terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

cai a máscara do sujeito disfarçado de suspiro

esse negócio dá um amargo na garganta. uma secura, uma coisa estranha. acelera o coração. causa suador. ontem deu tremedeira e vômito. e ainda assim alivia a pressão. eta vício desgraçado, o cigarro. um adesivo de nicotina na pele faz o maior estrago, mas te deixa apto. segura a tua onda e solta o diabo. dá pra ver direitinho a cara do danado.





O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar. Mario Quintana.

[após pensar e pensar no que disse MQ, distorci a mensagem no título. de propósito.]  

sou ótima conselheira

Sou ótima conselheira porque já fiz muita merda nessa vida. Comecei a fumar pra tirar onda de bacana, no início dos anos 90 - quando fumar ainda era bacana. (Quem nasceu nos anos 70 só pensou em saúde depois dos trinta anos). Dormia o dia inteiro. Bebia feito louca. Viajava com drogas bizarras. Só comia miojo. Dirigia um fusca lotado de desconhecidos. Estudava pouco. Lia coisas deprimentes. Trabalhava sem afeição. Gostava de homens problemáticos. Achava minha mãe uma mala. Me deixava enganar por gente mais louca que eu. Preferia a simulação à realidade. Andava extasiada e trôpega. Mas fui. Não parei. Eis que me tornei mentora, preceptora das personas que passam por aqui. Este blog é cheio de gente. Povoado de personalidades. Incluo nisso aquele que escreve, o narrador, o dito cujo que se apossa da minha primeira pessoa. Personas gratas pras quais dou carona. Creio que não as crio, apenas guio. Nunca precisei inventá-las. As merdas dessa vida sim, tive que inventar.
 

parar de fumar (II)

Parar de fumar é um ato bravíssimo, eu já escrevi isso antes. E escrevo de novo, agora com muito mais propriedade. Estou parando. Sim. Não fumo desde domingo.

Já parei de fumar outras duas vezes, mas isso não vem ao caso aqui neste post. Cada caso é um caso e cada um deles deve ser isolado para ser melhor vivido. Todas as vezes são diferentes, e essa diferença é que torna o ato especial - no sentido literal, pontual e total, certeiro da palavra. Enfim.

São 15hs de terça-feira e já devo ter pensado umas dez vezes em acender um cigarro. Penso de forma inconsciente, natural, distraída. Aí lembro que parei. Stop. Quit smoking. E okay. Aí eu bebo água. Rôo unhas. Caminho pela casa. Escrevo. Lavo o rosto. Abro as janelas. Oh God... save the Queen. #sunnyday.



Fumei meu último cigarro domingo à noite, chorando. 

Segunda-feira vomitei todos os litros d'água que ingeri. 

Terça-feira escrevi este texto.

Quarta-feira eu não sei.

O vício é um Rei insano e imprevisível, desatinado. É preciso encará-lo com firmeza e humor. Como uma Rainha brava, que dá o xeque-mate num típico e resplandecente sunny day.      


quinze passos para curar uma ressaca

Nenhum conhecimento é tão irrisório que não mereça ser compartilhado.


Quinze passos para curar uma ressaca (ou vivê-la da forma menos pior possível):


nº1: Assuma. Assuma seu porre para si mesmo e para terceiros, amigos espectadores de sua performance etílica (mas ainda não faça contato com eles*). Diga em voz alta para si mesmo que, sim, você bebeu sem respeito nem moderação. 

nº2: Não se culpe. Emebebedar-se é, antes que sinal de fraqueza, um sinal de humanidade.

nº3: Não se arrependa. Toda a experiência que envolve emoção e revolve a mente é válida. 

nº4: Beba água, suco ou isotônico. Beba quantos goles d'água e/ou de suco de fruta forem possíveis no menor intervalo de tempo possível. Se estiver difícil, beba poucos e pequenos goles de isotônico.

nº5: Esconda as provas do porre. Tire do seu campo de visão tudo que remeta à bebedeira. Ponha as latas/garrafas de bebida no lixo e os copos de molho na pia. Junte as almofadas, cds/vinis e etc do chão. 

nº6: Tome uma ducha e troque de roupa. Comece molhando a cabeça com a água fria e vá esquentando-a aos poucos. Vista uma roupa confortável, limpa e bonita (não se enfeie, de esculhambado já basta o seu corpo e a sua alma).

nº7: Coma alimentos leves e oleosos. Tais como: castanhas, queijo ou amendoím, se possível. Se impossível, parta para a canja de galinha com um fio de azeite de oliva.  

nº8: Relaxe. Pense na novela, num filme, num livro, numa música, numa praia, num jardim, num momento feliz de sua vida - respirando com consciência.

nº9: Sinta e agradeça. Sinta como é bom estar inteiro e perceba o quanto você é merecedor disso. Agradeça ao seu anjo da guarda (ou a Deus, ao cosmos, aos duendes e fadas da sorte).

nº10: Durma. Durma em frente ao ventilador ou com o ar condicionado ligado. Deixe o quarto à meia luz (de preferência luz natural), sem rádio nem tv ligados. 

nº11: Ao acordar, coma uma junk food. Peça uma tele-entrega de xis, pastel ou pizza. Encha a barriga assistindo tv. 

nº12: Faça contato*. Agora sim, via torpedo, dê notícias aos amigos espectadores de sua performance etílica. Mas seja sucinto e não seja dramático. Escreva apenas o necessário para assumir o porre e avisar que você está bem. Por exemplo: "Que porre! Já estou melhor. Bj!". Ou: "Recuperado (a) da bebedeira. Tudo ok comigo. Bj!". 

nº13: Tome um banho demorado. Faça muito xixi e escove os dentes com capricho debaixo do chuveiro. Use o seu sabonete preferido, aquele reservado para momentos especiais.

nº 14: Prepare-se para dormir até o dia seguinte. Troque os lençóis, deite-se com um pijama/camisola ou camisetão de cor clara (também confortável, limpo e bonito) e deixe uma garrafa de água gelada ao seu alcance. 

nº 15: Perceba que você existe. Perceber-se existente é redentor. 




Até pra morrer você tem que existir. Otto.  

      

antes de cozinhar

Antes de cozinhar, lave bem a cabeça. Deixe escorrer pelo ralo tudo que aborreça. Para que o milagre aconteça, impeça os maus pensamentos.

[O sabor adormece quando a alegria arrefece].  


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

não adianta

Não adianta esbravejar, ninguém temerá a tua ira. Não adianta chorar, lágrimas não corrigem nem refundam. Não adianta parar ou insistir, o tempo é um rei intransigente e o curso da vida é incorruptível. 

E não adianta lamentar




(-se),






o pretérito do subjuntivo é imperfeito.

o gato faz a maior bagunça

o gato faz a maior bagunça. a casa nunca mais foi a mesma depois que passamos a coabitar.

tem rolo de papel higiênico puxado até o chão. têm bolas de meias espalhadas pelo quarto. têm almofadas rolando pela sala. todos os copos estão sujos. a pia está lotada. acordo chutando chinelos. não encontro meus óculos. livros e revistas formam escombros. 

há tantos fios de luz rente às paredes que não podem ser meramente fios de luz. são fios de computador, periféricos, ex... tensões. para liquidificador, repelente, tv, dvd, aparelho de som, celular, iPod, iPad, iAi. 

a zona do gato agora é minha. onde foi parar a aspirina? 

deixei os comprimidos em cima da geladeira, entre o pinguim e a bomboniere. ou sobre a mesa da cozinha, junto com o pão e o controle remoto da televisão? sim, mas não. foi parar no banheiro, sobre a caixa de descarga, junto com o telefone sem fio, o desodorante e o rádio à pilha.

a bagunça do gato é hors concours na maravilha! (a dos cães é fichinha).

domingo, 20 de janeiro de 2013

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

799/1983

aspiro um livro simples, mas não um livro idiota. aspiro um livro leve, mas não um livro vazio. algo sem muitas descrições ou grandes psicolgismos. nem biografia, nem poesia. tampouco ensaio ou teoria, seja lá sobre que maravilha for. desejo me transpor. exauri a escrita. agora vou ler. este romance. ficção de setecentos e noventa e nove páginas com letras miúdas. edição de mil novecentos e oitenta e três. só podia.

antes da internet as letras eram menores. e os leitores, menos míopes.  

pianinho

vou tentar ler esse livrinho. 96 páginas. letras garrafais, diagramação para aposentados. mas posso desistir e dormir pelado. hoje é sábado, faz um calor danado e estou sozinho.

#@!%

"puta que pariu, esqueci a porra do carregador do celular naquela merda de escritório. bosta de lugar. minha chefe é uma vaca. se eu for lá buscar, a filha da puta vai me segurar até às nove e o cacete. boceta. piça pra ela, que vá tomar no cu. não ficarei nem fodendo".  


"calma, amor. o carregador está no bolso do teu casaco. vejo daqui".
  


maria capitolina

dois litros d'água e uma pança descomunal. sem feijão, nem repolho. absolutamente nada de sorvete. sequer um pão. 

foi assim que ela chegou atrasada no serviço. 

os colegas estranharam, desconfiaram que ela estivesse grávida. mas como teria engravidado de um dia pro outro? ou, como teria adquirido oito meses de gravidez em menos de quinze horas? a meada se alastrava pelos corredores nus da repartição. eram apenas nove e vinte e o mexerico já estava na secretaria. todos concordavam mas ninguém entendia. até que a colega mais sem-noção não resistiu a caraminhola e pronunciou, com olhos esbugalhados, "tu estás grávida?". emulada, Maria superou em muito a sem-noçãozice da colega. com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, disse, visivelmente triunfante, "estou de ressaca".