terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lívia

Lívia nunca invejou as amigas que têm a sorte de um amor tranqüilo. Invejava as que tinham a sorte de um pau-amigo. E por muito tempo foi assim. Examinava sua agenda telefônica, sua lista de contatos no MSN, seus amigos do ORKUT, e não encontrava “alguém possível” para desempenhar esse papel.

Porém, só agora Lívia entendeu o verdadeiro sentido da expressão que por tanto tempo foi objeto de seu desejo: acordou ao lado de Marcelo, colega de trabalho que a partir de então virou amigo. Por um breve instante Lívia chegou a lamentar a própria falta de imaginação. Mas logo aninhou-se ao corpo do amigo, e dormiu de conchinha sentindo inveja de si mesma.


Kika

Kika assumiu-se atriz aos dezenove anos, após fazer uma ponta num curta-metragem em super-8. Era 1989. Nesse filme ela interpretou uma cartomante que falava espanhol, fumava cigarro e bebia wisky. Kika falava inglês, não fumava crivo e só bebia cerveja. Julgou-se boa atriz, e assim foi.

Hoje Kika assumiu-se Kika, pediu a separação após outra estupidez de Renato. É 2007. Nesta noite ela usa um vestido preto que por meses esteve nas coxias de seu roupeiro esperando uma deixa. Kika pinta a boca com batom vermelho e solta os cabelos. Julga-se bonita e forte, e assim sai.

Mais cansada do que triste, Kika vai dançar. E de salto alto.

Jéssica

Jéssica pensou que Cláudio estivesse ficando biruta quando ouviu de sua boca a frase: “Eu te amo”. Que leviano! Que precipitado! Como poderia estar certo do que estava dizendo se estavam saindo há apenas duas semanas? Que imaturidade conjugar este santo verbo em vão! Nesse momento Jéssica pensou que ela e Cláudio eram diferentes demais, que jamais seriam um casal.

Transtornada com a declaração de Cláudio, Jéssica levantou da cama e foi ao banheiro. Fechou a porta. Passou a chave. Olhou-se no espelho e chorou.

O sol já invadia o quarto quando Jéssica saiu do banheiro. Estava disposta, “inexplicavelmente” disposta. E Cláudio dormia como se nada tivesse acontecido.

Jéssica vestiu-se, apanhou a bolsa e bateu a porta com força, como se isso impulsionasse seus pensamentos. Ela age sempre da mesma maneira quando está digerindo uma idéia: sem se despedir, mas fazendo esparro.

Com as idéias fervilhando, o coração palpitando e a respiração ofegante, Jéssica foi à feira. E, entre batatas e repolhos, lembrava do “eu te amo” de Cláudio.

Mais bonita que nunca, Jéssica comprou morangos - coisa que não fazia há muito tempo.

Cláudio ainda dormia. Na sua geladeira repousava um pote de chantilly.

Ivone

Ivone é gorda. Bela, porém gorda. Quando adolescente, não foi beijada. Quando jovem, permaneceu virgem. Agora, madura, desistiu de desejar. Ela quer. E quer mais que beijos e paus. Ivone quer casar.

Cadastrou-se num site de relacionamentos e, no lugar da foto, postou uma imagem de Monalisa. Ivone não está completamente mentindo, de fato elas se parecem: cabelos escorridos, mãos delicadas, olhar misterioso, rechonchudas. Sua página já teve dezenas de acessos, mas até agora nenhum convite de amizade, nenhuma mensagem, nenhum comentário.

Sobre o gesto de expor-se como a Gioconda, Ivone não pensa. Ignora que Monalisa vive dentro de uma caixa, uma redoma de vidro, feito a Rosa do Pequeno Príncipe.

Dezenas de curiosos se aglomeram no Louvre para ver aquela mulher desejada e controversa, dezenas de curiosos acessam a sua página por motivo idem. Todos por elas. Apenas olham, não podem tocá-las e nem chegar muito perto.

Tanta beleza encaixotada e elas com horror das correntes de ar...

Helena

Helena chamava-se Heitor. Mudou de sexo. Melhor: conquistou seu sexo, apropriou-se de si mesma. Sem pinto, ela agora está inteira. Pode usar sem constrangimentos a mini-saia justa que já é a sua segunda pele. 

Nesta manhã não foi trabalhar. Acordou e foi ao shopping. No reflexo da porta automática, percebeu-se muito alta. Mas no espelho do banheiro feminino, reparou que está mais bela.

Feita a constatação, comprou meia-calça e perfume. Hoje é dia de jantar com Heitor, seu novo namorado. Um homem com h maiúsculo que diz que coincidências não existem.

Gabriela

Gabriela nunca gostou de ficar parada. Na infância foi diagnosticada hiperativa. Tomou remédios, fez terapia, obteve alta. Agora ela viaja pelo mundo. Sozinha. E escreve cartas para si mesma.

Ontem estava em Berlim, hoje está em Paris e amanhã partirá para a Austrália. Sua concentração não requer repouso.

E ela precisa chegar em Sidney antes que chegue sua carta.  

Fátima

Fátima é sagitariana. Bióloga. Não acredita em Deus. Confia na ciência. Duvida dos homens. Ama a natureza. Tem poucos amigos, mas seu jardim é repleto de flores. Ela é contra inseticidas. Usa incensos de citronela. Sua bebida preferida é chá de hibiscus, mas aos sábados bebe cachaça artesanal. Só vê TV aos domingos e acha a televisão brasileira uma merda. Sua cor preferida é verde, mas desistiu de ser vegetariana. Perdeu o gosto de ler ficção. Detestou o filme O Senhor dos Anéis.

Fátima mora em Porto Alegre, porém distante do centro. Nunca teve carro nem cachorro. Já pensou em criar um gato. Jamais teria passarinhos em gaiola. Separa o lixo seco do orgânico, mas não lava a badeja de lasanha congelada. Parou de fumar porque não sabia em qual lixo colocar as butucas de cigarro. Cultiva alguns temperos. Inços e formigueiros também. Reconhece o valor dos guerreiros.

Fátima tem um namorado. E é ele quem come lasanha congelada.

Érica

Tudo começou quando Érica leu a seguinte manchete: “Sua lingerie diz quem você é”, numa dessas revistas femininas que falam basicamente de beleza, sexo e consumo. Estava na ante-sala da terapia, que correu normalmente, como se não existissem essas revistas, como se a vida de uma mulher de trinta anos, em pleno século XXI, fosse tão profunda quanto um romance de Clarice Lispector.

Chegando em casa, Érica abriu sua gaveta de calcinhas e quase não acreditou que pudesse ser aquela mulher que se desenhava em cores pastéis, desbotadas e encardidas. Sentiu-se gasta, como se o tempo a tivesse usado em seu próprio e único favor. O que ela havia ganhado com isso senão o desgaste normal das cores e a flacidez das carnes? Rugas. Sim, ela estava começando a ter rugas. Cabelo branco já tinha há muito tempo.

Então, hoje, Érica vai às compras. E amanhã irá à dermatologista.

                                                
                                                                              [este texto foi escrito no século passado (!), alterei para"século  XXI"]

Dulce

Dulce é daquelas pessoas nas quais, logo de cara, confiamos. É uma grande amiga, porque de todas é a que tem o maior ombro e os melhores ouvidos.

Dulce se doa inteira, mesmo quando está pela metade. Aos amigos e aos demais. Ela teria tudo de sobra, se já não tivesse dado tanto. Mas Dulce continua dando, e sua compaixão só aumenta. Assim como a extensão de seu ombro e a percepção de seus ouvidos.

Dulce é doce demais.

E seu nome poderia ser Dóris, “aquela que se joga”.


[referência à expressão “Te joga, Dóris!”]

Carminha

Carminha está decidida a arranjar um namorado. E promoveu esta decisão a uma meta. Até o final do ano terá de ter encontrado um homem pra chamar de seu. Voltou a malhar. Voltou a comer granola. Está usando adesivos para parar de fumar.

Carminha acredita que encontrará esse homem num lugar improvável: supermercado, ônibus, dentista, fila do banco. Em razão disso tem até gostado de fazer coisas que antes detestava. Carminha está mais feliz.

Neste momento está em frente ao espelho, retocando o batom para ir à locadora devolver o filme “Amor à Flor da Pele”. Filme chinês. Lindo. Cenário: Hong Kong, década de sessenta. Vestidos belíssimos. Mas o casal não fica junto no final. Lamentável.

Carminha é assim, só se contenta com finais felizes. O contraditório é que só loca filmes europeus, nacionais e asiáticos. Carminha é assim, incoerente.  Diz que não gosta de cinema americano.


                                                   [filme: In The Mood of Love, de Wong Kar-wai]

Beatriz

Ao acordar, Beatriz sente aquele desânimo habitual. É feriado e ela está de ressaca. Sim, mais uma vez Beatriz passou dos limites: enfiou o pé na jaca, chutou o balde e o pau da barraca. Ao mesmo tempo. Às vésperas de um dia inútil.

Ainda está deitada na cama. Não lembra direito a ordem dos fatos, a cronologia das cenas e tampouco o cenário ou as falas. Olhando para o teto mofado, toma uma sábia decisão: passará o dia ocupando-se de sua ressaca.

Levanta da cama e abre a janela, fingindo para o sol que está bem disposta. Joga água no rosto para tirar a maquiagem. Maldito rímel à prova d’água! Mas antes de chegar aos olhos a água é diretamente engolida. E Beatriz se permite. Bebe água da torneira e fica mais alguns minutos maquiada, com cara de panda. Ou de puta velha. Suas células estão sendo corroídas por radicais livres, mas ela se permite. Seu organismo é uma colônia de bactérias, mas ela se permite. Seu corpo agora é uma caixa d’água, mas ela se permite. Sede é assim: somos capazes de morrer por um copo d’água.

Ocupada de sua ressaca, Beatriz passará o resto do dia sem beber coca-cola.

Alice

Alice está eufórica. Em suas palavras: mega-feliz. Alice voltou a pintar. Em suas palavras: a pintura voltou para ela, e está em suas mãos agora. Alice pode tocá-la, sentir seu cheiro, imaginar seu gosto.

Alice voltou a ver as cores que se escondem nos tons terrosos, ocres e cinzas. Ela novamente enxerga quem são as cores que estão ali e que agora se deixam ser descobertas. As cores se exibem aos olhos de Alice. E as formas se mostram em linhas firmes que parecem ter vida própria. Para Alice, elas têm.

Por tanto tempo estiveram dormindo, estiveram tão longe, não estiveram. Alice esteve sozinha e sentia saudade.

Nesta tarde, Alice não sairá de casa, não ligará o computador, não atenderá ao telefone, não abrirá a caixa de correio, não arrumará a cama, não lavará a louça, deixará o feijão de molho e as janelas abertas.

Alice continua pintando, mega-feliz, porque a pintura voltou.