quarta-feira, 6 de março de 2013

gorda

só percebeu que estava gorda quando se viu refletida no vidro da vitrine. vendo-se gorda, entrou na loja - a fim de chancelar a conclusão, tirar a prova, pôr o pingo no "i". escolheu quatro calças jeans. entrou no provador hiperiluminado. visualizou no espelho sua imagem rechochuda e nua. dectectou celulites - novas celulites. lamentou em silêncio, como guardando um segredo. vestiu a primeira peça. abominou sua bunda. desvestiu suspirando. vestiu a segunda. execrou seus culotes. desvestiu murmurando. a terceira não entrou. e na quarta percebeu a barriga - nova barriga. desvestiu gargalhando. alto. porque gostou do que viu das costelas pra cima! peitos fartos e ombros largos. corada. sem rugas.

foi embora satisfeita. não levou nenhuma calça, mas chancelou a conclusão. e comprou quatro blusas. 


sexta-feira, 1 de março de 2013

quando dei por mim

eu rolava na grama. mantinha os olhos fechados e a boca aberta para morder o capim. nadei na terra. esfreguei o nariz no sereno, verde-branco orvalhado. removi pedras buscando o cheiro. alcancei raízes firmes e cavei. mastiguei minerais. sorvi água morna e rolei um pouco mais. umedeci. o calor dissipava. meu coração batia na mesma proporção, desacelerando. lati. eu era um cão.







quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

a vizinha

a vizinha passa todas as manhãs falando da vida dos outros. do novo emprego do filho da amiga, da safadeza do cunhado, das dívidas da enteada, da saúde da colega de ginástica, da casa suja e cara da comadre, do carro novo do namorado da filha do primo distante, da promoção com salário dobrado da irmã da mulher do primo distante que tem o genro de carro novo. 

a vizinha passa todas as manhãs reunida com pessoas, no pátio da sua casa, tomando chimarrão e falando. vêm gente de todo canto, para provar sua erva e ouvir suas histórias. é só ela quem fala. sua voz é grave e forte, encorpada. de longe dá a impressão de que ela está palestrando, mas basta atentar para o assunto para perceber que não. é fofoca mesmo. e que público interessado! não se ouve um suspiro! mas se intui aplausos. 

perto do horário do almoço as pessoas vão embora. ouço os "até logos" e o barulho dos carros. a vizinha não convida as pessoas para almoçar. ela almoça sozinha. 
  

eu hoje passei a manhã escrevendo sobre a vida da vizinha. em silêncio e sem platéia. 




terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

se você

se você pensa que vai fazer de mim o que faz com todo mundo que te ama, acho bom saber que não. se você disser que eu desafino, amor, eu gritarei mais alto.


(se você pretende saber quem eu sou, saiba que eu também).

o velho

a rua estava deserta e silenciosa. dava pra ouvir o apito do trem. o velho caminhava na calçada com uma tesoura no bolso do paletó. fatiota xadrez. parava em frente aos muros das casas - muros baixos de interior. olhava ao redor e limpava o suor da testa com um lenço de seda, fúcsia. empunhava a tesoura, num suspiro de pesar, e cortava flores de árvores e arbustos. montava um buquê. pra dar pra velha. 

puxa vida

dia sem chuva nem nicotina. sensação térmica de 40°C. implodo. incendeio e viro pó. é minha quarta-feira de cinzas. veio numa quinta, nove dias depois do carnaval.

kabuletê

emoção que regozija, oh. estesia? sei lá da tonga. e da mironga. 
só sei que esse kabuletê é bom.








quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

voltei a ouvir

voltei a ouvir pedro veríssimo. caminho a esmo por ruas horrorosas e as acho bucólicas. me pego contemplando um mosquito num vôo tonto. não ouço o trânsito. 




Sendo um pouco como o vento.

eu quero que chova

Eu quero que chova.

Para não recolher as roupas. Vê-las encharcar e escorrer. 

Para não sair de casa. Para ver nascer caminhos d'água. Para molhar a grama amarelada. Para varrer as folhas do telhado. Para mergulhar as britas cagadas. E ver o incinho emergir.

Para ninguém passar na calçada. Para saber da cidade vazia. Para escrever e nada.

pois então ele chega em casa

Pois então ele chega em casa. Cara de quem aprontou. Cabisbaixo. Coluna curva. Cifose transitória. Tatu-bola encolhido. Ele senta no sofá e suspira. Suspira fundo como há muito tempo não. Sente-se culpado? Quando parecia encher o pulmão para pronunciar uma palavra, levanta-se, mudo. Esfrega uma mão na outra, como se as estivesse lavando no ar. Água imaginária. Nervos. Crime. Ele senta na poltrona. Apóia a cabeça no encosto. Olha para o teto mofado como quem contempla uma nuvem. Suspira e suspira. Coça o nariz. Espirra. Cheira a ponta dos dedos da mão direita. Disfarça a cara de nojo. Ele olha para a janela. Olha pela janela. Sombrancelhas caídas. Mãos inquietas. Respiração irregular. Garganta embaraçada. Pigarro. Ele está calado, parece que engoliu uma pedra. Tampa de poço. Rolha de poço. Tampão. Catarro.

Sinceramente, eu preferia que ele continuasse assim. Que não dissesse nada, que guardasse para si todo o lixo que chafurda quando está longe de mim. Essa sujeira fede e pesa demais. Merda incontinente. Não sei se ele é fiel ou egoísta, só sei que daqui alguns segundos ele vai confessar: "Fumei". 

 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

para mim

o meio termo é melhor que o extremo. para mim. 




sou mais verdadeira num volume médio - o alto me oprime, o baixo me irrita. prefiro o branco sujo ao branco alvo. prefiro um copo pela metade. prefiro o amor à liberdade. não quero morrer bem velhinha, quero ser pega ao menos caminhando. onde nem lá nem cá. meu lugar é o caminho. do meio.