a dor de dente veio também a dor no coração.
não necessariamente nessa ordem. ela nunca sabe o que vem primeiro.
ordem não é matéria de sua alçada.
seu dia nasceu mais cinza. restos de lixo povoavam sua varanda. o apito do trem não parecia tão longe. o sinal da net estava fora do ar. havia poças de mijo estacionadas nos cantos da casa. os cachorros estavam tímidos.
o lado direito da face ardia. o coração batia tenso. parecia que estava rachada por dentro.
a casa é o lar do corpo que é o lar da alma.
na casa habitam luz, lixo, som, televisão, mijo, cachorros. no corpo habitam dente e coração.
da rachadura, hospedada na alma que não é lar de nada, escorre dor.
não necessariamente nessa ordem. ela nunca sabe o que vem primeiro.
ordem não é matéria de sua alçada.
seu dia nasceu mais cinza. restos de lixo povoavam sua varanda. o apito do trem não parecia tão longe. o sinal da net estava fora do ar. havia poças de mijo estacionadas nos cantos da casa. os cachorros estavam tímidos.
o lado direito da face ardia. o coração batia tenso. parecia que estava rachada por dentro.
a casa é o lar do corpo que é o lar da alma.
na casa habitam luz, lixo, som, televisão, mijo, cachorros. no corpo habitam dente e coração.
da rachadura, hospedada na alma que não é lar de nada, escorre dor.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
in_o_ & aqui_o_ ◄ clique pra voltar: minha vida na caixa de fósforos
in_o_ & aqui_o_ ◄ clique pra voltar: minha vida na caixa de fósforos: eu sou uma formiga. vivo aqui desde que me perdi da trilha. foi por culpa de um garotinho travesso. ele tinha olhos grandes e mãos enormes. ...
habitar
habitar é um processo. logo que cheguei aqui, nada era meu. os dias passavam estranhos a tudo o que eu conhecia. o chão tremia quando eu caminhava. as paredes rangiam. o vento soprava sacudindo os vidros. os vidros opacos impediam a entrada da luz. a rua ficava apartada e a casa era deserta de mim. com o tempo aprendi o lugar das coisas, as manias das coisas, o som que elas produzem e porquê. pedaços de mim foram povoando a sala, o quarto, a cozinha e o banheiro. fui me instalando em partes. e a rua entrou pelas janelas.
funerária
Ao lado da minha nova casa tem uma funerária. A princípio não gostei, impliquei com os cadáveres. Mas, de tanto implicar, acabei vendo o lugar como um salão de beleza para corpos. Pensei no agente funerário fazendo uma escova, antes da maquiagem. E virou diversão: penteados, unhas, depilação, sobrancelha, quem sabe até uma drenagem linfática - para recircular. Eu realmente confiei naquele agente. Isso adoçava essa que um dia também será cliente. Até que, numa tarde ensolarada de domingo, descobri que, enquanto atende, o defunto stylist ouve Michel Teló. Meu castelo demoronou num ritmo repugnante.
Partir com elegância é um direito irrenunciável.
Partir com elegância é um direito irrenunciável.
amiga morta
Gosto de pegar um livro esquecido na estante e encontrar, na primeira página, o nome da amiga morta escrito com sua grafia. Parece que as voltinhas da linha, um dia traçada de seu próprio punho, a trazem de volta. Não é prazer mórbido, aviso. Ao contrário. É estesia vívida, coisa bela e ardente. Eu me transporto nessa coisa que, de revolver, me devolve - com o livro na mão, sorrindo mais que antes, sentindo que ela me espia do outro lado do portão.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
matilha
Os cachorros avisam até quando a lasanha está pronta. Eles também avisam se a água já ferveu. Somos uma equipe, uma verdadeira matilha. Sou a líder do grupo, mas, a cima de tudo, reconheço que sou parte, integrante, membro. Me pego até cheirando pão, chinelos e toalhas - para entender a favorabilidade do meio. Não só para mim, para eles também. Eu sirvo. Virei meio cão.
Acho que não consigo mais viver sem essa metade canis. Dormir a tarde toda num edredom encardido para mim é supernormal. E, se acordo de madrugada com um barulho estranho, corro pra rua, sem o menor temor. Puro instinto.
Penso que essa natureza canina pode ser fruto da minha recepção neste mundo. Meu irmão de leite foi, também, um cão. Porque o irmão humano não vencia a oferta. Depois, quando aprendi a comer sólidos, dividia a bolacha maria com meu irmão pastor, alemão.
Hoje sou membro de uma matilha de vira-latas, participativos e inteligentes. Antes que a lasanha torre e a chaleira chie, eles avisam - com perspicácia e sutileza. Cães são seres sagazes, elegantes e democráticos. Jamais impõem uma ordem. Eles apenas sugerem. E eu, por minha conta e risco, obedeço. Se concordar. Pois eu sou a líder.
Acho que não consigo mais viver sem essa metade canis. Dormir a tarde toda num edredom encardido para mim é supernormal. E, se acordo de madrugada com um barulho estranho, corro pra rua, sem o menor temor. Puro instinto.
Penso que essa natureza canina pode ser fruto da minha recepção neste mundo. Meu irmão de leite foi, também, um cão. Porque o irmão humano não vencia a oferta. Depois, quando aprendi a comer sólidos, dividia a bolacha maria com meu irmão pastor, alemão.
Hoje sou membro de uma matilha de vira-latas, participativos e inteligentes. Antes que a lasanha torre e a chaleira chie, eles avisam - com perspicácia e sutileza. Cães são seres sagazes, elegantes e democráticos. Jamais impõem uma ordem. Eles apenas sugerem. E eu, por minha conta e risco, obedeço. Se concordar. Pois eu sou a líder.
quarta-feira, 29 de agosto de 2012
esse texto está
esse texto está truncado. onde, enfim: correria solto se não: truncasse.
pois vem a palavra; pois vem o substantivo. e, em vez de vírgula ou verbo, aparecem pontos - diversos, esquecidos, em desuso.
esse texto está truncando. onde, enfim: correria solto se não.
sábado, 25 de agosto de 2012
Ainda bem
Ainda bem que cresci ouvindo (e lendo) coisas das quais os outros me diziam que me fariam mal. Porque encontrei o bom.
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
dezesseis
é dia dezesseis e ainda não escrevi nada nesse mês. preciso escrever alguma coisa, uma coisa qualquer. que venha então alguma idéia que destrave a máquina escrevedora-pensante.
[pausa]
nada além, só as antigas coisas velhas. miséria mental, perecimento. que venha então o cimento.
[pausa]
e depois o tijolo e outro tijolo. bem assim, após a vírgula e antes do ponto.
[pausa]
e depois o tijolo e outro tijolo. bem assim, após a vírgula e antes do ponto.
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