sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
dli... tz-on
Dli.... tz-on.
Nada sobrou do que um dia foi a casa de Marina, nem a campainha. Ela está no apartamento e abre a porta para o síndico.
- Como tu tá, Marina?
- Vazia como era a minha geladeira. Mas leve.
- Complicado.
- Simples mas difícil, eu diria.
- Lamento...
- Não precisa. Era para ser.
- Se precisar de ajuda, conta conosco.
- Agradecida.
Do pouco que há nesse local enegrecido, Marina pega apenas um "ex-computador", seus cristais de estimação, uma frigideira (que já era carvão antes do incêndio), um frasco de perfume e papéis incinerados.
Vai morar na casa do Jorge, amigo que divide com ela até as roupas. Não fossem os peitos, teriam o mesmo corpo. É uma recém-nascida de trinta anos, recém saída do terceiro casamento e professora do jardim de infância.
A história de Marina começa aqui - o antes era prólogo, prelúdio.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
tic... tac
Tic... tac. Tic-tac.
Marina abre os olhos e enxerga um teto branco, adornado em gesso. O silêncio é cortado apenas pelo barulho do relógio. As paredes são floridas. Papel de parede inglês. Penteadeira. Cama fofa. Lençóis perfumados. O cara com cara de Grande Lebowski. Na cama. Com ela.
Percebe que está de pijama. Um pijama masculino de botões. Xadrez. Azulzinho.
- Onde é que a gente tá? - diz Marina cutucando Cacimba.
- Quê?
- Que quarto é esse?
- Casa da minha tia... Avó.
- Tia? Avó?
- Prima irmã da minha vó... materna. Tia-avó. Vem cá.
- Peraí, não tou entendendo. Como assim?
- Eu te trouxe comigo.
- Sério? Não lembro...
- Do que tu lembra?
- Do incêndio. E só.
- Pois então... Achei melhor te recolher, ou, melhor, te acolher. Tu tava catatônica... e louca. Ficamos de voltar lá no apartamento as 14 horas.
- Ai não.
- Ai sim.
Cacimba dorme subitamente. Marina observa a cara dele dormindo. Ele é mais jovem e menos feio do que lhe pareceu na noite passada. Ele dorme em completo silêncio, nem se ouve a respiração. Ele tem um cheiro bom. Ele está sem camisa.
Marina levanta para ir ao banheiro. Na saída do quarto, dá de cara com a tia-avó, uma senhorinha cinematográfica - cabelinhos brancos presos num coque, kimono amarelo, batom.
- Oi querida - a senhorinha diz.
- Oi.
- Tudo bem?
- Mais ou menos. Pode ser.
Marina entra no banheiro. As louças são cor-de-rosa. Toalhinhas com borda em crochê. Tapetinho macio. Tudo é muito bonitinho, exceto a sua cara refletida no espelho. Está um trapo. Lava o rosto com sabonete hiperperfumado. Respira fundo e volta para o quarto, sem olhar para a senhorinha.
- Cacimba, seguinte, cadê o Jorge?
- Quê?
- O jorge, cadê?
- Ficou com o guitarrista.
- Não acredito.
- Mas é.
Marina não consegue dormir. O tic-tac a incomoda. Lembra-a as 14 horas. Lembra-a o incêndio. Lembra-a que esqueceu de como foi parar naquele quarto estampado. Ela jura que não vai mais beber. Desfaz a jura e agradece a São Longuinho por encontrar-se ali, quando (e onde) o abraço de Cacimba sossega o seu pensamento. É agraciada pela sorte dos loucos, e emerge no estado de vaziez mental que vivenciara na noite fatídica.
O tic-tac faz curvas nos adornos de gesso do teto.
Marina abre os olhos e enxerga um teto branco, adornado em gesso. O silêncio é cortado apenas pelo barulho do relógio. As paredes são floridas. Papel de parede inglês. Penteadeira. Cama fofa. Lençóis perfumados. O cara com cara de Grande Lebowski. Na cama. Com ela.
Percebe que está de pijama. Um pijama masculino de botões. Xadrez. Azulzinho.
- Onde é que a gente tá? - diz Marina cutucando Cacimba.
- Quê?
- Que quarto é esse?
- Casa da minha tia... Avó.
- Tia? Avó?
- Prima irmã da minha vó... materna. Tia-avó. Vem cá.
- Peraí, não tou entendendo. Como assim?
- Eu te trouxe comigo.
- Sério? Não lembro...
- Do que tu lembra?
- Do incêndio. E só.
- Pois então... Achei melhor te recolher, ou, melhor, te acolher. Tu tava catatônica... e louca. Ficamos de voltar lá no apartamento as 14 horas.
- Ai não.
- Ai sim.
Cacimba dorme subitamente. Marina observa a cara dele dormindo. Ele é mais jovem e menos feio do que lhe pareceu na noite passada. Ele dorme em completo silêncio, nem se ouve a respiração. Ele tem um cheiro bom. Ele está sem camisa.
Marina levanta para ir ao banheiro. Na saída do quarto, dá de cara com a tia-avó, uma senhorinha cinematográfica - cabelinhos brancos presos num coque, kimono amarelo, batom.
- Oi querida - a senhorinha diz.
- Oi.
- Tudo bem?
- Mais ou menos. Pode ser.
Marina entra no banheiro. As louças são cor-de-rosa. Toalhinhas com borda em crochê. Tapetinho macio. Tudo é muito bonitinho, exceto a sua cara refletida no espelho. Está um trapo. Lava o rosto com sabonete hiperperfumado. Respira fundo e volta para o quarto, sem olhar para a senhorinha.
- Cacimba, seguinte, cadê o Jorge?
- Quê?
- O jorge, cadê?
- Ficou com o guitarrista.
- Não acredito.
- Mas é.
Marina não consegue dormir. O tic-tac a incomoda. Lembra-a as 14 horas. Lembra-a o incêndio. Lembra-a que esqueceu de como foi parar naquele quarto estampado. Ela jura que não vai mais beber. Desfaz a jura e agradece a São Longuinho por encontrar-se ali, quando (e onde) o abraço de Cacimba sossega o seu pensamento. É agraciada pela sorte dos loucos, e emerge no estado de vaziez mental que vivenciara na noite fatídica.
O tic-tac faz curvas nos adornos de gesso do teto.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
wha-wha uin
Wha-wha uin. Tóin.
Jorge a Marina chegam no bar. O bar está cheio. O som é realmente algo entre o rock progressivo e o jazz, "metalizado". Ninguém dança. Todos bebem em pé, vestidos de preto. Marina sente-se despercebida, e gosta de ser tragada pela massa negra. Pede uma bebida igual à dos comparsas, cerveja. Jorge opta por uma vodka com energético. Sentam à mesa colada no palco, em frente ao guitarrista.
- O som está muito alto, não dá pra conversar - Jorge reclama.
- Hã?
- O som. Tá alto demais.
- É.
Finda a primeira cerveja, Marina pega a segunda. O drink de Jorge não está nem na metade.
- O guitarrista tá te dando mole - Jorge diz à Marina, a plenos pulmões.
- Que nada! É contigo a coisa.
- Hã?
- Nada.
Finda a segunda cerveja, Marina pega a terceira. O drink de Jorge está abaixo da metade.
- Som estranho pacas - Jorge diz à Marina, baixinho.
- Hã?
- Nada.
Um cara com cara de Grande Lebowski senta à mesa junto com a dupla. Ninguém o conhece, ninguém o convidou. Os três assistem ao show como velhos e bons companheiros. Seus corpos balançam no mesmo ritmo. As cabeças formam um corpo de baile. Sintonia impecável.
- Som estranho - Marina diz à Jorge.
- Hã?
- Nada.
Finda terceira cerveja, Marina pega a quarta. Jorge pega um segundo drink.
- Vocês são daqui? - pegunta o cara com cara de Grande Lebowski.
- Como assim? - perguntam Jorge e Marina em coro.
- Vocês são daqui? De Porto Alegre?
- Eu sou do Centro. E ela é da Cidade Baixa mesmo - Jorge responde sozinho.
- Quê?
- Eu sou do Centro, e ela, da Cidade Baixa.
- Viram o incêndio?
- Hã?
- Deixa.
Jorge pensa que o cara com cara de Grande Lebowski é um mala. Marina pensa que ele é carente. Por isso, ela passa a lhe dar atenção.
- E tu? É da onde?
- Sou do Alegrete.
- Ah, massa.
- Por quê?
- Sei lá... porque ser do interior é legal.
- Do interior.
- Do Alegrete. Olha... se não é capital nem região metropolitana, é interior.
- Não acho.
- É sim. Dá um google.
- Quê?
- No google vai aparecer: Alegrete, interior do Rio Grande do Sul.
- Tu não entendeu. Não acho massa.
- Por que não?
- Ser daqui é melhor.
- Depende pra quê.
- Pra que não seria?
- Pra... dirigir.
- Eu não dirijo.
- Ah, sei. Nem eu.
O cara com cara de Grande Lebowski sai e volta com outra cerveja para Marina.
- Pra que mais não seria? - ele continua.
- Tava pensando... Pra andar de bicicleta.
- Não. Lá não tem ciclovia.
- Pra passear a pé, então.
- Não. Lá não tem parques. E as praças são sem graça.
- Como assim?
- Não têm recantos, como tem a Redenção.
- Recantos... Que merda, hein.
- Pois é. Aqui é melhor em tudo.
- Impossível.
- Por que impossível?
- Porto Algre é um cu!
- Tu tá enrolando a língua.
- Cazpaz.
- Tá sim, guria.
- Hãn?
- Deixa.
Finda a quinta cerveja, Marina pega a sexta. Jorge "vê" o show de olhos fechados, bebendo de canudinho o que resta da sua segunda vodka com energético. O cara com cara de Grande Lebowski está praticamente abraçado naquela Marina, que agora já é só um corpo fácido vestido num macacão preto.
- Vou me mudar pra esta cidade - o cara com cara de Grande Lebowski diz à Marina.
- Como?
- Vou morar aqui. Vou aprender a dirigir aqui. Vou ter um filho pra passear nos parques. Vou ter um cachorro também. Pra levar nas praças.
- Nossa!
- É.
- Tou foga, hein.
- Quê?
- Tu é foda, hein.
- Sou. E tu?
- Tou fora.
- Tu que pensa.
- Isso é... triste.
- Não acho. Acho isso feliz.
- Isso o quê?
- Isso tudo que vou fazer. Aqui.
- Tá. Mas digo esse som...
- Melancólico.
- Deprimente.
- Nostálgico.
- É... Voôu-me embora.
- Fica. Dança um pouco. Sente o chão debaixo dos pés.
- Boa. Pegar impulso!
Marina levanta com a longneck na mão. Rodopia e pára numa pose de pas de deux. Está com a Gira no corpo. Jorge pega a amiga pelo braço, e sussura em seu ouvido:
- Esse cara tá querendo te comer. É hora de ir.
- Não. Quero o fundo do poço, Jorrge.
- Então vai. Mas pergunta o nome dele antes... pelo menos.
Marina senta no colo do cara com cara de Grande Lebowski. Tasca-lhe um beijo, depois outro e mais outro. Jorge entrega ao cosmos o destino da amiga e foca no palco.
- Qual o teu nome? - Marina pergunta pro cara com cara de Grande Lebowski.
- Cacimba.
- Hã?
- Cacimba.
- Esse é teu nome?
- É.
- Credo!
- Creia.
Mais uma cerveja para Cacimba e dois drinks para Jorge, o trio sai do bar em direção à casa de Marina. São velhos e bons companheiros, sim e mesmo. Caminham numa coreografia cósmica de causar inveja àquele que vem logo atrás, sozinho e discreto. Eis que, vêem fumaça e uma muvuca de gente parada na calçada.
- Que é isso? - Jorge pergunta à magricela que fuma gudang garam no meio da confusão.
- Parece que um apartamento incendiou. Queimou tudo. Não sobrou nada.
- É o teu prédio, Marina.
Marina olha o entorno com cara de paisagem, abraçada em Cacimba. Cacimba não tem mais cara de Grande Lebowski, tem cara de anjo, pai, policial, xerife, psiquiatra, professor, marido.
- Foi no apartamento dela? - pergunta aquele acima descrito.
- Foi - responde Jorge com cara de abajur, antes de inflamar e ser consolado pelo guitarrista, o invejoso que vinha logo atrás. Dele.
Cacimba ajeita as coisas - depõe, apresenta documentos, assina, envolve-se. Marina continua com cara de paisagem, mas agora esboça um sorriso indagador. Talvez fascinada de ver a origem das sombras que, dentro do poço, lhe horrorizavam. Talvez porque estivesse zerada. Ou bêbada.
Jorge a Marina chegam no bar. O bar está cheio. O som é realmente algo entre o rock progressivo e o jazz, "metalizado". Ninguém dança. Todos bebem em pé, vestidos de preto. Marina sente-se despercebida, e gosta de ser tragada pela massa negra. Pede uma bebida igual à dos comparsas, cerveja. Jorge opta por uma vodka com energético. Sentam à mesa colada no palco, em frente ao guitarrista.
- O som está muito alto, não dá pra conversar - Jorge reclama.
- Hã?
- O som. Tá alto demais.
- É.
Finda a primeira cerveja, Marina pega a segunda. O drink de Jorge não está nem na metade.
- O guitarrista tá te dando mole - Jorge diz à Marina, a plenos pulmões.
- Que nada! É contigo a coisa.
- Hã?
- Nada.
Finda a segunda cerveja, Marina pega a terceira. O drink de Jorge está abaixo da metade.
- Som estranho pacas - Jorge diz à Marina, baixinho.
- Hã?
- Nada.
Um cara com cara de Grande Lebowski senta à mesa junto com a dupla. Ninguém o conhece, ninguém o convidou. Os três assistem ao show como velhos e bons companheiros. Seus corpos balançam no mesmo ritmo. As cabeças formam um corpo de baile. Sintonia impecável.
- Som estranho - Marina diz à Jorge.
- Hã?
- Nada.
Finda terceira cerveja, Marina pega a quarta. Jorge pega um segundo drink.
- Vocês são daqui? - pegunta o cara com cara de Grande Lebowski.
- Como assim? - perguntam Jorge e Marina em coro.
- Vocês são daqui? De Porto Alegre?
- Eu sou do Centro. E ela é da Cidade Baixa mesmo - Jorge responde sozinho.
- Quê?
- Eu sou do Centro, e ela, da Cidade Baixa.
- Viram o incêndio?
- Hã?
- Deixa.
Jorge pensa que o cara com cara de Grande Lebowski é um mala. Marina pensa que ele é carente. Por isso, ela passa a lhe dar atenção.
- E tu? É da onde?
- Sou do Alegrete.
- Ah, massa.
- Por quê?
- Sei lá... porque ser do interior é legal.
- Do interior.
- Do Alegrete. Olha... se não é capital nem região metropolitana, é interior.
- Não acho.
- É sim. Dá um google.
- Quê?
- No google vai aparecer: Alegrete, interior do Rio Grande do Sul.
- Tu não entendeu. Não acho massa.
- Por que não?
- Ser daqui é melhor.
- Depende pra quê.
- Pra que não seria?
- Pra... dirigir.
- Eu não dirijo.
- Ah, sei. Nem eu.
O cara com cara de Grande Lebowski sai e volta com outra cerveja para Marina.
- Pra que mais não seria? - ele continua.
- Tava pensando... Pra andar de bicicleta.
- Não. Lá não tem ciclovia.
- Pra passear a pé, então.
- Não. Lá não tem parques. E as praças são sem graça.
- Como assim?
- Não têm recantos, como tem a Redenção.
- Recantos... Que merda, hein.
- Pois é. Aqui é melhor em tudo.
- Impossível.
- Por que impossível?
- Porto Algre é um cu!
- Tu tá enrolando a língua.
- Cazpaz.
- Tá sim, guria.
- Hãn?
- Deixa.
Finda a quinta cerveja, Marina pega a sexta. Jorge "vê" o show de olhos fechados, bebendo de canudinho o que resta da sua segunda vodka com energético. O cara com cara de Grande Lebowski está praticamente abraçado naquela Marina, que agora já é só um corpo fácido vestido num macacão preto.
- Vou me mudar pra esta cidade - o cara com cara de Grande Lebowski diz à Marina.
- Como?
- Vou morar aqui. Vou aprender a dirigir aqui. Vou ter um filho pra passear nos parques. Vou ter um cachorro também. Pra levar nas praças.
- Nossa!
- É.
- Tou foga, hein.
- Quê?
- Tu é foda, hein.
- Sou. E tu?
- Tou fora.
- Tu que pensa.
- Isso é... triste.
- Não acho. Acho isso feliz.
- Isso o quê?
- Isso tudo que vou fazer. Aqui.
- Tá. Mas digo esse som...
- Melancólico.
- Deprimente.
- Nostálgico.
- É... Voôu-me embora.
- Fica. Dança um pouco. Sente o chão debaixo dos pés.
- Boa. Pegar impulso!
Marina levanta com a longneck na mão. Rodopia e pára numa pose de pas de deux. Está com a Gira no corpo. Jorge pega a amiga pelo braço, e sussura em seu ouvido:
- Esse cara tá querendo te comer. É hora de ir.
- Não. Quero o fundo do poço, Jorrge.
- Então vai. Mas pergunta o nome dele antes... pelo menos.
Marina senta no colo do cara com cara de Grande Lebowski. Tasca-lhe um beijo, depois outro e mais outro. Jorge entrega ao cosmos o destino da amiga e foca no palco.
- Qual o teu nome? - Marina pergunta pro cara com cara de Grande Lebowski.
- Cacimba.
- Hã?
- Cacimba.
- Esse é teu nome?
- É.
- Credo!
- Creia.
Mais uma cerveja para Cacimba e dois drinks para Jorge, o trio sai do bar em direção à casa de Marina. São velhos e bons companheiros, sim e mesmo. Caminham numa coreografia cósmica de causar inveja àquele que vem logo atrás, sozinho e discreto. Eis que, vêem fumaça e uma muvuca de gente parada na calçada.
- Que é isso? - Jorge pergunta à magricela que fuma gudang garam no meio da confusão.
- Parece que um apartamento incendiou. Queimou tudo. Não sobrou nada.
- É o teu prédio, Marina.
Marina olha o entorno com cara de paisagem, abraçada em Cacimba. Cacimba não tem mais cara de Grande Lebowski, tem cara de anjo, pai, policial, xerife, psiquiatra, professor, marido.
- Foi no apartamento dela? - pergunta aquele acima descrito.
- Foi - responde Jorge com cara de abajur, antes de inflamar e ser consolado pelo guitarrista, o invejoso que vinha logo atrás. Dele.
Cacimba ajeita as coisas - depõe, apresenta documentos, assina, envolve-se. Marina continua com cara de paisagem, mas agora esboça um sorriso indagador. Talvez fascinada de ver a origem das sombras que, dentro do poço, lhe horrorizavam. Talvez porque estivesse zerada. Ou bêbada.
sábado, 15 de dezembro de 2012
dlin dlon
Dlin dlon. Crac.
- O...
- Oi - (interruptivo).
- Oi.
Silêncio.
- E aí? Não vai me convidar pra entrar?
- Vou.
Silêncio.
- Então convida.
- Entra.
Jorge entra. A casa está uma zona. A luz é fraca. Tem um abajur aceso com um lenço vermelho por cima. Leve cheiro de queimado.
- Eu tava passando por aqui, pela rua, e resolvi te visitar.
- Sei.
- Foi isso mesmo o que aconteceu.
- Okay. Então?
- Então sei lá.
- Nem eu.
- Bom, acho que já vou indo então.
- Como assim? Nem sentaste, nem tomaste um café ou uma cerveja, nem nada.
- Pois é, mas...
- Agora fica.
- Tudo bem.
- Senta.
Jorge empurra a montanha de roupas e panos e tralhas para a outra ponta do sofá. E senta.
- Quis ver como tu tá, na real.
- Tou bem.
- Não parece.
- Por quê?
- Porque nunca vi tua casa desse jeito.
- Que jeito?
- Essa bagunça. Daqui a pouco esse abajur vai incendiar.
- Tudo bem, eu não ligo.
- Tá maluca?
- Não. Nunca estive tão lúcida.
- Marina, na boa, não pira. Onde já se viu uma mulher forte como tu se entregar assim por causa do fim de um casamento?
Silêncio.
- Um casamento mesmo. É o teu terceiro, lembra?
- Não lembro não. Pra mim é o único.
- Já ouvi isso antes, gata.
- Bom, se tu veio aqui pra encher meu saco, é melhor ir embora.
- Tou te dando a real. Sou teu amigo.
- Real dada. Pode ir.
- Agora não vou.
- Como assim "não vou"?
- Vou ficar aqui até te ver rindo.
- Então devia ter trazido mala.
Silêncio.
- Tem cerveja?
- Tem.
- Posso pegar?
- Pega. E traz uma pra mim.
- Aheh, gostei!
Jorge volta com as cervejas. Dá uma lata pra Marina e senta no sofá. Marina está em pé, no meio sala, com cara de paisagem.
- Seguinte, Marina, nós vamos sair.
- Não inventa.
- Vamos sim. Tem banda na Zinco.
- Quem é que vai tocar?
- Uns tal de Suspiro.
- Credo! Isso deve ser pagode. Ou new age.
- Não. Parece que os caras fazem um rock progressivo.
- Que deprê!
- Tá com medinho?
- Tou. Argh!
- Bah, tu tá uma velha rabujenta.
- Obrigada.
- Me falaram bem da banda.
- Quem falou?
Silêncio.
- Quem falou?
- Não lembro.
- Lembra sim. Quem?
- Tá... Foi o Clóvis.
- Puta que pariu.
- Deixa de ser chata, vamos lá!
- Mas o idiota vai?
- Não. Se ele fosse eu não te convidaria.
- Espertinho... Não sei o que te dizer.
- Diz que vai.
- Tá bom. Vou. Vou me vestir.
- Põe aquele vestido vermelho.
- Fora de cogitação. Tou triste e gorda. Sem chance.
Marina sai. Jorge fica lendo revistas. Marina volta, vestida num macacão preto.
- Nossa!
- Vou à caráter. Quero ir ao fundo do poço hoje, pra pegar impulso.
- Boa! Tu precisas recomeçar tua vida.
- Do zero, de preferência! - Marina ria pela primeira vez.
Jorge e Marina saem. O abajur incendeia. E tudo mais.
- O...
- Oi - (interruptivo).
- Oi.
Silêncio.
- E aí? Não vai me convidar pra entrar?
- Vou.
Silêncio.
- Então convida.
- Entra.
Jorge entra. A casa está uma zona. A luz é fraca. Tem um abajur aceso com um lenço vermelho por cima. Leve cheiro de queimado.
- Eu tava passando por aqui, pela rua, e resolvi te visitar.
- Sei.
- Foi isso mesmo o que aconteceu.
- Okay. Então?
- Então sei lá.
- Nem eu.
- Bom, acho que já vou indo então.
- Como assim? Nem sentaste, nem tomaste um café ou uma cerveja, nem nada.
- Pois é, mas...
- Agora fica.
- Tudo bem.
- Senta.
Jorge empurra a montanha de roupas e panos e tralhas para a outra ponta do sofá. E senta.
- Quis ver como tu tá, na real.
- Tou bem.
- Não parece.
- Por quê?
- Porque nunca vi tua casa desse jeito.
- Que jeito?
- Essa bagunça. Daqui a pouco esse abajur vai incendiar.
- Tudo bem, eu não ligo.
- Tá maluca?
- Não. Nunca estive tão lúcida.
- Marina, na boa, não pira. Onde já se viu uma mulher forte como tu se entregar assim por causa do fim de um casamento?
Silêncio.
- Um casamento mesmo. É o teu terceiro, lembra?
- Não lembro não. Pra mim é o único.
- Já ouvi isso antes, gata.
- Bom, se tu veio aqui pra encher meu saco, é melhor ir embora.
- Tou te dando a real. Sou teu amigo.
- Real dada. Pode ir.
- Agora não vou.
- Como assim "não vou"?
- Vou ficar aqui até te ver rindo.
- Então devia ter trazido mala.
Silêncio.
- Tem cerveja?
- Tem.
- Posso pegar?
- Pega. E traz uma pra mim.
- Aheh, gostei!
Jorge volta com as cervejas. Dá uma lata pra Marina e senta no sofá. Marina está em pé, no meio sala, com cara de paisagem.
- Seguinte, Marina, nós vamos sair.
- Não inventa.
- Vamos sim. Tem banda na Zinco.
- Quem é que vai tocar?
- Uns tal de Suspiro.
- Credo! Isso deve ser pagode. Ou new age.
- Não. Parece que os caras fazem um rock progressivo.
- Que deprê!
- Tá com medinho?
- Tou. Argh!
- Bah, tu tá uma velha rabujenta.
- Obrigada.
- Me falaram bem da banda.
- Quem falou?
Silêncio.
- Quem falou?
- Não lembro.
- Lembra sim. Quem?
- Tá... Foi o Clóvis.
- Puta que pariu.
- Deixa de ser chata, vamos lá!
- Mas o idiota vai?
- Não. Se ele fosse eu não te convidaria.
- Espertinho... Não sei o que te dizer.
- Diz que vai.
- Tá bom. Vou. Vou me vestir.
- Põe aquele vestido vermelho.
- Fora de cogitação. Tou triste e gorda. Sem chance.
Marina sai. Jorge fica lendo revistas. Marina volta, vestida num macacão preto.
- Nossa!
- Vou à caráter. Quero ir ao fundo do poço hoje, pra pegar impulso.
- Boa! Tu precisas recomeçar tua vida.
- Do zero, de preferência! - Marina ria pela primeira vez.
Jorge e Marina saem. O abajur incendeia. E tudo mais.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
forma [ouvindo música]
forma e flor
num vaso de cor
quase azul aberto
meio esverdeado, talvez ou decerto
um ciano acima dos canais de veneza
curva e perfume
perto do cinzeiro cheio
longe do buda de cara tranquila
mais especificamente em cima da mesa
pôr [ouvindo Carlota]
senti o sol. ouvi o mar. vi o perfume do sal.
falei sobre o haver. degustei alegrias e dores. pesei.
tudo para abraçar o crepúsculo, ninar o luco-fusco, desembalar-me.
fui rainha do dia que dormia.
era eu que amanhecia
naquele pôr.
falei sobre o haver. degustei alegrias e dores. pesei.
tudo para abraçar o crepúsculo, ninar o luco-fusco, desembalar-me.
fui rainha do dia que dormia.
era eu que amanhecia
naquele pôr.
este cachorro
Este cachorro está na maturidade. Seu vocabulário nunca esteve tão rico. A lista de palavras conhecidas é extensa. Entre o aqui e o lá têm vários lugares.
E as paisagens fisionômicas ele conhece todas.
E as paisagens fisionômicas ele conhece todas.
tento
tento inventar uma mentira interessante para escrever aqui. mas nada fantasioso me ocorre nesta manhã cinzenta. é a força da realidade que adentrou minha casa, junto com a água da chuva que entra pelas frestas. quando tem sol dá pra ver o desenho dos raios e imaginar estradas. mas hoje não. hoje só tem o branco flúor, úmido e choroso, da tarde que ainda nem chegou. branco ommo desperdiçado.
nada resta além de falar do tempo. quando digo "tempo" me refiro à meteorologia. porque os ponteiros estão parados. porque não há sombra do sábado. porque no hiper só se vê espaço.
nada resta além de falar do tempo. quando digo "tempo" me refiro à meteorologia. porque os ponteiros estão parados. porque não há sombra do sábado. porque no hiper só se vê espaço.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
o abismo [ouvindo Cartola]
o abismo que cavaste com teus pés está aí porque olhaste demais para baixo. teu cérebro esgotou a paisagem resteira. para ele, o chão era limite do qual quis ir além: deu a ordem que teus pés acataram. essa duplinha é obediente e o cérebro só ordena o que conhece. então antes de olhar, veja bem.
a solução está nos olhos.
a solução está nos olhos.
cachorros
cachorros são mais espertos que cariocas. eles mijam em lugares insólitos para ninguém desconfiar. e podem andar na calçada sem chinelos.
cachorros são mais espertos que gaúchos. eles catam correntes de ar numa casa de oito cômodos. e não reclamam do calor.
cachorros são mais espertos que gaúchos. eles catam correntes de ar numa casa de oito cômodos. e não reclamam do calor.
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