quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

o sentido é para os fracos

Forte é aquele segue pela simples razão de seguir. Nenhum sentido pode ser tão relevante a ponto de mover um ato descontente. Em suma: nenhum sentido move o ato genuíno - ação do fato. Pois, no final das contas, nada explica ou compreende. Nosso devir é o seguir em frente. (O resto é talvez).  

O mundo é a totalidade dos fatos, não das coisas. Wittgenstein.

 O significado é o uso. Wittgenstein.

aquilo que bóia

teóricos elocubram um discurso coerente para explicar o leitmotiv do processo criativo do artista. e vão até o fundo. ficam tão longe da superfície que ignoram a sutil permanência daquilo que bóia: o artista faz arte por prazer - o artista faz arte por fazer.

só chove, só chove

só chove, só chove. fez-se um lago lodoso no jardim de mato. as plantinhas, que a princípio festejaram a iniciativa de são pedro, agora rezam pelo fechamento da torneira-mor. algumas estão encharcadas; outras, bem tortas. feias. viveram a dor da enchente velando a poesia das almas mortas. mas o tempo transforma. e não há beleza maior que esta.

Dr. Rivotril

Me prometeste sossêgo e me juraste paz. E eis que me trouxeste meramente o sono dos bobos: sem sonho nem descanso. Por isso eu decreto a dissolução absoluta do nosso vínculo. Se for para dormir que haja muitos REMs. Não sou do tipo que perde tempo - e nem do tipo que diz "amém". Eu mudo, eu troco, eu invento. Sempre me virei sozinho. Meu destino é o meu caminho.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

palavras de Holga VIII

"Na escrita, o que abunda prejudica".
(Holga Lo-fi)

Mr. Singular

Veste sunga vermelha desbotada. Enfia o cigarro de filtro amarelo dentro da sunga. Cantarola um tango e me chama de espanhola. Seu sonho é me levar para o Uruguai. Diz que lá as águas são mais quentes, e que lá falam a minha língua. Eu não duvido e não nego. Com ele tudo é extraordinariamente ímpar. Até o brega desvanece. É crepúsculo quando anoitece. 

goiabada cascão

eu estava sentada à mesa pensando em trabalho e dinheiro. uma vez que meu pensamento voou e me vi dentro da casinha de pano dando mamadeira para Julia, a boneca careca. quando dei por mim, fui adoçada como há tempos não. era goiabada cascão.   

formigas

as desgranidas carregam a ração dos cachorros para a toca, à noite. de manhã eu vejo. fazem uma espécie de tampa no buraco da habitação. e lá vou eu: boto a "tampa" no lixo e veneno no tal buraco. no outro dia, tudo igualzinho - o mesmíssimo ritual. fico indignada. destesto portas fechadas.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

certeza caduca

Ele não sabe mais se a palavra é sua ou do outro. Não sabe quem inventou a poesia. A avalanche vem e não discrimina. Intala-se sobre a rima e desenha uma outra coisinha. Ele não sabe de mais nada, não tem mais qualquer teoria. 

Ele só atende ao gozo do novo e esquece de quem copia. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

palavras de Holga VII

"Ainda hoje, após meio século escrevendo, não sei o que mais me move neste ofício - se o prazer da escrita ou o gosto de iludir. Assim como Perec, assumo publicamente esse gosto. E repito: nenhum escritor é tão bonzinho a ponto de não ser um zombador".
(Holga Lo-fi)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

a música e o resto

"te quero de mil modos", cantou Drexler - e ela repetiu com o coração preso. paixão nunca foi um sentimento bem-vindo em sua vida. porque ela é neuroticanalisada demais. porque seu pensamento é sistêmico-marxista e sua filosofia, existencial-racionalista. porque seu movimento artístico preferido é o realismo-hipercontemporâneo. porque seu pulmão é preguiçoso. porque eros lhe parece um deus sôfrego e buliçoso. mas sobretudo porque preza a paz acima de qualquer otimismo-idílico. 

(oito segundos depois:)

eis que "me fazes bem", cantou Drexler - e eis que ela repetiu com o coração liberto. amor rima com transpor, ponderou. foi assim que ela aceitou a música e o resto.




[Jorge Drexler, Me haces bien]