sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

dli... tz-on


Dli.... tz-on.

Nada sobrou do que um dia foi a casa de Marina, nem a campainha. Ela está no apartamento e abre a porta para o síndico.

- Como tu tá, Marina?
- Vazia como era a minha geladeira. Mas leve.
-  Complicado.
- Simples mas difícil, eu diria.
- Lamento...
- Não precisa. Era para ser. 
- Se precisar de ajuda, conta conosco.
- Agradecida.

Do pouco que há nesse local enegrecido, Marina pega apenas um "ex-computador", seus cristais de estimação, uma frigideira (que já era carvão antes do incêndio), um frasco de perfume e papéis incinerados.

Vai morar na casa do Jorge, amigo que divide com ela até as roupas. Não fossem os peitos, teriam o mesmo corpo. É uma recém-nascida de trinta anos, recém saída do terceiro casamento e professora do jardim de infância. 

A história de Marina começa aqui - o antes era prólogo, prelúdio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

tic... tac

Tic... tac. Tic-tac.

Marina abre os olhos e enxerga um teto branco, adornado em gesso. O silêncio é cortado apenas pelo barulho do relógio. As paredes são floridas. Papel de parede inglês. Penteadeira. Cama fofa. Lençóis perfumados. O cara com cara de Grande Lebowski. Na cama. Com ela.


Percebe que está de pijama. Um pijama masculino de botões. Xadrez. Azulzinho.

- Onde é que a gente tá? - diz Marina cutucando Cacimba.
- Quê?
- Que quarto é esse?
- Casa da minha tia... Avó.
- Tia? Avó?
- Prima irmã da minha vó...  materna. Tia-avó. Vem cá.
- Peraí, não tou entendendo. Como assim?
- Eu te trouxe comigo.
- Sério? Não lembro...
- Do que tu lembra?
- Do incêndio. E só.
- Pois então... Achei melhor te recolher, ou, melhor, te acolher. Tu tava catatônica... e louca. Ficamos de voltar lá no apartamento as 14 horas. 
- Ai não.
- Ai sim. 

Cacimba dorme subitamente. Marina observa a cara dele dormindo. Ele é mais jovem e menos feio do que lhe pareceu na noite passada. Ele dorme em completo silêncio, nem se ouve a respiração. Ele tem um cheiro bom. Ele está sem camisa. 

Marina levanta para ir ao banheiro. Na saída do quarto, dá de cara com a tia-avó, uma senhorinha cinematográfica - cabelinhos brancos presos num coque, kimono amarelo, batom.

- Oi querida - a senhorinha diz.
- Oi.
- Tudo bem?
- Mais ou menos. Pode ser.     

Marina entra no banheiro. As louças são cor-de-rosa. Toalhinhas com borda em crochê. Tapetinho macio. Tudo é muito bonitinho, exceto a sua cara refletida no espelho. Está um trapo. Lava o rosto com sabonete hiperperfumado. Respira fundo e volta para o quarto, sem olhar para a senhorinha.

- Cacimba, seguinte, cadê o Jorge?
- Quê?
- O jorge, cadê?
- Ficou com o guitarrista.
- Não acredito.
- Mas é.


Marina não consegue dormir. O tic-tac a incomoda. Lembra-a as 14 horas. Lembra-a o incêndio. Lembra-a que esqueceu de como foi parar naquele quarto estampado. Ela jura que não vai mais beber. Desfaz a jura e agradece a São Longuinho por encontrar-se ali, quando (e onde) o abraço de Cacimba sossega o seu pensamento. É agraciada pela sorte dos loucos, e emerge no estado de vaziez mental que vivenciara na noite fatídica.

O tic-tac faz curvas nos adornos de gesso do teto.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

wha-wha uin

Wha-wha uin. Tóin.

Jorge a Marina chegam no bar. O bar está cheio. O som é realmente algo entre o rock progressivo e o jazz, "metalizado". Ninguém dança. Todos bebem em pé, vestidos de preto. Marina sente-se despercebida, e gosta de ser tragada pela massa negra. Pede uma bebida igual à dos comparsas, cerveja. Jorge opta por uma vodka com energético. Sentam à mesa colada no palco, em frente ao guitarrista.

- O som está muito alto, não dá pra conversar - Jorge reclama.
- Hã?
- O som. Tá alto demais.
- É.

Finda a primeira cerveja, Marina pega a segunda. O drink de Jorge não está nem na metade.

- O guitarrista tá te dando mole - Jorge diz à Marina, a plenos pulmões.
- Que nada! É contigo a coisa.
- Hã?
- Nada.

Finda a segunda cerveja, Marina pega a terceira. O drink de Jorge está abaixo da metade.

- Som estranho pacas - Jorge diz à Marina, baixinho. 
- Hã?
- Nada.

Um cara com cara de Grande Lebowski senta à mesa junto com a dupla. Ninguém o conhece, ninguém o convidou. Os três assistem ao show como velhos e bons companheiros. Seus corpos balançam no mesmo ritmo. As cabeças formam um corpo de baile. Sintonia impecável.

- Som estranho - Marina diz à Jorge.
- Hã?
- Nada.

Finda terceira cerveja, Marina pega a quarta. Jorge pega um segundo drink. 

- Vocês são daqui? - pegunta o cara com cara de Grande Lebowski.
- Como assim? - perguntam Jorge e Marina em coro.
- Vocês são daqui? De Porto Alegre?
- Eu sou do Centro. E ela é da Cidade Baixa mesmo - Jorge responde sozinho.
- Quê?
- Eu sou do Centro, e ela, da Cidade Baixa.
- Viram o incêndio?
- Hã?
- Deixa.

Jorge pensa que o cara com cara de Grande Lebowski é um mala. Marina pensa que ele é carente. Por isso, ela passa a lhe dar atenção.

- E tu? É da onde?
- Sou do Alegrete.
- Ah, massa.
- Por quê?  
- Sei lá... porque ser do interior é legal.
- Do interior. 
- Do Alegrete. Olha... se não é capital nem região metropolitana, é interior.
- Não acho.
- É sim. Dá um google.
- Quê?
- No google vai aparecer: Alegrete, interior do Rio Grande do Sul.
- Tu não entendeu. Não acho massa.
- Por que não?
- Ser daqui é melhor.
- Depende pra quê.
- Pra que não seria?
- Pra... dirigir.
- Eu não dirijo.
- Ah, sei. Nem eu.

O cara com cara de Grande Lebowski sai e volta com outra cerveja para Marina. 

- Pra que mais não seria? - ele continua.
- Tava pensando... Pra andar de bicicleta. 
- Não. Lá não tem ciclovia.
- Pra passear a pé, então.
- Não. Lá não tem parques. E as praças são sem graça.
- Como assim?
- Não têm recantos, como tem a Redenção. 
- Recantos... Que merda, hein.
- Pois é. Aqui é melhor em tudo.
- Impossível.
- Por que impossível?
- Porto Algre é um cu!
- Tu tá enrolando a língua.
- Cazpaz.
- Tá sim, guria.
- Hãn?
- Deixa.

Finda a quinta cerveja, Marina pega a sexta. Jorge "vê" o show de olhos fechados, bebendo de canudinho o que resta da sua segunda vodka com energético. O cara com cara de Grande Lebowski está praticamente abraçado naquela Marina, que agora já é só um corpo fácido vestido num macacão preto. 

- Vou me mudar pra esta cidade - o cara com cara de Grande Lebowski diz à Marina.
- Como?   
- Vou morar aqui. Vou aprender a dirigir aqui. Vou ter um filho pra passear nos parques. Vou ter um cachorro também. Pra levar nas praças.
- Nossa! 
- É.
- Tou foga, hein.
- Quê?
- Tu é foda, hein.
- Sou. E tu?
- Tou fora.
- Tu que pensa.
- Isso é... triste.
- Não acho. Acho isso feliz.
- Isso o quê?
- Isso tudo que vou fazer. Aqui.
- Tá. Mas digo esse som...
- Melancólico.
- Deprimente.
- Nostálgico.
- É... Voôu-me embora. 
- Fica. Dança um pouco. Sente o chão debaixo dos pés. 
- Boa. Pegar impulso!

Marina levanta com a longneck na mão. Rodopia e pára numa pose de pas de deux. Está com a Gira no corpo. Jorge pega a amiga pelo braço, e sussura em seu ouvido:

- Esse cara tá querendo te comer. É hora de ir.
- Não. Quero o fundo do poço, Jorrge. 
- Então vai. Mas pergunta o nome dele antes... pelo menos.

Marina senta no colo do cara com cara de Grande Lebowski. Tasca-lhe um beijo, depois outro e mais outro. Jorge entrega ao cosmos o destino da amiga e foca no palco. 

- Qual o teu nome? - Marina pergunta pro cara com cara de Grande Lebowski.
- Cacimba.
- Hã?
- Cacimba. 
- Esse é teu nome?
- É. 
- Credo!
- Creia.

Mais uma cerveja para Cacimba e dois drinks para Jorge, o trio sai do bar em direção à casa de Marina. São velhos e bons companheiros, sim e mesmo. Caminham numa coreografia cósmica de causar inveja àquele que vem logo atrás, sozinho e discreto. Eis que, vêem fumaça e uma muvuca de gente parada na calçada. 

- Que é isso? - Jorge pergunta à magricela que fuma gudang garam no meio da confusão. 
- Parece que um apartamento incendiou. Queimou tudo. Não sobrou nada. 
- É o teu prédio, Marina.  

Marina olha o entorno com cara de paisagem, abraçada em Cacimba. Cacimba não tem mais cara de Grande Lebowski, tem cara de anjo, pai, policial, xerife, psiquiatra, professor, marido.

- Foi no apartamento dela? - pergunta aquele acima descrito.
- Foi - responde Jorge com cara de abajur, antes de inflamar e ser consolado pelo guitarrista, o invejoso que vinha logo atrás. Dele. 

Cacimba ajeita as coisas - depõe, apresenta documentos, assina, envolve-se. Marina continua com cara de paisagem, mas agora esboça um sorriso indagador. Talvez fascinada de ver a origem das sombras que, dentro do poço, lhe horrorizavam. Talvez porque estivesse zerada. Ou bêbada.
        

sábado, 15 de dezembro de 2012

dlin dlon

Dlin dlon. Crac.

- O...
- Oi - (interruptivo).
- Oi.

Silêncio.

- E aí? Não vai me convidar pra entrar?
- Vou.

Silêncio.

- Então convida.
- Entra.

Jorge entra. A casa está uma zona. A luz é fraca. Tem um abajur aceso com um lenço vermelho por cima. Leve cheiro de queimado. 

- Eu tava passando por aqui, pela rua, e resolvi te visitar.
- Sei.
- Foi isso mesmo o que aconteceu.
- Okay. Então?
- Então sei lá.
- Nem eu.
- Bom, acho que já vou indo então.
- Como assim? Nem sentaste, nem tomaste um café ou uma cerveja, nem nada.
- Pois é, mas...
- Agora fica.
- Tudo bem.
- Senta. 

Jorge empurra a montanha de roupas e panos e tralhas para a outra ponta do sofá. E senta.

- Quis ver como tu tá, na real.
- Tou bem. 
- Não parece.
- Por quê?
- Porque nunca vi tua casa desse jeito.
- Que jeito?
- Essa bagunça. Daqui a pouco esse abajur vai incendiar.
- Tudo bem, eu não ligo.
- Tá maluca? 
- Não. Nunca estive tão lúcida. 
- Marina, na boa, não pira. Onde já se viu uma mulher forte como tu se entregar assim por causa do fim de um casamento?

Silêncio.

- Um casamento mesmo. É o teu terceiro, lembra?
- Não lembro não. Pra mim é o único.     
- Já ouvi isso antes, gata.
- Bom, se tu veio aqui pra encher meu saco, é melhor ir embora.
- Tou te dando a real. Sou teu amigo.
- Real dada. Pode ir.
- Agora não vou.
- Como assim "não vou"?
- Vou ficar aqui até te ver rindo.
- Então devia ter trazido mala.

Silêncio.

- Tem cerveja?
- Tem. 
- Posso pegar?
- Pega. E traz uma pra mim. 
- Aheh, gostei!

Jorge volta com as cervejas. Dá uma lata pra Marina e senta no sofá. Marina está em pé, no meio sala, com cara de paisagem.

- Seguinte, Marina, nós vamos sair.
- Não inventa.
- Vamos sim. Tem banda na Zinco.
- Quem é que vai tocar?
- Uns tal de Suspiro.
- Credo! Isso deve ser pagode. Ou new age.
- Não. Parece que os caras fazem um rock progressivo.
- Que deprê!
- Tá com medinho?
- Tou. Argh!  
- Bah, tu tá uma velha rabujenta.
- Obrigada.
- Me falaram bem da banda. 
- Quem falou?

Silêncio.

- Quem falou?
- Não lembro.
- Lembra sim. Quem?
- Tá... Foi o Clóvis.
- Puta que pariu.
- Deixa de ser chata, vamos lá!
- Mas o idiota vai?
- Não. Se ele fosse eu não te convidaria.
- Espertinho... Não sei o que te dizer.
- Diz que vai.
- Tá bom. Vou. Vou me vestir.
- Põe aquele vestido vermelho.
- Fora de cogitação. Tou triste e gorda. Sem chance.

 Marina sai. Jorge fica lendo revistas. Marina volta, vestida num macacão preto.

- Nossa! 
- Vou à caráter. Quero ir ao fundo do poço hoje, pra pegar impulso.
- Boa! Tu precisas recomeçar tua vida.
- Do zero, de preferência! - Marina ria pela primeira vez.

Jorge e Marina saem. O abajur incendeia. E tudo mais.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

forma [ouvindo música]


forma e flor
num vaso de cor
quase azul aberto
meio esverdeado, talvez ou decerto
um ciano acima dos canais de veneza

curva e perfume
perto do cinzeiro cheio
longe do buda de cara tranquila
mais especificamente em cima da mesa

pôr [ouvindo Carlota]

senti o sol. ouvi o mar. vi o perfume do sal. 

falei sobre o haver. degustei alegrias e dores. pesei.

tudo para abraçar o crepúsculo, ninar o luco-fusco, desembalar-me.




fui rainha do dia que dormia.  

era eu que amanhecia 

naquele pôr.

acontece [ouvindo Cartola]

porque tudo no mundo acontece. e o resto é metafísica.  
 

este cachorro

Este cachorro está na maturidade. Seu vocabulário nunca esteve tão rico. A lista de palavras conhecidas é extensa. Entre o aqui e o lá têm vários lugares. 

E as paisagens fisionômicas ele conhece todas.


teto

o desenho do mofo parece aquarela. a rachadura, nanquim. 
e o prego, uma estrela.

tento

tento inventar uma mentira interessante para escrever aqui. mas nada fantasioso me ocorre nesta manhã cinzenta. é a força da realidade que adentrou minha casa, junto com a água da chuva que entra pelas frestas. quando tem sol dá pra ver o desenho dos raios e imaginar estradas. mas hoje não. hoje só tem o branco flúor, úmido e choroso, da tarde que ainda nem chegou. branco ommo desperdiçado.


nada resta além de falar do tempo. quando digo "tempo" me refiro à meteorologia. porque os ponteiros estão parados. porque não há sombra do sábado. porque no hiper só se vê espaço. 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

o abismo [ouvindo Cartola]

o abismo que cavaste com teus pés está aí porque olhaste demais para baixo. teu cérebro esgotou a paisagem resteira. para ele, o chão era limite do qual quis ir além: deu a ordem que teus pés acataram. essa duplinha é obediente e o cérebro só ordena o que conhece. então antes de olhar, veja bem. 



a solução está nos olhos.

cachorros

cachorros são mais espertos que cariocas. eles mijam em lugares insólitos para ninguém desconfiar. e podem andar na calçada sem chinelos.

cachorros são mais espertos que gaúchos. eles catam correntes de ar numa casa de oito cômodos. e não reclamam do calor.